ESPECIAL 8 DE MARÇO

“Modismos” alimentares e a saúde da mulher

Como parte da contagem regressiva para o 8 de março internacionalista, se faz necessário o debate sobre os modismos, transtornos alimentares e sua relação com a saúde da mulher. Discussão reacendida recentemente nas redes sociais com declarações da apresentadora e escritora Rita Lobo.

quinta-feira 23 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Rita usou sua conta no Twitter para criticar a "ideia errada de alimentação saudável". "Por que você não ensina maionese com óleo de coco e iogurte, em vez de gema e óleo?", perguntou uma internauta. "1) porque não é maionese; 2) trate seu distúrbio alimentar", escreveu Rita no último dia 10/2. Enquanto Rita defende o uso de ingredientes frescos na cozinha, sem os conservantes e aditivos dos alimentos ultraprocessados, modismos como a exclusão da dieta de itens como o glúten (presente na farinha de trigo) e a lactose (leite) e a substituição de ingredientes tradicionais por novos alimentos, vistos como milagrosos, vêm sendo considerados o caminho mais curto para alcançar o ideal de boa forma e saúde.

A questão tomou tamanha proporção que até a mídia tradicional, representada pelo jornal Folha de São Paulo publicou uma matéria com a opinião de especialistas, que colocam que a obsessão pelos benefícios nutricionais pode mesmo ser considerada um distúrbio alimentar. "As pessoas estão com medo da comida normal", “Esse exagero evidente, nas palavras do médico, tem até nome: ortorexia. "É como se a comida não fosse mais alimento, ela é vista só como nutriente." Produtos são lançados como se fossem a salvação contra a má alimentação, a falta de exercício, o estresse, o excesso de trabalho, a poluição do ar", além da exclusão total de carboidratos na dieta como forma de perder peso rapidamente.

O que se faz importante refletir é o limiar entre a busca pela alimentação saudável, que é tema inclusive livros e programas de televisão e o que vendido pela mídia por interesses de lucro, de forma a comprometer a saúde, sobretudo das mulheres . Além disso, o quanto a busca por qualidade de vida através de dietas supostamente milagrosas possuem um apelo por se tratar de uma tentativa de prevenir doenças para os trabalhadores, já que o SUS é o completo caos e uma série de medidas de corte de gastos como a PEC 55 foram aprovadas. E mais ideologicamente o que seria uma vida saudável para as mulheres?!

Nos transtornos da conduta alimentar, os mais conhecidos e prevalentes são a anorexia e a bulimia nervosa, em que a pessoa está excessivamente preocupada com a quantidade de alimento que ingere, muito comum em adolescentes. Nesse cenário surge um novo, a chamada Ortorexia Nervosa (ON), ainda carente de estudos científicos, que faz com que se tenha uma preocupação exacerbada com sua saúde, prezando pela extrema qualidade dos alimentos que irá consumir. Mas os “modismos alimentares” surgem de forma complexa e mais fortemente quando há uma demanda para tais produtos e serviços que são propagandeados massivamente, que muitas vezes não cabem no orçamento das mulheres trabalhadoras, são bem mais caros que o pãozinho e o café da manhã, o prato feito com fritas do almoço, o jantar que “é o que tem” e exigem mais tempo para preparo.

Os padrões de beleza são reforçados por essa sociedade capitalista e se aprofundam com a crise econômica, já que os corpos precisam estar em “boa aparência” para se conseguir um bom emprego, não perder o atual, além de se manter atraente para o companheiro. Contraditoriamente esta mesma sociedade não oferece as condições para tal “beleza”, já que o Estado não garante um SUS de qualidade, tampouco o acesso gratuito ou orientações para atividade física e alimentação adequada considerando as particularidades de cada um, desvaloriza os professores de educação física, em sua maioria mulheres, os quais se desdobram entre escolas e academias para sobreviver, tampouco nutricionistas possuem facilidade para prescrever dietas, já que se defrontam com as condições materiais dos pacientes.

É importante buscar uma vida saudável se atentando aos modismos, para que o corpo possuas forças para construir as batalhas cotidianas da vida. Mas a vida só será de fato saudável no sentido mais completo do termo quando toda sociedade for emancipada das amarras cotidianas impostas, sobretudo às mulheres.




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