Teoria

MULHERES NEGRAS

Mulheres negras, capitalismo e revolução

Este breve artigo tem como objetivo abordar alguns aspectos da relação entre opressão racial e machismo; assim, tem na mulher negra sua figura de destaque.

Jenifer Tristan

ABC Paulista

quinta-feira 13 de julho| Edição do dia

Este breve artigo tem como objetivo abordar alguns aspectos da relação entre opressão racial e machismo; assim, tem na mulher negra sua figura de destaque. Para que seja possível tratar seriamente a combinação entre racismo e machismo no capitalismo é importante buscar na relação entre escravidão, comércio de escravos, racismo e o início do capitalismo componentes fundamentais que se mostram presentes, de variadas maneiras, ainda hoje nesta sociedade racista e machista. Esta é a primeira parte do artigo. Em seguida buscamos, através do exemplo da luta pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos na virada do século XIX para o XX, aspectos da maneira com a qual raça e classe se articularam no pós-abolição, e os limites de uma luta em defesa dos direitos das mulheres que não seja consequentemente anti-racista. O mesmo drama se expressou em outros países, de distintos modos, mas a profundidade da guerra civil norte-americana, a força das tropas negras (oficiais e não oficiais) e a energia revolucionária aflorada pelo povo negro no pós-guerra civil, colocou a relação entre exploração econômica e opressão racial no centro dos desafios da ordem política. Nesse contexto, a luta pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos se viu obrigada a lidar, à sua maneira, com a relação entre opressão machista e racismo. Por fim, a última parte está dedicada ao lugar que as mulheres negras, pelo nível de opressão e exploração a que estão submetidas no capitalismo, terão na transformação revolucionária da sociedade, com destaque para a situação brasileira.

A escravidão e o comércio de escravos foram pilares do processo de acumulação primitiva de capital. Como Eric Williams e outros depois dele mostraram, o racismo surge como ideologia de justificativa da escravidão, e a forma moderna de escravidão é uma das marcas do início do capitalismo. Segundo Breitman:
“Aqueles que lucraram com a escravização dos negros – os comerciantes de escravos e mercadores capitalistas, primeiramente da Europa e em seguida dos Estados Unidos [1], e os senhores de escravos – exigiram uma racionalização e justificativa moral para uma instituição arcaica que obviamente desrespeitava os princípios relativamente ilustrados defendidos pela sociedade capitalista em sua luta contra o feudalismo.” [2]

Houve distintas e variadas operações ideológicas para justificar a escravidão, que dependiam das relações entre metrópoles e colônias e do próprio processo de luta de classes em cada lugar.

A escravidão se baseava na opressão sistemática aos escravos, com a violência no centro. A resistência esteve sempre presente, de inúmeras maneiras: seja com fugas, formação de quilombos, envenenamento de senhores, busca por um ritmo de trabalho menos árduo, formação de laços afetivos e comunitários de apoio, entre outros. Não é possível entender minimamente o que significou a escravidão para a história mundial sem considerar a resistência negra. Nas palavras de CLR James:

A história revolucionária dos negros é rica, inspiradora e desconhecida. Negros se rebelaram contra os caçadores de escravos na África; rebelaram-se contra os comerciantes de escravos no Atlântico. Se rebelaram nas plantations [...] O negro dócil é um mito [...] O único lugar onde os negros não se rebelaram é nos livros dos historiadores capitalistas. [3]

Mais especificamente, resistência negra, por sua vez, tem na mulher negra uma figura pouco conhecida e estudada. Vejamos um exemplo. Ainda que no debate historiográfico a ideia segundo a qual a escravidão tenha destruído por completo a família negra, defendida de maneira acabada pela primeira vez por Franklin Frazier na década de 1930, tenha perdido espaço dentro do debate historiográfico nos últimos 30 anos, as importantes contribuições sobre a relação entre a mulher escravizada, família e o lugar de laços afetivos na escravidão atestam o quanto ainda há por ser discutido [4].

O pouco conhecimento sobre a mulher escravizada contrasta com sua importância no processo de produção de riquezas durante a escravidão e, ao mesmo tempo, dificulta o entendimento das particularidades opressivas às quais as mulheres negras se encontravam submetidas. As mulheres escravizadas sofriam as mesmas punições que homens escravizados. Desse ponto de vista, a imposição do trabalho escravo nivelou homens e mulheres negros; o trabalho não constituía esfera restrita ao homem. Porém, por serem mulheres, as negras escravizadas “eram inerentemente vulneráveis a todas as formas de coerção sexual”. Não se tratava de capricho ou “vontade” dos senhores, somente. Segundo Davis, “O estupro, na verdade, era uma expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário e do controle do feitor sobre as mulheres negras na condição de trabalhadoras”5. A opressão sistemática às mulheres, que têm no estupro talvez sua expressão mais forte, era condição necessária para a garantia da ordem que regia a escravidão. Não se trata de uma discussão sobre o passado. Somente os mais reacionários e cegos são capazes de negar que a escravidão tem um impacto profundo na vida de todos os negros após a abolição e até hoje.

O trabalho escravo foi fundamental para o processo de acumulação de capital que, no final do século XVII e no XIX desembocou na Revolução Industrial. Ou seja, o capitalismo se formou sob as mãos de negros e negras escravizados. Assim, este, que é um sistema social que depende da exploração da força de trabalho de uma classe, a trabalhadora, em benefício de outra, a burguesa, surgiu em base à uma forma totalmente nova de opressão racial. Sobre a relação entre revolução clássica representativa desse processo e a escravidão, CLR James afirma:

A Revolução Francesa foi uma revolução burguesa, e a base da riqueza da burguesia era o comércio de escravos e as plantations nas colônias. Não deve haver dúvida alguma sobre isso. ‘Triste ironia da história’, diz Jaurès, ‘que as fortunas criadas em Bordeaux, em Nantes pelo comércio de escravos, tenham dado à burguesia o orgulho que reclamou liberdade e contribuiu para a emancipação humana [6].

A frase de Jaurès tem um sentido mais profundo se a entendermos desde a perspectiva da mulher negra. O enriquecimento da burguesia, e seu consequente fortalecimento ideológico e teórico – que, de maneira simplificada podem ser considerados como Iluminismo – foi possível graças à exploração e opressão sistemática do povo negro. Exploração que inseriu o trabalho no centro da vida do povo negro, sendo que “O enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos da escravidão” . [8] A profunda opressão às mulheres negras, desse ponto de vista, adquire uma dimensão histórica que a coloca como um elemento intrínseco do processo de fortalecimento da burguesia como classe dominante.

Mas não se trata de algo que esteve presente somente nos séculos de ascensão da burguesia; a opressão racista às mulheres toma formas mais complexas com o fim da escravidão e a generalização do trabalho livre. Entender isso é fundamental para um combate contra a exploração e opressão que entenda que o inimigo central das mulheres trabalhadoras é a própria burguesia.

Raça, classe e o movimento sufragista nos Estados Unidos

“Quero ser igualada ao negro. Até que ele tenha seus direitos, nós nunca teremos os nossos” [9]

Essa poderosa frase, dita por Angelina Grimké, militante branca em defesa dos direitos das mulheres, no encontro inaugural da Liga das Mulheres pela Lealdade, em 1863, nos Estados Unidos, sintetiza a profunda relação entre opressão racial e machista. Os Estados Unidos viviam um período de guerra civil, que abriu possibilidades de mudanças profundas naquele país. Como veremos, a luta pelo direito político das mulheres foi impulsionada pela participação importante de mulheres no movimento abolicionista. A direção do movimento sufragista, de maior destaque na Grã-Bretanha, primou pela busca da representação política das mulheres – este entendida como direito ao voto. Assim, era um movimento policlassista. A relação entre opressão de gênero e exploração capitalista destrinchada pelo movimento de mulheres ligado à classe trabalhadora nesse período, que tinha na alemã Clara Zetkin sua principal figura, e a consequente necessidade de combater o machismo desde uma perspectiva revolucionária foi combatida pela direção do movimento sufragista. A luta por direitos essenciais, democráticos, como o direito ao voto e por plenos direitos civis da população negra que acabava de se libertar da escravidão, deveria ser tomada integralmente como uma luta contra o próprio sistema capitalista e o poder político exercido pela burguesia. E, também veremos na parte final deste artigo, devem ser levadas a cabo como parte da tremenda força social da classe trabalhadora. Não encarar a luta contra o racismo e machismo dessa perspectiva custou caro à luta pelos direitos das mulheres no mundo inteiro e, especificamente no que vamos tratar aqui, no embate contra o racismo nos Estados Unidos. No primeiro caso, acarretou uma posição imperialista na 1° Guerra Mundial, de auxílio aos governos beligerantes em particular na Inglaterra onde o movimento era muito forte, e a divisão do movimento em defesa dos direitos das mulheres, entre aquelas que eram a favor dos respectivos governos na 1ª Guerra e as socialistas que eram contrárias à guerra entre países e entendiam que era necessário lutar contra a própria burguesia.

Infelizmente, as lideranças do movimento sufragista naquele país não tiveram o alcance de visão de Grimké e, ao focar somente na representação política das mulheres em um contexto de abolição da escravidão – e com uma posição racista em relação aos homens negros –, abriram possibilidade para que a luta pelos direitos das mulheres fosse utilizada de maneira a reforçar ao povo negro, homens e mulheres, a defesa de uma sociedade profundamente racista.

Em “Mulheres, raça e classe”, Davis demonstra que a luta abolicionista atraiu um setor muito importante de mulheres brancas de classe média, ainda na primeira metade do século XIX. Em uma sociedade capitalista que modificava em alta velocidade a realidade à sua volta, o papel estabelecido para as mulheres, restrito às tarefas domésticas, vai perdendo relevância e as mulheres brancas de classe média começam a apoiar a luta contra a escravidão, o que as valorizava por suas ações e não por papéis pré-estabelecidos.

Vale a pena citar a própria Davis:

O movimento antiescravagista oferecia às mulheres de classe média uma oportunidade de provar seu valor de acordo com parâmetros que não estavam ligados a seus papéis como esposas e mães. Nesse sentido, a campanha abolicionista era um espaço em que elas poderiam ser valorizadas por seu trabalho concreto [10]

E esse é um ponto importante, porque Davis nos lembra que a participação organizada de mulheres na luta contra a escravidão se iniciou antes do movimento geral pelos direitos das mulheres.

Quando este movimento se iniciou, nos Estados Unidos os escravos naturalmente não podiam votar pois eram considerados propriedade, sem direito algum. As mulheres brancas tampouco podiam votar. Atacadas pelo sistema patriarcal e misógino, as mulheres brancas que defendiam a abolição da escravidão, forçaram, dessa maneira, seu ingresso na arena política. Era na luta contra a escravidão que as abolicionistas se faziam ouvir. Assim, lutando contra a opressão racial, questionando o papel socialmente a elas relegado, encontrando nas ruas, nos jornais, nos debates, locais privilegiados para fazerem-se ouvir e expressar suas opiniões, “aprenderam importantes lições sobre sua própria sujeição. ” [11] É nesse contexto, junto com a influência de movimentos pelos direitos das mulheres na Europa, em especial na Inglaterra, que se desenvolve nos Estados Unidos um movimento pelo direito ao voto feminino. Entretanto, a escravidão impunha um limite fundamental na luta pelo direito das mulheres. Segundo Davis:

Como regra, pessoas brancas abolicionistas ou defendiam os capitalistas industriais ou não demonstravam nenhuma consciência de identidade de classe. Essa aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista era evidente também no programa do movimento pelos direitos das mulheres. Se a maioria das abolicionistas via a escravidão como um defeito indecente que precisava ser eliminado, a maioria das defensoras dos direitos das mulheres enxergava a supremacia masculina de forma similar – como uma falha imoral de uma sociedade que, em seus demais aspectos, era aceitável. [12]

Essa “aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista” custará muito caro ao movimento das mulheres, e à própria luta antirracista. Após a guerra civil norte-americana, que foi vencida pelos exércitos da União graças à coragem dos soldados negros, e o fim da escravidão, setores do movimento de mulheres fez coro com posições abertamente racistas expressas pela ordem política. O que estava em jogo era o reordenamento das forças políticas naquele país, que agora contava com uma massa de negras e negros altamente moralizados por sua participação, direta ou indireta, em uma guerra civil que impôs sua liberdade. A moral do povo negro e sua organização em busca de direitos políticos e econômicos levou a burguesia branca e racista ao pânico. Os anos conhecidos como o período de Reconstrução foram tão intensos que as leis de segregação racial (cujo marco foi o caso de Plessy v. Ferguson de 1896) foram impostas como uma das medidas necessárias para manter a ordem burguesa, racista e imperialista. Nesse contexto, a ideologia e política de supremacia branca, como Davis ressalta, aproximou-se da campanha pelo voto feminino para minar os direitos dos negros, mulheres e homens, em especial o direito ao voto. Como resultado, não somente o voto feminino, branco, não foi alcançado até meados do século XX, como o sistema político e jurídico norte-americano lançou uma feroz ofensiva contra a população negra, sistematizando leis de segregação racial, organizando ou no mínimo sendo conivente com assassinato sistemático de negros por organizações racistas como a Klu Klux Klan e obrigando os trabalhadores negros a receberem os piores salários e a estarem nos piores empregos.

A aproximação entre as lideranças do movimento de mulheres e políticos racistas, porém, não aconteceu sem resistência dentro do próprio movimento. Sojouner Truth, que em 1851, havia feito um discurso que minava a visão acerca da “fragilidade feminina”, combateu o racismo nas fileiras do movimento incansavelmente. Outro exemplo é o de Frances Harper, poeta negra, que defendia com força o direito ao voto dos homens negros. Ida B. Wells também foi uma importante crítica do racismo no movimento de mulheres, e o eixo de sua defesa da urgência de direitos políticos ao povo negro se dava através da denúncia dos linchamentos que os negros sofriam, com o aval da polícia e dos políticos. A força do discurso de Sojourner Truth, no começo da década de 1850 denuncia tanto a opressão de raça quanto a de gênero. Vale a pena citar essa importante demonstração de clareza, força e ousadia:
Arei a terra, plantei, enchi os celeiros, e nenhum homem podia se igualar a mim! Não sou eu uma mulher? Eu podia trabalhar tanto e comer tanto quanto um homem – quando eu conseguia comida – e aguentava o chicote da mesma forma! Não sou eu uma mulher? Dei à luz treze crianças e vi a maioria ser vendida como escrava e, quando chorei em meu sofrimento de mãe, ninguém, exceto Jesus, me ouviu! Não sou eu uma mulher? [13]

Esse é um exemplo da força e firmeza das mulheres negras que lutavam contra o avanço do racismo nas fileiras do movimento. Os Estados Unidos depois da Guerra Civil passaram por um reordenamento político importante, um ataque profundo à população negra que havia se colocado em movimento e ocupado importantes espaços políticos após a derrota militar dos Estados Confederados, demandando melhores condições de vida e maior representação política. Nesse contexto, a sistema político e econômico norte-americano se valeu do racismo nas fileiras do movimento de mulheres para minar a participação da população negra na vida política. E assim, a “aceitação sem objeções do sistema econômico capitalista”, cobrou um preço alto. Um democrata racista sintetizava sua visão sobre o voto da seguinte maneira: “Primeiro a mulher, por último o negro, eis o meu programa”. E as lideranças brancas do movimento de mulheres aceitavam de maneira inconteste essa perspectiva, reproduzindo em suas fileiras noções racistas acerca do povo negro, em especial os homens.

A ausência de direitos básicos de cidadania para a população negra nos Estados Unidos, na virada do século XIX para o XX, conferiu aos negros salários baixos, piores empregos e opressão sistemática. Essa foi a realidade que o capitalismo ofereceu às mulheres negras com o fim da abolição. Nas palavras de Davis
De acordo com o censo de 1890, havia 2,7 milhões de meninas e mulheres negras com idade acima dos dez anos. Mais de um milhão delas eram trabalhadoras assalariadas: 38,7% na agricultura, 30,8% nos serviços domésticos. 15,6 % em lavanderias e ínfimos 2,8% em manufaturas. As poucas que encontraram emprego na indústria realizavam os trabalhos mais sujos e com os menores salários [14].

1890 já passou faz tempo e hoje, por exemplo, o mundo é muito mais urbano. Mas o conteúdo desses dados não nos soa extremamente atual?

A luta de mulher negra é a luta da unidade das trabalhadoras pela revolução

O caso do movimento sufragista nos Estados Unidos é ilustrativo da complexa relação entre classe e raça, pois deixa claro que a ausência de uma perspectiva de independência de classe frente à burguesia somente pode enfraquecer e dividir a luta das mulheres. Ao mesmo tempo, deixa claro que há diferenças importantes em relação à opressão das mulheres negras. São elas que estão sujeitas aos níveis mais profundos de opressão. Essa diferença está presente, se faz sentir com toda a força e deve ser amplamente considerada em qualquer luta contra a opressão às mulheres. A escravidão, assim como a maneira pela qual a abolição se realizou nos diversos países escravagistas, tem profundas consequências na maneira pela qual as mulheres negras são oprimidas no capitalismo. O capitalismo se apoia no racismo de diversas maneiras, entre as quais estão a divisão da classe trabalhadora – onde trabalhadores brancos reproduzem o racismo –, e o pagamento de salários mais baixos a negras e negros, forçando a redução dos salários e direitos do conjunto da classe trabalhadora [15]. Ao mesmo tempo, o machismo também é elemento fundamental da exploração capitalista da força de trabalho da classe operária. O marxismo revolucionário não pode se limitar a “somar” racismo + machismo ao tratar da condição da mulher negra. Deve buscar as raízes da relação entre racismo, machismo e capitalismo e entender como se articulam na perpetuação da ideologia e do sistema capitalista. E isso significa bradar aos quatro cantos que a combinação entre opressão racista e machista em relação às mulheres negras exerce sobre nós um peso incalculável.

A objetificação da mulher negra – ao mesmo tempo em se nega a condição “feminina” às mulheres negras fora do padrão projetado, a morte proporcionalmente muito maior de mulheres negras por realizarem aborto nas piores condições, a gritante diferença salarial entre mulheres negras e homens brancos, a presença de mulheres negras nos piores trabalhos; exemplos estes entre tantos outros que dizem respeito à vida da mulher negra, ao horizonte de possibilidades da mulher negra sob o capitalismo, ganham um sentido mais elevado se buscarmos entende-los desta perspectiva.

Ao mesmo tempo, as mulheres negras compartilham com o conjunto da classe trabalhadora a força social fruto de sua localização na economia capitalista. Por serem trabalhadoras, possuem a capacidade de controlar a economia de maneira racional e seguindo os interesses de nossa classe, de nossa raça e do conjunto do povo pobre.

Vejamos o caso do Brasil em relação a um aspecto, o trabalho precário. No Brasil, o maior país negro fora da África, a classe operária é um gigante de mais de 90 milhões de trabalhadores, em sua maioria negros. É também onde existe uma fratura que divide esta classe entre efetivos e mais de 12 milhões de trabalhadores terceirizados; é o país que tem o maior exército de empregadas domésticas do mundo, que são em sua esmagadora maioria negras e compõem a pior média salarial nacional.

Não há como negar que a precarização do trabalho tem rosto de mulher. Mas acima de tudo tem rosto de mulher negra. Precarizar o trabalho não é somente uma medida para garantir maiores lucros às empresas. Não é possível entender do que se trata sem essa dimensão, mas é, ao mesmo tempo, uma das mais perversas expressões de como o racismo divide a classe trabalhadora e favorece a exploração capitalista. Divide a classe, entre outras maneiras, porque associa trabalhos piores à população negra, naturalizando a opressão racial; divide porque essa associação, se não combatida pelos organismos da classe trabalhadora, acarreta na diminuição da capacidade de articulação da força social de setores da classe trabalhadora. E isso é tudo o que a burocracia sindical quer.

