Cultura

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Não existe narrativa neutra: narradores tomam partido!

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 9 de janeiro| Edição do dia

E no começo eram Adão e Eva. Nus no paraíso... Terra e fartura dadas a eles pelo criador de todas as coisas. Mas a vida estava ficando monótona, chata: estava faltando drama, uma boa pitada de conflito. O antagonista perfeito: a serpente... E lá foram Eva e Adão, seduzidos pelo demônio, desobedecer as regras do Senhor. Ambos deram uma bela dentada na maçã, experimentaram o suculento e proibido fruto do conhecimento. É claro que a culpa foi jogada no diabo, mas a humanidade pagou o pato com a expulsão dos dois transgressores do paraíso: seus descendentes teriam que pegar no batente. Estamos assim diante de um fato bíblico. Pode-se ter uma interpretação metafórica ou literal desta narrativa do Genesis. Devemos respeitar ambas as possibilidades de leitura. É uma questão religiosa, logo um direito e um problema de fórum íntimo. Todavia existe alguma tendência ideológica nesta história?

Até uma criança percebe que esta narrativa bíblica exprime um ponto de vista, uma tomada de posição, uma visão, uma lição, uma ideologia. Trata-se de conceber o ser humano enquanto um pecador que para livrar-se das tentações que o corromperiam, deve obedecer as leis do Senhor. Entre Deus e o Diabo as narrativas bíblicas tomam partido do primeiro. Este é um debate religioso que acaba por suscitar antigos problemas filosóficos como as noções e representações do Bem e do Mal. Vamos agora ao que interessa aqui: os conflitos da história, território concreto dos narradores de todas as eras. Será que as histórias que se passam no planeta Terra podem ser contatas por um narrador “ neutro “?

Para os adeptos do atual conservadorismo político é preciso que os narradores sejam politicamente neutros. É como se a crítica expressa na narrativa(do historiador, do romancista, do jornalista etc) fosse parte de um plano diabólico que ainda se esconde pelas folhas da macieira . Denunciar os problemas sociais e posicionar-se diante dos acontecimentos políticos significaria dar continuidade aos planos de satã. Mas o curioso é que palavras como “ Deus “ e “ Pátria “ , sob as quais já ergueram-se montanhas de cadáveres em episódios históricos como as Cruzadas, as Inquisições e a colonização do continente americano(e estejam certos de que não existe nada de metafórico, por exemplo, no massacre das populações indígenas: aconteceu pra valer!), ocultam uma ideologia. Aliás qual acontecimento inserido na realidade humana é intocado pelas ideologias? É impossível narrar e não exprimir uma ideologia. Mesmo quando o narrador decide comportar-se de forma pudica e esquiva-se da sua responsabilidade de representar os problemas sociais de sua época, sua narrativa não consegue escapar da objetividade da história e logo das contradições políticas do seu tempo(não é raro que tais contradições entrem clandestinamente pelo texto/imagem, mesmo quando o narrador não se dá conta, mesmo que estas não correspondam às suas convicções políticas).

Quem acusa alguém de defender uma ideologia faz uso de uma outra ideologia para isso. Os leitores mais esclarecidos que me perdoem mas é preciso no atual momento político do Brasil repetir o óbvio: uma pessoa que não toma partido diante de uma situação histórica(pode ser algo que rolou há mil anos ou na semana passada) deixa que alguém tome partido por ela. Ao não posicionar-se politicamente tomou-se uma posição, ou seja, a posição daqueles que na correlação de forças controlam a produção econômica e a vida política/cultural. Trata-se do velho cabo de guerra da história que numa permanente batalha entre explorados e exploradores exige que o leitor/espectador/ouvinte assuma algum lado(e se ele não assume nenhum é obvio a quem este favorece nestas lutas). Não existe tinta patriótica que dê conta de atropelar estes conflitos históricos. Nem que se fizesse uso de todo estoque de tintas verde e amarela não se pode apagar da memória as lutas do povo.

