Gênero e sexualidade

Não há bom patrão: relembre os escândalos de racismo e demissões da Avon e outras empresas

A Avon se apoia em causas como o empoderamento feminino, enquanto se utiliza de trabalhadoras informais, em sua maioria mulheres, sem quaisquer direitos trabalhistas e nem mesmo um salário fixo.

quinta-feira 2 de julho| Edição do dia

Na semana passada, uma idosa de 61 anos foi encontrada em casa da executiva Mariah Corazza Üstündag, gerente global do setor de fragrâncias da marca Avon, e filha da conhecida cosmetóloga consultora, Sônia Corazza na cidade de São Paulo. Veja a matéria. A idosa era empregada da família que se utilizou dos serviços da trabalhadora em troca de casa e comida. Ela foi encontrada em um quartinho dos fundos em condições deploráveis, inclusive sem acesso até mesmo ao banheiro. Mariah foi presa e logo em seguidas solta após pagar fiança de R$ 2.100. Esse é o pequeno valor que custa aos empresários escravizar uma pessoa durante décadas.

A Avon se apoia em causas como o empoderamento feminino, enquanto se utiliza de trabalhadoras informais, em sua maioria mulheres, sem quaisquer direitos trabalhistas e nem mesmo um salário fixo. Em 2016, na zona industrial de Calamba, Filipinas, empregava diretamente à 150 trabalhadoras, enquanto que 350 são terceirizadas, recebendo salários baixíssimo e submetidas a excessivas horas extras, condições de trabalho pesado e insalubre, lesões do trabalho nas articulações da costas, pescoço e pulsos, assédio moral, perseguição e a empresa demitiu 16 por se sindicalizarem e se manifestar contra a exploração da empresa.

O ex-presidente da avon Brasil, David Legher, comemorava desemprego pois isso ajudaria ele a conseguir mais vendedoras com trabalhos precários, sem direitos trabalhistas, defendendo fazer reformas estruturais como a reforma da previdência e reformas trabalhistas para a economia seguir em frente.

Fonte da imagem: MIT Sloan Review Brasil

Daniel Faccini Castanho, presidente do conselho de administração do grupo Ânima em abril escreveu um manifesto e fundou o movimento "não demita", reunindo 40 empresas que afirmaram que se mobilizariam contra as demissões na pandemia, e neste mês, demitiu 20 professores da Universidade São Judas.


Fonte da imagem: Banco Itaú

Um exemplo também famoso é o do banco Itaú. Lorena Vieira, influenciadora e empresária, esposa do DJ Rennan da Penha, relata que funcionários chamaram a polícia após ela ter ido à agência para desbloquear um cartão e sacar R$ 1.500. Disseram que não era ela na identidade e que o dinheiro que estava entrando em sua conta era fraude.

Já o presidente da santander, enquanto só na pandemia viu seus lucros aumentarem 10,5% referente ao mesmo período do ano passado, lucrando absurdos R$ 3,853 bilhões líquidos, sugeriu dos funcionários cortar seus próprios salários para dividir com a empresa.

Outro exemplo é a Renner, uma grande varejista de roupas com lojas por todo o Brasil, que lucra com estampas pela diversidade, pelo feminismo, pelas pautas LGBT+, enquanto em 2014 foi responsabilizada por manter 37 costureiros bolivianos sob condição de trabalho escravo em São Paulo.

Fonte da imagem: Lojas Renner

Conheça 9 marcas famosas envolvidas com trabalho escravo

No momento atual da crise sanitária que vivemos, vemos os patrões e o governo jogando os trabalhadores direto pra morte causada pela Covid-19, enquanto se dizem preocupados com a vida, quando na verdade só querem manter seus lucros. São inúmeros os casos da hipocrisia dos grandes empresários. O fato é que os trabalhadores não podem confiar na palavra de seus patrões nem por um segundo.

A apropriação de pautas democráticas como a não demissão, o fim do racismo e do machismo tem se tornado cada vez maior com o aprofundamento das contradições do capitalismo, que se expressam no aprofundamento da exploração e dão origem a revoltas e processos de luta dos trabalhadores. O capitalismo consegue utilizar as pautas democráticas como nicho de mercado, mostrando, por um lado, uma cara de bonzinhos enquanto por trás das cortinas, lucram também com a opressão e a exploração. Tornar a demanda das mulheres, dos negros, dos LGBT+ algo inofensivo ao capital, quando coloca o problema como algo individual de cada ser humano, não como algo estrutural do capitalismo, conseguindo esvaziar essas pautas de seu caráter anticapitalista, fazendo também as empresas não serem mais vistas como racistas, machistas, homofóbicas.

Todos esses tipos de preconceitos são utilizados para fazer com que certas pessoas possam serem tratadas como inferiores, com menos capacidades, o que possibilita diminuir o valor do salário delas comparado com o dos homens, brancos, e heterossexuais e cis (pessoas que nasceram com a genitália de acordo com o gênero que se identificam). O que acontece, é que essas características não são escolhas. Todo ser humano nasce com a sua cor da pele definida e constrói sua sexualidade e gênero socialmente, não existindo lógica científica para serem tratados de forma inferior. A lógica que existe, é quando analisamos a opressão ligada à exploração, a lógica que o capitalismo se utiliza para conseguir aumentar seus lucros, quando pode diminuir o salário de um setor social por ser considerado inferior a outro, o que contribui também para o rebaixamento salarial do conjunto da população. Sendo, portanto, a classe social o fator decisivo para poderem se libertar das amarras.

Os capitalistas, a classe dominante e detentora de todas grandes mídias e indústria cultural, conseguem levar adiante a ideia que nossos problemas podem ter fim dentro do próprio capitalismo a partir do momento que esvaziar pautas, ressignificando algumas demandas para uma apropriação padronizada e mercantilizada.

O preconceito também é a forma utilizada pelos capitalistas para conseguir nos separar enquanto classe, quando coloca o preconceito como algo individual. Por conta de seus atos preconceituosos o capitalismo impõe que as mulheres vejam os homens como seu inimigo, os LGBT+ vejam héteros cis como seus inimigos e os negros vejam os brancos como seus inimigos por conta de seus atos preconceituosos, quando na verdade nosso inimigo é um só: o capitalismo que introduz em nossas cabeças tudo que pra ele é mais rentável e que pode fazer com que enxerguemos e nós mesmos nossos inimigos, em vez dele próprio.

Nossa classe tudo produz e temos em nossas mãos tudo que é necessário para destruir o capitalismo e fazer que a vida tenha plena sentido e que ela valha a pena ser vivida, livre de todas as amarras do capitalismo. A auto-organização em cada local de trabalho junto com a aliança dos estudantes para lutar contra cada ataque dos patrões mostram o caminho.

“Um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.” Rosa Luxemburgo




Tópicos relacionados

Demissão   /    Racismo   /    Que os capitalistas paguem pela crise!   /    Monopólios Capitalistas   /    Gênero e sexualidade   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar