Teoria

LITERATURA MULHER EMANCIPAÇÃO

Mulheres da literatura, mulheres de ação pela emancipação

Iuri Tonelo

São Paulo

terça-feira 25 de agosto de 2015| Edição do dia

Um importante pensador socialista do século XIX chamado Charles Fourier escreveu certa vez a ideia - que seria reproduzida também por Karl Marx e Friedrich Engels - de que o grau de emancipação das mulheres em uma sociedade é o termômetro geral através do qual se mede à emancipação geral. Desde esse período existiu, no pensamento que sustenta uma revolução social que pudesse levar a emancipação aos trabalhadores, a visão de que a luta pela emancipação da mulher é inerente e indissociável a luta geral da emancipação.

E o movimento de desenvolvimento do capitalismo foi também a emergência de expressões de mulheres revolucionárias. Bastaria lembrar de Olympe de Gouges, que escreveu a declaração de direitos das mulheres e das cidadãs no interior da Revolução Francesa; de Flora Tristán, célebre combatente, a qual Marx e Engels fazem referencia com o maior respeito em seu livro A Sagrada Família ou, para dar um exemplo emblemático, do nome de Louise Michel, uma alma revolucionária que brilhou em seu julgamento como combatente da Comuna ao desafiar a seus carrascos: “pertenço inteiramente à revolução social. Declaro aceitar a responsabilidade de meus atos [...] O comissário da República tem razão. Já que, como parece, todo coração que bate pela liberdade só tem direito a um pouco de chumbo, exijo a minha parte![1].

Essas lutas e personalidades revolucionárias, ocultadas dos livros de história oficial, eram a base influente de outra forma dessa tensão se expressar: a literatura. Nos livros das principais cabeças literárias do século XIX, as personagens mulheres se destacavam em sua riqueza e desafiavam a ordem das coisas.

Notável dizer que, embora escritores homens e em geral com valores conservadores nas concepções políticas e as vezes de mundo mais em geral, saltava personalidades mulheres com muita intensidade e chocando com as concepções dos escritores. Não é uma novidade essa discussão na literatura universal clássica, mas aqui queremos chamar a atenção para o século XIX os contornos que ganha a questão, após a Revolução Francesa e o inicio das lutas operárias.

Em 1832, Honoré du Balzac, um dos principais nomes da literatura universal, escreveria A mulher de Trinta Anos. Nessa obra, a personagem Julie se manifesta contra as formas de relação e o casamento de maneira ousada, ao dizer entre suas reflexões: “O casamento, instituição na qual hoje se baseia a sociedade, faz com que sintamos sozinhas todo o seu peso: para o homem, a liberdade, para a mulher, deveres[2]. Mais a frente, a mesma Julie chega a expressar que a mulher “casada, ela deixa de se pertencer, é a rainha e a escrava do lar”. Alguns consideram que o livro teve alguma influência para o desenvolvimento do feminismo nesse momento; nós poderíamos dizer com mais segurança que foram uma fonte de inspiração para a discussão do tema da mulher no marxismo (em oposição a visão “monarquista” de Balzac).

Vinte e cinco anos depois outra personagem forte da literatura vinha a público, que marcou também decisivamente a luta contra a corrosiva moral vigente e opressiva: Madame Bovary. A mulher que não era um apêndice da máquina social, mas que tinha anseios, desejos, amores, era condenada com virulência pela sociedade. O escritor Gustave Flaubert, que retratou Emma Bovary, foi levado aos tribunais, condenado pelo ultraje de retratar a libertinagem imoral feminina. “Madame Bovary c’est moi” [Madame Bovary sou eu], teria dito Flaubert, tomando parte na vida real num julgamento da mesma opressão que Bovary da literatura retratava as mulheres da vida real na opressão cotidiana.

