Sociedade

JUSTIÇA POR MARIELLE

Mil dias sem Marielle: uma ferida aberta do golpe institucional e nossa luta por justiça

Hoje completam-se exatos mil dias desde que a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes foram brutalmente assassinados no Rio de Janeiro. Um crime que se tornou a ferida aberta do regime do golpe institucional, cujo Estado brasileiro é diretamente responsável, mas que até hoje segue impune e sem respostas.

Odete Cristina

Belo Horizonte |@OdtCristina

terça-feira 8 de dezembro de 2020| Edição do dia

A notícia chocou o Brasil e o mundo, em meio a intervenção federal no Rio de Janeiro, a quinta vereadora mais votada da cidade, uma mulher negra, LGBT e da Maré foi brutalmente assassinada com tiros alvejados em seu carro depois de participar de uma atividade do seu partido, o PSOL. A resposta também foi imediata e no dia seguinte milhares saíram às ruas por todo país, unidos por um só grito: quem mandou matar Marielle?

Nesses mil dias muitas coisas se passaram. Os atores do golpe institucional foram aprofundando seus ataques, o autoritarismo judiciário foi crescendo e em meio a eleições manipuladas, Bolsonaro foi eleito presidente do país, levando para o Palácio do Planalto suas relações com milicianos, alguns dos quais estão diretamente envolvidos nas investigações do assassinato da vereadora do PSOL.

A violência policial seguiu assassinando as negras e negras em todo mundo, mas também veio a resposta. A luta negra, que se fortalecia a cada dia em nosso país, ganhou uma força nova com a explosão das maiores mobilizações da história dos EUA, que sob o grito de Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) lutavam contra a violência policial, onde também podia se ver pedidos de justiça por Marielle. O ano de 2020, que nos planos da burguesia deviaria ser lembrado apenas como o ano da pandemia que veio aprofundar a crise econômica capitalista, foi obrigado pela força da luta de classes a ser lembrado também como o ano da luta antirracista. Uma luta da qual Marielle sempre foi parte.

A extrema direita que destila ódio contra negros, mulheres, LGBTs, trabalhadores, movimentos sociais e organizações da esquerda, busca a todo custo também manchar a memória de Marielle com suas fake news. Ainda que Bolsonaro tenha sofrido importantes derrotas nas eleições municipais, é preciso ver que o bolsonarismo segue como uma corrente política de peso no país. Os grandes vencedores das eleições municipais foram o bonapartismo institucional, que engloba o Congresso, o STF, a grande imprensa, todos atores fundamentais do golpe institucional, e o Centrão que também abriga em seu interior setores da extrema direita e partidos fisiológicos, com seus herdeiros da ditadura e suas políticas coronelistas. Ambos, são diretamente responsáveis pelo fato de que tenhamos chegado até essa situação com o bolsonarismo.

A eleição de mulheres negras e trans foi um aspecto notável em meio a essas eleições marcadas pelo fortalecimento dos atores golpistas. São um reflexo direto da força que a luta do povo negro ganhou no último período e como a potência da luta de classes internacionalmente exigiu uma resposta da burguesia para tentar institucionalizar nossas demandas, buscando tirar o eixo das ruas para o parlamento.

Nos EUA, diante do racista e xenófobo Trump, a máquina do Partido Democrata, que é parte integral do sistema político racista do imperialismo norte-americano, buscou canalizar o grito de Black Lives Matter na ideia de que era preciso eleger Biden para derrotá-lo. No Brasil, o mesmo autoritário judiciário que mantém 40% da população carcerária presa sem julgamento, sendo a maioria negros, pela via do STF aprovou as cotas partidárias e o financiamento eleitoral proporcional para candidaturas de negras e negros. O mesmo judiciário que, mil dias depois, ainda é incapaz de responder quem mandou matar Marielle, é o que agora tenta aparecer como mais democrático e “antirracista” para desviar nossa luta.

Ao mesmo tempo em que diversas mulheres negras eleitas estão sofrendo gravíssimas ameaças, que expressam o racismo e o reacionarismo da extrema direita alimentada pelo bolsonarismo. Casos como os da deputada federal Taliria Petrone do PSOL do Rio, que foi obrigada a se mudar de estado diante da descoberta de um plano para assassiná-la. Taliria, assim como Carol Dartora, primeira vereadora negra eleita em Curitiba, Benny Birolli, vereadora de Niterói e Duda Salabert, vereadora mais votada de BH, receberam emails de um grupo supremacista branco que expressam o ódio dessa extrema direita reacionária contra as mulheres, os negros, LGBTs e a classe trabalhadora.

