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CORONAVÍRUS

México: Debates sobre a estratégia do governo de López Obrador diante do coronavírus

A irrupção do coronavírus e sua inexorável marcha pelo mundo e pela América Latina, fez os sistemas públicos de saúde tremerem desmantelados sob o reinado do neoliberalismo. Por isso, os estragos do COVID-19 não são resultado de um fenômeno natural: se trata de um crime do capitalismo, responsável por essa crise sanitária.

sexta-feira 3 de abril| Edição do dia

As agendas políticas da maioria dos governos foram subvertidas em poucas semanas, e as tendências que antes se manifestavam lentamente -como a retração do crescimento econômico – aceleraram de 0 para 100 em poucos dias, e agitaram o fantasma de uma nova depressão econômica e um panorama sombrio.

AMLO e o COVID-19: de “tudo sob controle” ao isolamento voluntário

No México, o governo de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) desfrutava de uma das maiores taxas de popularidade da América Latina e uma hegemonia invejada por outros governos da região, apesar da crise interna de seu partido, o Morena. Embora nos meses anteriores já houvesse certo desgaste e a economia estivesse estagnada, nada permitia prever que, em poucas semanas, receberia tantas críticas dentro e fora do país, e as previsões políticas e econômicas se alterariam.

Diante da propagação da pandemia, num primeiro momento se limitou a emitir frases “tranquilizadoras” e a negar-se a implementar medidas elementares para conter a expansão do vírus. A justificativa presidencial foi baseada no fato de o México ainda não ter entrado na fase de transmissão comunitária: por trás disso, se cogitava o temor do governo com a aceleração da retração econômica e o declínio de sua popularidade.

A curva acentuada foi vista rapidamente na economia. O peso mexicano é uma das moedas mais frágeis da região; um termômetro que se altera ao ritmo das bolsas de valores internacionais. A desvalorização em 30% em uma semana não deixou margem para dúvidas e acompanhou a forte queda da mistura mexicana nos mercados de hidrocarbonetos.

Antes do coronavírus, a retração de 0,1% do PIB em 2019 foi acompanhada de uma expectativa de crescimento de 0,5 para 2020. Este cenário foi quebrado em sintonia com os anúncios de uma recessão internacional: a queda prevista agora é de 4%, um pesadelo para o governo da “Quarta Transformação” que mostra que a inclinação pós-pandemia será mais acentuada e que pode afetar a sua hegemonia, no marco de uma forte recessão.

Desde o início da epidemia ficou evidente que o México – país com incontáveis vias de comunicação com os Estados Unidos e a Europa, destino turístico e ponte aérea para a maioria dos continentes e com uma porosa fronteira norte de 3.000 quilômetros através da qual transita diariamente um dos fluxos comerciais mais importantes do planeta -, passaria rapidamente de uma fase de importação para uma de transmissão comunitária. Por isso, a falta de controle sanitário preventivo nos aeroportos e a teimosia de manter a realização de grandes eventos com fins comerciais evidentes, foram criticadas.

Há alguns dias o país passou para a fase 2. A Organização Mundial de Saúde anunciou o primeiro, e o governo mexicano o declarou tardiamente, realizando uma série de ações que se baseavam fundamentalmente no distanciamento social e o isolamento voluntário até o dia 19 de abril. Recentemente, na sexta-feira, dia 27, o governo anunciou medidas intervencionistas como o decreto que abre a possibilidade de intervenção nos hospitais privados.

Intelectuais e jornalistas da 4T: defendendo o indefensável

Diferentes jornalistas relacionados com o progressismo, e intelectuais alinhados à “Quarta Transformação”, defendem a estratégia política do governo diante da pandemia do COVID-19

Julio Hernández afirmou em sua coluna de “La Jornada” de sexta-feira, dia 27, que o objetivo era “dosar” o máximo possível a implementação de mecanismos de isolamento social, a fim de manter a atividade econômica. Ele afirma que o governo “manteve e continua se concentrando no problema do coronavírus que busca não prejudicar os segmentos populares” mediante uma paralisação das atividades.

Este discurso também foi realizado pelo Subsecretário de saúde, Hugo López-Gatell. O programa “Susana Distancia” foi apresentado como um plano para achatar a curva da pandemia e não saturar o sistema sanitário, alertando que inevitavelmente a fase 3 começará em um momento posterior.

Lorenzo Meyer, renomado historiador e intelectual que simpatiza com a “Quarta Transformação”, defendeu em uma entrevista com a jornalista Carmen Aristegui, as ações governamentais, afirmando que era uma resposta “realista”. Ele também argumentou que a situação do sistema de saúde é uma herança do passado com o qual deve lidar a atual administração, e que – no campo do possível -, é a política mais correta.

Essa narrativa afirma que a ação errática das primeiras semanas fazia parte de uma estratégia coerente: enfrentar a pandemia considerando a situação preexistente do sistema de saúde herdado do “período neoliberal”, evitando tanto a saturação quanto a paralisia econômica. Segundo essa narrativa, a estratégia de isolamento voluntário seria a única realista e possível, atendendo a situação econômica e social do país e que milhões não podem parar de trabalhar.

Além desses argumentos, é evidente que o governo de AMLO não teve uma estratégia de prevenção diante da situação. Isso significaria em aumentar os equipamentos dos hospitais e clínicas de distintos níveis, zelar pelo suprimento de elementos básicos que hoje estão escassos e garantir os recursos econômicos necessários para ampliar o orçamento para a saúde e contratar mais trabalhadores do setor. Significaria também contar com testes suficientes para detectar a expansão do COVID-19.

Isso sem mencionar questões ainda mais básicas: abastecimento de água para milhões de mexicanos que não tem acesso, e que não podem realizar medidas básicas de higiene enquanto vivem aglomerados. Então, desde o final de 2019 – quando o surto epidêmico começou na China – poderiam ter sido tomadas medidas para enfrentar esta situação e começar a reverter o atraso na saúde pública. Mas não foi feito.

O argumento de que respondeu a uma estratégia coerente para enfrentar o COVID não tem fundamento. Qual a melhor maneira para preparar a luta contra o COVID se não fortalecendo o sistema de saúde? Significaria tomar medidas radicais, sem dúvida, como as que apresentamos mais abaixo. Ao invés disso, AMLO tentou convencer que “não era nada” e que os conservadores queriam enfraquece-lo, com medo de criar ondas que afetariam ainda mais a situação de debilidade da economia que prejudicassem ainda mais seus índices de popularidade. Para isso, impôs ao seu gabinete uma política centralizada sobre as informações oficiais.

A quarentena e a classe trabalhadora

AMLO finalizou a semana com um vídeo onde defende a quarentena. O subsecretário de saúde fez o mesmo chamado no sábado, dia 28, para o isolamento; frente a uma pergunta concreta de um jornalista, afirmou que, por enquanto, o chamamento é que seja voluntário, mas deixou em aberto a possibilidade de ações coercitivas.

Mas o isolamento não pode ser realizado pelo conjunto da população, mesmo que temporariamente. Existem milhões de trabalhadores no setor privado e 57% da população empregada no chamado setor “informal” que precisam escolher entre sustentar suas famílias ou atender a recomendações de saúde.

O governo deve proibir as demissões e conceder licenças massivas nas indústrias não essenciais, que devem ser pagas pelos empregadores com 100% do salário, bem como medidas de segurança e higiene para todas e todos os trabalhadores que seguem trabalhando. Junto a isso, é urgente que o Estado garanta um subsídio com o valor necessário - um "salário de quarentena" - para todos os trabalhadores precários e informais. E, ao mesmo tempo, todas as medidas de segurança para quem realiza atividades essenciais. As organizações sindicais, começando pelas que parecem democráticas e combativas, precisam exigir essas medidas elementares.

Mas AMLO e o subsecretário de Saúde se limitaram a "pedir" aos empregadores para não demitir. Isso quando em outros países as demissões aumentam exponencialmente (em apenas uma semana, cresceu em 3,3 milhões de pedidos de seguro-desemprego nos EUA), enquanto em nosso país as empresas promovem licenças sem remuneração ou com descontos significativos, como é o caso das maquiladoras de Ciudad Juárez e de outras cidades fronteiriças, onde já ocorreram alguns protestos dos trabalhadores.

Isolamento e testes

Por outro lado, o isolamento por si só, mesmo que generalizado, é uma medida absolutamente insuficiente, como muitos profissionais de saúde afirmaram. Não pode ser dissociado da realização de testes ou testes para detecção rápida e precoce do vírus. Lorenzo Meyer ridicularizou essa necessidade na entrevista que mencionamos, apesar do fato de a Organização Mundial da Saúde ter recomendado "teste, teste e mais testes" e que em países como a Coréia do Sul isso foi realizado em massa, enquanto a Alemanha começou a realizar 500 mil testes por semana.

A realização de testes massivos permite detectar os casos e a disseminação da doença e combiná-la com diferentes medidas para isolar os surtos e conter o contágio. Eles fazem parte de um plano integral de emergência sanitária, que também deve incluir o isolamento dos casos detectados. Esses testes devem ser realizados naqueles que apresentam alguns dos sintomas, nos contatos daqueles que estão infectados (o que permitirá atingir boa parte dos assintomáticos), bem como em todo o pessoal de saúde que - como mostra a notícia de que 5 médicos do IMSS foram infectados -, estão altamente expostos. Da mesma forma, aqueles que continuam trabalhando e não podem entrar em isolamento.

