Gênero e sexualidade

DOSSIÊ: FEMINISMO E MARXISMO

Mulheres em primeira pessoa

Resenha do livro "Manual da Faxineira: contos escolhidos", de Lucia Berlin, publicado no Brasil este ano pela editora Companhia das Letras, traduzido por Sônia Moreira.

sexta-feira 2 de junho| Edição do dia

O título do livro chama a atenção. Poderia ser um verdadeiro “manual” para limpar melhor as superfícies difíceis do lar. Um livro com conselhos para que as “senhoras da alta sociedade” aprendam a tratar com as trabalhadoras da limpeza. Ou, porque não, algum guia explicativo de como conseguir trabalho de empregada doméstica. Mas não. O que temos aqui é uma antologia de contos dos mais originais.

Lucia Berlin surpreende ao público com este conjunto de narrações que apareceram em seu país em 2015 e chegaram ao nosso, traduzidos por Eugenia Vazquez Nacarino (versão em espanhol na Argentina foi publicada pela editora Alfaguarra em 2016, e leva o título MANUAL PARA MULHERES DA LIMPEZA).

A autora estadunidense, quase desconhecida até agora, publicou setenta e seis contos ao longo de toda a sua vida. A maioria, mas não todos, se reuniram em três volumes publicados: Homesick (1991), So Long (1993) y Where I Live Now (1999).

Começou a publicar seus relatos com vinte e quatro anos, na revista de Saul Bellow, The Noble Savage, e em The New Strand. Mais adiante apareceram contos em Atlantic Monthly, New American Writing e em várias revistas pequenas. Uma de suas coleções ganhou o American Book Award, mas ainda com esse reconhecimento seguia sem poder ampliar seu público leitor. Faleceu em 2004 aos 67 anos, depois de um largo câncer. Recentemente foi possível conhecer sua extensa obra e os leitores podem estar contentes.

O nome da antologia surge do conto homônimo que ali podemos encontrar, que além disso, é um dos melhores relatos da série.

Pelos bairros mais ricos de Oakland, Califórnia, transitam as “mulheres da limpeza”. Entre histórias de vidas das famílias a quem assistem, Lucia, como voz narradora, vai dando conselhos as empregadas domésticas para que possam suportar a tarefa de limpar para as famílias ricas da cidade (e outras não tanto).

“Outras três empregadas, negras com uniforme branco, ficaram de pé ao meu lado. A hora passou voando. Falamos das senhoras para as que trabalhamos. Rimos, não sem um pouco de amargura”, descreve nesta narração.

Depois de relatar uma situação em que a empregada em questão presenteia com uma camiseta com lantejoulas à filha de uma médica a quem cuida, esta responde dizendo a ela que este tipo de vestimenta é “sexista” e joga no lixo. Imediatamente surge o conselhinho, assim entre parêntesis, como uma marcação teatral de humor: “(Mulheres da limpeza: aprenderás muito das mulheres liberadas. A primeira fase é um grupo de tomada de consciência feminista; a segunda fase é uma mulher da limpeza; a terceira, o divórcio)”.

Também podemos nos encontrar com contos que tratam da temática do aborto clandestino, o drama de uma mulher solteira com filhos, a vida das crianças em colégios de freiras aonde reina o duplo discurso, a militância no Partido Comunista no Chile, a vida das trabalhadoras da saúde, a sexualidade nos adolescentes, e até uma homenagem a Edith Piaf em um conto com título “La vie en rose”; todos contos dos mais disruptivos para sua época.

Sua prosa é austera. Pragmática. Veloz. Como se fosse um filme em modo adiantado, vão passando seus contos como séries, pequenas partes de um todo que conformam o universo de Lucia. São fotografias em movimento da vida cotidiana. Episódios que narram com ritmo o dia à dia, relatos de um realismo extremo, que a autora sabe envolver com atmosferas algumas vezes aterradoras, outras jocosas, mas sempre irônicas e sarcásticas.