Que diabos seria um narrador neutro? Será aquele que narra os acontecimentos levando em consideração os pontos de vista de todas as classes sociais ao longo da história, sem identificar-se com nenhum deles? Esta recomendação não se sustenta para os narradores que possuem ética na sua estética. Falando mais claramente: não existe neutralidade! Como não posicionar-se quando contamos uma história? Um escravo negro que viveu na região de Pernambuco ou Bahia durante a época da América Portuguesa , era golpeado por um chicote e em seguida atirava-se uma camada de sal sobre a carne viva. Diante desta brutalidade não se poderia tomar partido do homem surrado/torturado, já que seria preciso também considerar o ponto de vista do feitor e do fazendeiro que possuía o escravo? Durante a Segunda guerra mundial(1939-45), judeus eram escravizados e assassinados por nazistas em campos de concentração espalhados pela Europa. Ao narrar isto devemos também levar em conta o ponto de vista da Gestapo? Vejamos um outro exemplo mais recente, caro aos conservadores histéricos da atualidade: a trajetória de uma militante comunista presa e torturada até a morte nos porões da ditadura militar(1964-85). Poderia o narrador passar a mão na cabeça da ditadura e assim deixar barato os seus crimes? Enquanto que alguns narradores assumem a defesa dos senhores de Engenho, dos nazistas e dos ditadores, existem outros narradores que não abrem mão de tomar partido de todos aqueles que foram oprimidos ao longo da história. Quer dizer, olhando para o passado ou para o presente existem narradores com diferentes posições políticas. Existem aqueles que admiram as aventuras de Júlio César e idolatram todos os imperadores de Roma. Mas existem também aqueles que tomam partido dos escravos e dos povos dominados pelo Império romano. Existem aqueles que olhando para a enorme pintura Independência ou Morte, do artista Pedro Américo, ficam com os olhos umedecidos ao vislumbrarem a figura heroica de D. Pedro I e seus partidários. Mas também existem aqueles que focam sua atenção naquele personagem marginalizado da pintura que, olhando para “ os heróis da independência “, representa nada menos do que um homem do povo. Um narrador de esquerda deseja que o homem do povo não seja um espectador passivo mas autor de sua história, portanto sujeito de suas ações.

Como podemos ver quem toma partido não é vilão de histórias em quadrinhos. Ainda que não seja um provocador, um autor honesto é necessariamente provocado pela história. A respeito da narrativa histórica Leon Trotski, um escritor que não exigia do leitor a concordância integral com suas posições políticas, afirmou sabiamente: (...) “ Ninguém até hoje explicou claramente no que consiste a imparcialidade. Citou-se muitas vezes certo aforisma de Clemenceau sobre a necessidade de ser uma revolução estudada “ em bloco “; isto não passa de espirituoso subterfúgio: como nos poderíamos declarar partidário de um todo que traz, em sua essência, a divisão? (...) O leitor honesto e dotado de senso crítico não sente a necessidade de uma imparcialidade falaciosa que lhe apresente a taça do espírito conciliador saturada de uma boa dose de veneno, de um resíduo de ódio reacionário, mas necessita sim de boa fé científica , que se apoia no honesto estudo dos fatos, na manifestação do que de racional existe no desenvolvimento deles , para exprimir suas simpatias ou antipatias, francas e não mascaradas “(...).

É preciso lembrar sempre que a sociedade brasileira é laica e que no mundo cosmopolita devemos tratar objetivamente de suas contradições, assumindo um posicionamento político claro. Quando alguém decide relatar tensões e lutas sociais não realiza sua reprodução mas uma montagem que, mediante o desenvolvimento objetivo dos fatos, exprime uma posição diante dos mesmos. Os narradores que assumem o ponto de vista dos explorados ao longo da história sempre arriscam o seu próprio pescoço. Mas fazer o que? Quem narra sem medo adora o sabor da maçã.




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