O combate ao racismo precisa ser tomado pelas ferramentas da classe trabalhadora, os seus sindicatos, para que com esta força gigantesca possa libertar dos grilhões da escravidão moderna os setores mais oprimidos de nossa sociedade composto por milhões de mulheres negras. Esta batalha deve começar pela necessária e urgente campanha por iguais direitos e salários para trabalhadores negros e brancos, efetivos e terceirizados e pela efetivação de todas as trabalhadoras terceirizadas com iguais direitos e salários ao dos trabalhadores efetivos.

Para tanto é necessário seguir o exemplo de nossas irmãs russas em 1917 e virar nossas armas à burguesia e seus representantes políticos. Para que haja real possibilidade das mulheres negras se libertarem da opressão e exploração, é necessário uma revolução social, que abra caminho para profundas transformações na vida material, cultural e moral da sociedade. Em relação ao povo negro, CLR James expressou desta feliz maneira seu papel na busca por uma sociedade mais digna:

O que nós marxistas devemos ver é o tremendo papel social desempenhado pelos negros na transformação da sociedade ocidental do feudalismo ao capitalismo. É somente desse ponto de vista que seremos capazes de reconhecer (e nos preparamos para) o ainda maior papel que necessariamente desempenharão na transição do capitalismo para o socialismo [16]

Quem, se não as mulheres negras, estará à frente deste desafio?
O grande revolucionário russo Leon Trotsky em uma frase conhecida dizia que “aqueles que mais sofreram com o velho são os que lutarão com mais força pelo novo”. Isso sintetiza em poucas palavras a força revolucionária que as mulheres negras já mostraram e mostrarão nos próximos processos de luta de classes.

A autora dessas linhas tem a certeza que nos próximos processos de luta de classes essas guerreiras negras voltarão a reviver as lições de Dandara, Luiza Mahin, Aqualtune, Harriet Tubman e tantas outras lutadoras, e que combatendo a brutal opressão sofrida pelas mulheres negras serão as porta-vozes da libertação do conjunto da classe trabalhadora e da humanidade.

1 Jenifer Tristán é militante negra integrante do grupo de mulheres Pão e Rosas.

2 O texto se refere aos Estados Unidos, mas a afirmação, com diferenças, pode ser estendida a todos as colônias e futuros países onde havia escravidão.

3 Breitman, George. Quando surgiu o preconceito contra o negro. In A Revolução e o Negro. São Paulo: Edições Iskra, p. 11, 12

4 Idem, p. 21, 22.

5 Afinal, não se trata de uma discussão menor. Para citar um caso importante no debate brasileiro, Florestan Fernandes se vale de posições de Frazier em seu Integração do Negro na Sociedade de Classes.

6 Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 36.

7 James, CLR. A Revolução e o Negro. In A Revolução e o Negro. São Paulo: Edições Iskra, p. 23.

8 Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 17.

9 Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 77.

10 Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 51.

11 Idem, p. 51.

12 Idem, p. 75.

13 Idem, p. 71.

14 Idem, p. 95.

15 Vejamos um caso que pode servir de exemplo. Há anos há trabalho terceirizado no mundo, e no Brasil em particular. A população negra, as mulheres em sua enorme maioria, compõem as fileiras desses empregos com baixos salários e poucos direitos trabalhistas. Para responder à crise econômica atual, o governo brasileiro quer regulamentar a terceirização praticamente sem limites. As mulheres negras foram as primeiras atacadas e não houve resposta de fundo ao problema; agora o ataque pretende se generalizar ao conjunto da classe trabalhadora.

16 James, CLR. A Revolução e o Negro. In A Revolução e o Negro. São Paulo: Edições Iskra, p. 22.




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