Gênero e sexualidade

MUNDO OPERÁRIO

Metroviárias se reúnem para discutir o livro Mulher, Estado e Revolução de Wendy Goldman

Os ideais de emancipação da mulher e amor livre, que inspiram o movimento feminista desde os anos 60 e 70 e que permanecem como demandas atuais, já eram debatidos e colocados em prática nos primeiros anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), na década de 20.

quarta-feira 1º de julho de 2015| Edição do dia

Os debates e a legislação soviética, que previa a igualdade entre homens e mulheres, é tema do livro Mulher, Estado e Revolução: política familiar e vida social soviéticas, 1917-1936, da historiadora americana e professora da Carnegie Mellon University, Wendy Goldman, que foi publicado no Brasil em Maio de 2015, pela Boitempo Editorial e pelas Edições Iskra.

No decorrer do livro é possível verificar como as ambições dos bolcheviques iam além da garantia de que as mulheres tivessem os mesmos direitos dos homens. Eles acreditavam que a sociedade socialista deveria libertar as mulheres para que elas pudessem participar da vida social e política.

Para tal, foram instituídas leis que garantiam os direitos das mulheres soviéticas, como por exemplo salário igual para homens e mulheres e direito ao divórcio. Algumas dessas legislações eram tão avançadas que, até hoje, algumas delas, como o direito ao aborto, ainda não foram adotadas em grande parte dos países do mundo.

Entretanto, no decorrer da leitura, verifica-se que, durante o processo histórico, há um grande retrocesso em todos os pontos, devido ao conservadorismo social, instituído durante o governo de Stálin.

Com uma temática tão atual e relevante, nós, metroviárias de São Paulo do grupo de mulheres Pão e Rosas, estamos realizando reuniões de grupos de estudos baseado no livro da historiadora. Até o momento, foi discutido o primeiro capítulo (As origens da visão bolchevique: amor sem entraves, mulheres livres), sendo que este foi dividido em duas reuniões devido sua extensão.

Na primeira reunião, foi abordada a inserção da mulher no mercado de trabalho associada à dupla jornada de trabalho (tarefas domésticas) e gestação/criação dos filhos dentro do sistema capitalista; a ideia básica de libertação da mulher, no socialismo, e as diferentes proposições para alcançar tal liberdade na União Soviética.

O amor livre e a sexualidade das mulheres, juntamente com a descrição histórica da abordagem dos grupos religiosos, existentes na Europa, que antecederam as discussões entre os revolucionários na União Soviética, também foram temas de discussões e comparações com a atualidade. Encerramos a primeira discussão abordando a relevância dos oprimidos como linha de frente das lutas e a importância da conscientização da classe trabalhadora de que a opressão é utilizada, pela ideologia vigente, para segregação da própria classe e, portanto, da necessidade de unificação da luta contra as opressões como uma das bases para fortalecimento da luta contra o capitalismo.

Na segunda reunião, avançamos na discussão sobre a origem dos pensamentos que nortearam os bolcheviques para a emancipação das mulheres. Foi discutido o posicionamento dos trabalhadores contra a entrada das mulheres no mercado de trabalho, com um receio dos homens de que as mulheres tomassem seus empregos e pressionassem o rebaixamento dos salários. Percebemos que esta visão estava pautada em conceitos biológicos - que servem para naturalizar a opressão das mulheres - e na falta de aprofundamento na análise material e histórica, pois o rebaixamento de salários vinha da própria exploração capitalista. Retomamos o surgimento da família como forma de basear o surgimento da propriedade privada e da opressão das mulheres.

Continuamos com o avanço das reflexões dos pensadores sobre o tema que antecederam a revolução. Estes foram avançando nas reflexões ao ponto de constatar que a família é a instituição de reprodução e consumo e que a manutenção desta, da forma que existia, gerava uma dependência mútua dos sexos nas famílias trabalhadoras e despossuídas.

Baseando-se nestas discussões, concluímos com a análise de Clara Zetkin, revolucionária alemã do século XIX, sobre a opressão das mulheres dentro da compreensão de classes, na qual postulou que as questões das mulheres eram diferentes para cada classe na sociedade capitalista e que as mulheres proletárias têm uma tendência maior a conquistar seus interesses ao se unir com os homens trabalhadores, para lutar por melhores condições de trabalho.

Na próxima reunião, que ocorrerá no dia 11/07 (sábado, às 16h), no Sindicato do Metroviários de São Paulo, discutiremos o segundo capítulo (O primeiro retrocesso: besprizornost e a criação socializada da criança). Venham participar desta discussão conosco metroviárias e companheiras e/ou familiares de metroviários.

As reflexões destas reuniões são importantes, pois a experiência soviética nos permite refletir sobre as demandas atuais e como devemos lutar para que consigamos a liberdade e a participação na vida social e política, como ansiaram os bolcheviques, em 1920.




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