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SOBRE A PLATAFORMA VAMOS

Não "vamos" com Gleisi Hoffman e a tropa lulista

Um projeto que se propõe discutir um programa "em aberto" de reformas do capitalismo sem nenhuma crítica ao que foi a experiência do PT só pode ter como objetivo encobrir a repetição dos mesmos erros que este cometeu.

Fernando Pardal

@fepardal

sexta-feira 18 de agosto| Edição do dia

Na última semana a Folha de São Paulo noticiou o surgimento do "Vamos! Sem medo de mudar o Brasil", uma plataforma virtual para discutir um programa para o Brasil. Inspirado nos projetos da esquerda europeia como Podemos e Syriza, o site se propõe interativo, pra que os internautas possam opinar sobre pontos de programa dizendo se concordam, se não concordam ou se tem dúvidas. Segundo os organizadores, "ao final do ciclo de discussões, o acúmulo será disponibilizado de forma transparente e aberta, até que um novo desenho de Brasil seja delineado pelas nossas mãos".

Os 5 eixos programáticos são: democratização dos territórios e meio ambiente, democratização da economia, democratização do poder e da política, um programa negro e feminista, democratização da comunicação e da cultura. Como se vê nos próprios títulos dos eixos, o programa se restringe a reformas no marco do sistema capitalista, o que se confirma nos pontos programáticos que não questionam a propriedade privada.

Entretanto, o que mais chamou a atenção foi o rápido abraço de urso que o PT deu nesta iniciativa. A iniciativa de lançar o “Vamos!” se deu encabeçada por Guilherme Boulos, do MTST, a Frente Povo Sem Medo, alguns setores do PSOL e setores “descontentes” do PT, como Lindbergh Farias. Posteriormente outros grupos, como o MAIS, aderiram, assim como a alta cúpula petista, o que foi expresso pela declaração entusiasmada de Gleisi Hoffman saudando a iniciativa.

Algumas figuras que encabeçam este processo, ou militantes da esquerda que ficaram confusos com a adesão do PT, responderam que o PT percebeu a força da iniciativa e por isso quiseram entrar. Esta é uma análise "alegre", que serve no máximo para não mudar nada. Que o PT sempre quer sufocar e impedir o surgimento de uma alternativa a sua esquerda é um fato. Mas pior ainda é quando as propostas que surgem da esquerda facilitam este caminho. Uma plataforma pela "democratização", uma plataforma "plural e por consenso" (?) e uma plataforma que não fala nada sobre o papel do PT na última década e menos ainda sobre a convulsiva situação de luta de classes que o país viveu, porque o PT não entraria nesta jogada? Porque um projeto que se propõe discutir um programa "em aberto" de reformas do capitalismo sem nenhuma crítica ao que foi a experiência do PT só pode ter como objetivo encobrir a repetição dos mesmos erros que este cometeu.

É por isso que Gleisi Hoffman, presidente do PT pode compartilhar em suas redes sociais, assim como Vagner Freitas, presidente da CUT também. O mesmo que encabeçou o boicote e traição da paralisação do dia 30 de junho. Ou seja, vejamos bem: após a aprovação da reforma trabalhista, após as centrais sindicais como CUT e CTB terem cumprido este papel na luta de classes - aqui nem falamos da mafiosa Força Sindical que diretamente vendeu nossa luta ao governo golpista - depois de tudo isso parte importante da esquerda organizada no PSOL e outras correntes menores lançam sua atividade política a este projeto para debater com o PT. Isso só pode significar a renúncia de qualquer tipo de principio de independência de classe.

Ao contrário, frente a todos os ataques que a classe trabalhadora está sofrendo, e frente à enorme ameaça que é a reforma política para todos os partidos da esquerda, o PSOL deveria cumprir o papel de batalhar para ser uma alternativa à esquerda do PT que possa fazer diferença na luta de classes e que não permita que a desmoralização com o PT seja canalizada pela direita. Para criar essa alternativa, as iniciativas de unidade de ação contra os ataques são fundamentais, e nesse sentido participamos dos atos convocados pela Frente Povo Sem Medo contra as reformas, e também viemos apresentada a proposta de entrada no PSOL (sem resposta até o momento) para levar nossas ideias batalhando por uma alternativa anti-capitalista e revolucionária.

O que vemos, entretanto, são dirigentes do PSOL e com especial entusiasmo organizações como o MAIS e a Insurgência estejam afirmando que é necessário sim debater com os grandes dirigentes do PT pra convencer as pessoas. O manifesto do "Vamos" fala em "delinear" um Brasil com nossas mãos. Mas o Brasil do PT já foi delineado por eles nos últimos anos e a conciliação de classes apenas serviu pra abrir espaço para a direita. Porque um ciclo de debates mudaria esse curso?




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