Foram milhares de jovens e trabalhadores, negros e brancos, homens e mulheres, que sensibilizados pela morte de Marielle e pelo peso que veio ganhando a luta negra em todo mundo, decidiram depositar sua confiança através do voto em mulheres negras e trans, que levantavam a bandeira da luta das mulheres e das pautas antirracistas. São milhares de negras e negros que sofrem diariamente com a opressão do racismo no trabalho, em seus bairros e o medo da violência policial. Milhares de jovens que, hoje, orgulhosamente assumem sua identidade negra, tendo orgulho de sua cor, cabelo, cultura, da sua história. Que a cada dia sentem a necessidade de construir uma sociedade sem racismo, pois não se conformam de que a única perspectiva que lhes é oferecida é o trabalho precário numa empresa de aplicativo que o obriga a trabalhar por horas, faça chuva ou faça sol, para não morrer de fome.

Justamente porque essa é uma força tão potente e, ao lado das demandas da classe trabalhadora, poderia se tornar muito perigosa para a classe dominante é que eles tentam institucionalizar nossa luta. Seja vendendo ideias liberais sobre as possibilidades de ascensão dos negros, seja buscando desviar a força das ruas para dentro das suas instituições, como se a luta antirracista pudesse se dar em separado da luta contra as empresas capitalistas que perpetuam essa lógica racista. A persistência de casos brutais, como o de Nego Beto ou de Emily e Rebeca, são mostra cruéis de como não basta que alguns de nós cheguem ao poder, pois enquanto essa estrutura social capitalista, que tem no racismo um pilar fundamental, estiver de pé, são as negras e negros aqueles que mais irão sofrer com as mazelas produzidas por essa sociedade.

Por isso, nesses mil dias sem Marielle, para seguir a sua luta, precisamos não ter nenhuma confiança nessas instituições golpistas. E para arrancar as verdadeiras respostas sobre o brutal assassinato da Marielle, é preciso exigir que o Estado descubra os culpados, junto com uma investigação independente, com representantes do mandato do PSOL, com figuras do direito humanos, de movimentos de favelas, sindicatos e organismos de direitos humanos, peritos especialistas comprometidos com a causa. Com recursos garantidos pelo Estado, com todas as condições para que essa investigação independente possa trabalhar, disponibilizando materiais, arquivos e todas as condições materiais, financeiras e físicas para a realização plena e ampla da investigação, com acesso a todos os autos do processo para acompanhar e poder seguir todos os passos que a polícia dá, e também dar passos próprios que efetivamente deem solução para o caso e que se ache seus mandantes. E isso somente poderemos conquistar organizando nossas forças em cada local de estudo e trabalho, para estar nas ruas lutando por justiça.

A realidade faz com que nós, negras e negros, que também somos a maioria da classe trabalhadora desse país, estejamos na linha de frente da luta de classes, lado a lado com os trabalhadores brancos, como sempre fizemos historicamente. Por isso, precisamos nos organizar para dar uma saída de fundo a todos esses problemas sociais, sanitários, políticos e econômicos que assolam a classe trabalhadora e o povo pobre. Combatendo o conjunto do regime do golpe institucional, lutando não apenas contra Bolsonaro e Mourão, mas contra todas as instituições desse regime golpista e seus poderes instituídos (STF, Congresso nacional, etc.) que nos trouxeram até aqui, na batalha pela defesa de todos os direitos democráticos e sociais da classe trabalhadora e do povo pobre, que são pisoteados diariamente. Acreditamos na força da nossa mobilização e na nossa auto-organização e por isso denunciamos os setores da esquerda que se aliaram com golpistas em frentes amplas que somente impedem nossa luta. Defendemos que nossa luta precisa ser também para impor uma nova Constituinte Livre e Soberana, para que tomemos os rumos do país nas nossas mãos, para dar um basta na repressão policial, arrancando também justiça por Marielle, Anderson e todas as vítimas da violência do Estado.




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