A miséria do possível ou a saúde da maioria

Os defensores do governo alegam que não é “realista” uma estratégia distinta, devido à situação do sistema de saúde e à realidade do próprio país. Que o feito por AMLO é "o único caminho possível". Evidentemente, para executar uma estratégia alternativa é necessário adotar medidas profundas que o momento atual torna urgente.

O sistema de saúde está em crise. Deve-se dizer que isso não é apenas responsabilidade dos governos anteriores do PRI e do PAN: as políticas de austeridade da Quarta transformação implicaram uma redução no orçamento - que é um dos mais baixos entre os membros da OCDE - e atrasos na alocação de recursos. Isso é consequência de uma política que, seguindo as diretrizes das organizações e governos internacionais imperialistas, favoreceu os empregadores do setor e precarizou seus trabalhadores.

Diante disso, a resignação e a miséria do "possível" não servem. É necessário tomar medidas. Sem dúvida, elas gerarão oposição na classe dominante, mas também terão o apoio da maioria da população.

Por exemplo, decretar um aumento de emergência para o orçamento da saúde, redirecionando para lá os recursos concedidos à Guarda Nacional, os salários dos funcionários públicos de alto nível e o dinheiro que vai para o pagamento da dívida pública. Isso, juntamente com a implementação de impostos sobre grandes fortunas, nos permitiria ter os recursos necessários para adquirir e/ou montar a produção de testes massivos, máscaras faciais, álcool em gel, equipamentos médicos tão necessários como respiradores) e tudo o que é necessário para enfrentar a pandemia.

Isso daria a possibilidade de contratar de forma emergente todo o pessoal da saúde que hoje está desempregado e que poderia ingressar imediatamente para fortalecer aqueles que já estão na linha de frente da luta contra o COVID. Garantiria, por exemplo, os recursos para preparar um número suficiente de imóveis que possam funcionar como centros de atendimento hospitalar.

Em uma crise como a atual, o setor privado já é de interesse nacional: não há nenhum lugar para lucro às custas da saúde da população por parte daqueles que se beneficiaram com o desmantelamento da saúde pública, incluindo os laboratórios. López Obrador, em um giro parcial de sua política, emitiu ontem um decreto abrindo a possibilidade de usar recursos da saúde privada, mas não fica claro seus ritmos, se será a sua totalidade e será pagando por eles do tesouro do estado.

Diante disso, a situação exige uma medida drástica: centralizar imediatamente, nas mãos do Estado, todos os recursos da saúde, tanto do setor público quanto do privado, garantindo o livre acesso da população aos serviços essenciais para enfrentar a pandemia. Isto, a caminho da expropriação e nacionalização deles, sem nenhuma indenização.

Ao mesmo tempo, os trabalhadores da saúde podem estabelecer um controle e uma fiscalização do uso do orçamento, e garantir o estabelecimento de condições seguras de trabalho, a partir de sua auto-organização nas comissões de higiene e segurança.

No México, no auge do Acordo de Livre Comércio, a indústria desenvolveu e incorporou tecnologia de ponta. Colocar a economia a serviço da luta contra a COVID-19 implica a reconversão da produção. Antecipar os protestos "furiosos" dos defensores da 4T, isso não é apenas possível: em outros países está sendo discutido como realizá-lo, como é o caso de fábricas de automóveis no Estado Espanhol ou na Inglaterra, para produzir respiradores e outros insumos fundamentais hoje. Em outras latitudes, fábricas sob gestão de seus trabalhadores - como Madigraf na Argentina - tomaram decisões corajosas e estão produzindo álcool em gel e outros produtos necessários.

O governo de López Obrador está longe de adotar uma estratégia como a que propusemos, o que sugere que, se a pandemia continuar crescendo, afetará ainda mais duramente os trabalhadores e o povo.

Isso implica questionar o atual status quo capitalista, sob o qual os lucros dos empresários e os compromissos assumidos com os organismos internacionais e governos imperialistas valem mais do que a vida de milhões.

Uma situação como a atual exige medidas urgentes e radicais. Uma estratégia anticapitalista que enfrente a pandemia e coloque em primeiro lugar os interesses dos trabalhadores e das grandes maiorias do México. Porque nossas vidas valem mais do que seus negócios!

Texto originalmente publicado em espanhol no La Izquierda Diario México, integrante da Rede Internacional de Diários La Izquierda Diario.




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