Seus relatos são também uma descrição certeira sobre os Estados Unidos da época, os comportamentos culturais dos cidadãos no sul e o arquétipo do México profundo, quando não, julgados pelo olhar do estrangeiro (estadunidense).

São mais de quarenta contos que em sua grande maioria tem protagonistas mulheres: enfermeiras, freiras, trabalhadoras, crianças, trabalhadoras de escritórios, professoras, médicas, militantes, feministas, donas de casa, entre outros personagens. Todas elas marcam um pulso de suas histórias, todas elas as contam em primeira pessoa. E que de alguma maneira, podemos encontrar pontos de contato entre a primeira pessoa autora e muitas de suas narrações. Sua vida foi um material literário extraordinário que a escritora usou inteligentemente para construir esses contos.

Lucia Berlin (nome de solteira, Brown) nasceu no estado mais ao norte dos Estados Unidos, Alaska, em 1936. Seu pai era da indústria mineira, assim seus primeiros anos de vida transcorreram em assentamentos e povos mineiros de Idaho, Kentucky y Montana. Quando o pai partiu para a guerra, a mãe voltou com Lucia e sua irmã pequena El Paso, no México, aonde seu avô era um dentista bem-sucedido, mas embrutecido.

Estas experiências foram de infinito material para desabafar em seus relatos. A maioria dos contos desta antologia acontece em El Paso, Ciudad Juárez, Texas ou no sul dos Estados Unidos.

Quando seu pai retornou da guerra, se mudaram todos para Santiago do Chile, e ela embarcou no que seriam vinte e cinco anos de uma vida pouco convencional entre bailes de galas e anfitriã de eventos de “alta sociedade”.

Lucia sofria de escoliose desde pequena, uma dolorosa condição na coluna que a acompanharia por toda vida, e muitas vezes exigia uma cinta de aço ortopédica. Apesar disso pode estudar na Universidade de Novo México. Ela conheceu novelistas escultores, escritores, poetas, músicos. Até que se decidiu escrever. Teve dois filhos de seu primeiro parceiro. Logo se casou com um pianista. Depois com um amigo do pianista, viciado em drogas, e teve dois filhos mais.

Na década de 70, Lucia já havia se mudado a Berkeley e Oakland, na California. Aí se verá influenciada pelos movimentos políticos da época, em particular pelo feminismo. Sua vida foi tão realista como seus relatos: trabalhou como professora de ensino médio, telefonista, administrativa em centros hospitalares, trabalhadora da limpeza e auxiliar de enfermaria, ao mesmo tempo, que escrevia, criava seus quatro filhos, bebia e, finalmente, ganhava a batalha contra o alcoolismo.

Passou boa parte da década dos anos 90 na Cidade do México, onde sua irmã estava morrendo. Quando sua saúde se deteriorou, se aposentou em 2000 e ao ano seguinte se mudou para a Los Angeles incentivada por seus filhos, vários dos quais ali residiam. Livrou-se com êxito de uma batalha contra o câncer, mas morreu em 2004, em Marina Del Rey.

“O pessoal é político”, disse Kate Millet, feminista radical estadunidense na década dos 60, e se converteu no lema do feminismo dos Estados Unidos da América e logo se disseminou por diversas partes do mundo.

A vida de Lucia, refletida em suas pequenas obras recopiladas em Manual da faxineira, com todas suas contradições e experiências, volta a dar fundamentos a esta frase que rompe fronteiras. Tudo o que ali se narra, tudo o que a autora vive, não é só a vida cotidiana de seus personagens. Cada pequeno ato leva concentrado em si mesmo as contradições da opressão e exploração que nós mulheres experimentamos diariamente e até nas mais pequenas situações, sob este sistema capitalista patriarcal. Mas Lucia não para por aí, seus contos falam de resistências cotidianas e porque não, de rebelião.

Traduzido por: Rita Cardia
Publicada originalment e na Revista Ideas de Izquierda, Número 37, maio 2017, na seção de Cultura.




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