Completada em 1880, foi a vez da luta das mulheres se expressarem na obra de Émile Zola: Nana tornou-se outra obra emblemática. "Nana tourne au mythe, sans cesser d’être réelle", [Nana tornou-se um mito, sem deixar de ser real] referiu-se Flaubert sobre a obra de Zola em uma carta endereçada ao autor [3]. Nesse momento, já se contrastava a crítica moralista com a recepção calorosa do livro, nove anos após a Comuna de Paris. Em Nana se narra os esplendores e misérias da opressão da mulher na vida de um jovem operária que se torna uma prostituta de luxo na Paris do século XIX. Criticado pelo realismo, Zola parece no espírito da obra aludir ao argumento de um prólogo ao livro Thérèse Raquin em 1865, de que a crítica àquela moral pode parecer clara demais, mas em função de existir uma certa cegueira na crítica contemporânea, as vezes é necessário acender um farol em plena luz do dia. E essas mulheres ganhavam a riqueza de personagens que apareceriam na literatura como que para acender o farol da denúncia do machismo na plena luz do dia da vida real.

Mas talvez uma das mulheres mais fortes da literatura tenha aparecido no mesmo período, mas na literatura russa. Em uma primeira edição de 1877, completava-se Anna Karenina, a célebre novela de Tolstoi. “Todas as famílias felizes se parecem entre si, as infelizes são infelizes cada uma a sua maneira”, era a primeira frase da obra. E a virulência do amor de Karenina por um amante exterior a seu casamento a leva a questionar todos os elementos da moral, da família, dos costumes, e servem como uma metáfora ardente da mulher que mostra que o combate pela sua emancipação às vezes atinge os mais sutis sinais da opressão em todas as esferas da vida.

A marcante cena em que pela primeira vez Anna Karenina irrompe o cotidiano se dá no íntimo gesto que a personagem faz ao ver, em uma corrida de cavalos, seu amado se acidentar e, sem conseguir se conter, movimenta-se com poucos gestos no palpitar de seu coração, o suficiente para despertar o ciúmes e a ira do marido. A metáfora maravilhosa explicita tudo: viver, sentir, desejar, amar era sinônimo, desse momento em diante, de se defrontar contra a ideologia dominante, contra o núcleo familiar, o casamento e a posição que querem atribuir à mulher na sociedade. A tragédia de Anna Karenina é levar até as últimas consequências essa contradição, e sofrer com a carga social que lhe é devolvida como resposta – expressão da época e da própria concepção moral (em certo sentido conservadora) de Tolstoi, que direta ou indiretamente se reflete na tragédia e a concatenação com o conjunto da obra.

Mas numa sociedade onde as lutas das trabalhadoras e trabalhadores ainda atingiam as primeiras expressões, a literatura não poderia representar essa luta íntima mais do que como tragédias. As mulheres nobres e ricas que ousavam desafiar a moral, ao não enxergar na realidade uma expressão (movimento real) que pudesse fazer aquele anseio ganhar carne, terminaram entre tristezas, misérias e suicídios. [4]

Ademais, ainda que essa luta ganhasse corpo na literatura e que essas personagens só pudessem ser possíveis pela contradição e conflitos que se colocavam dia-a-dia na vida real (representados pelos escritores), o próprio fato de ser “inconcebível a sociedade” que escritoras mulheres pudessem ser as criadoras das personagens era um das mais explicitas expressões dessa contradição machista.

Não tivemos a oportunidade de um estudo pormenorizado das tentativas das mulheres de desenvolverem literatura nesse período. Mas nos bastaria citar um grande nome que esteve a frente de explicitar essa contradição, querida e respeitada escritora e mulher revolucionária do período, Amandine Aurore Lucile Dupin, mundialmente conhecida como George Sand. Utilizando um pseudônimo masculino (como condição) para ser aceita nos círculos literários da época, Sand tornou-se uma das mais importantes expressões da literatura europeia, respeitada e admirada por grandes escritores da época, e particularmente expressando também em suas obras a luta pela emancipação da mulher, da qual ela era uma peça viva.

A força de seus escritos encantavam e eram fonte de inspiração. Karl Marx, em seu célebre livro Miséria da Filosofia, em que traça uma polêmica contra Proudhon, (importante teórico anarquista) e foi muito importante para a constituição do marxismo na década de 1840, termina sua obra com os dizeres: “O combate ou a morte, a luta decisiva ou o nada, é assim que se coloca inelutavelmente a questão”, citando George Sand numa importante homenagem a escritora.

Os próprios grandes escritores da época se encantaram com sua força. Uma das mais notáveis expressões talvez tenha sido de Victor Hugo, que declarou na ocasião de sua morte: Je pleure une morte, je salue une immortelle! [eu choro uma morte e saúdo uma imortal].

As mulheres da literatura que ganharam corpo em personagens que se defrontavam contra a moral, a família, os valores e costumes que queriam tornar as mulheres objeto e não sujeito de suas vidas. Por isso o exemplo de Georg Sand, que enfrentou a opressão para se tornar uma escritora, é comovente e inspirador.
Na literatura, essa luta que aparecia no plano ideológico através de mulheres da nobreza que se revoltavam contra a moral burguesa vigente, ganha a bandeira na vida real das operárias no final do século e no século seguinte. Começando pela Comuna, como expressamos com Louise Michel, ela ganha o peso de personalidades como Rosa Luxemburgo na virada do século, uma mulher que se torna um dos nomes mais fortes do marxismo de sua época, intelectual respeitada, revolucionária política internacional e fonte de inspiração para gerações.

Um dos símbolos mais gráficos da força das operárias como vanguarda da classe está no início da Revolução Russa, a mais influente revolução do século XX. No dia internacional da mulher, em fevereiro pelo calendário da Rússia conforme Leon Trotski narrou, “Uma massa de mulheres, nem todas trabalhadoras, dirigiu-se a Duma municipal exigindo pão. Era como pedir água a uma pedra. Bandeiras vermelhas apareceram em diversas partes da cidade, cujas inscrições mostraram que os trabalhadores queriam pão, mas sem a autocracia e a guerra. O Dia da Mulher foi vitorioso, com entusiasmo e sem vítimas. Mas anoitecera e nada revelava ainda o que esse dia trazia em suas entranhas” [5]. O que se revelou, no caso, não era nada menos que o primeiro dia da Revolução Russa de fevereiro, na qual as mulheres, no dia internacional da mulher, foram vanguarda.

Essa história de lutas pela emancipação se aprofunda e ganha novos contornos no século XX. Recontar essa história, resgatar as importantes personalidades revolucionárias mulheres, demonstrar a energia e a força das mulheres no interior da classe nas distintas lutas é uma luta muito importante. A própria literatura, a começar pelo exemplo de Sand, ganha uma explosão de escritoras que narram de modo tão ou mais fantástico, a mesma luta contra a opressão iniciada já no século XIX.

E a combinação da luta de classes (pelo pão) e da luta ideológica (pelas rosas) é parte da intima da poesia das mulheres que lutam pela sua emancipação, sendo a perspectiva da revolução permanente, que indica que a luta contra o machismo começa antes e se desenvolve depois revolução social, é parte fundamental da concepção que deve armar todas as trabalhadoras e trabalhadores que querem dar sequencia a construção de uma sociedade que possa nos livrar do machismo e toda forma de opressão. Sem dúvida, como já se demonstrou na arte e na vida real, as mulheres, como setor que sente a opressão e tem a paixão necessária para combater, estarão na vanguarda desse caminho.

Referências

[1 Citado em “Pão e Rosas”, de Andrea D’Atri.
[2] BALZAC, Honoré. A Mulher de Trinta Anos. Estação Liberdade, 2000.
[3] Carta de Flaubert a Emilie Zola, de 15 de fevereiro de 1880. Disponível no original em http://flaubert.univ-rouen.fr/correspondance/conard/outils/1880.htm
4] O que representa uma continuidade “atualizada” à tradição “clássica”, seja na tragédia grega (exemplo de Medeia, de Eurípedes), seja na tradição moderna (exemplo de Desdêmona), Shakespeare.
[5] Trotski, Leon. História da Revolução Russa. Editora Sundermann. 2007.




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