Cultura

CAPOEIRA

Mestre Pastinha – Uma vida pela Capoeira

sexta-feira 11 de agosto| Edição do dia

Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha, nasceu em 1889, nos morros da cidade de Salvador, filho de um comerciante espanhol e de uma ex-escrava baiana. A virada do século XX prometia uma era de revoluções no mundo inteiro, e pra capoeira não foi diferente. Pastinha conheceu a capoeira ainda criança, muito pela necessidade diária de se defender nas favelas baianas.

Pastinha conta que quem lhe ensinou a capoeira foi um velho africano, que sempre o via apanhar de um menino mais velho. Um dia, da janela da sua casa, o velho chamou Pastinha e disse que ele nunca conseguiria vencer o menino porque ele era mais velho e era maior que ele, e então o chamou pra ensinar a capoeira. Desde então, nunca mais apanhou.

A partir desse fato vale ressaltar que, por mais que teimem as novas academias de capoeira e a espetacularização da violência do MMA, a capoeira nunca foi uma arte de brutalidade ou de movimentos acrobáticos, mas, desde os seus primórdios, foi um jogo de estratégia, uma arte que se desenvolveu a partir de praticantes que sempre eram mais fracos e estavam mais desarmados que seus adversários, mas que usando a astucia e a agilidade – ou como dizia Pastinha, a mandinga – conseguiriam vencê-los. A capoeira é, portanto, a luta dos oprimidos e explorados.

Registros – que são escassos, graças ao descaso proposital dos estudiosos burgueses – afirmam que a capoeira tem o seu germe africano no N’golo, a Dança da Zebra, um combate cerimonial que representa um rito de passagem para a vida adulta das mulheres, que era praticado no sul de Angola e que realmente apresenta semelhanças com a arte atual. Quando chegou aqui no Brasil, assim como toda expressão de identidade negra, foi perseguido e massacrado, logo, se desenvolveu de maneira clandestina e defensiva, sempre a espreita do perigo iminente da repressão.

Tanto foi perseguida que se tornou a arte de desarmar policiais, de dar golpes rápidos e silenciosos, de enganar adversários e escapar ileso de situações perigosas. Ao mesmo tempo que estava intrinsecamente unida com a espiritualidade, a ritualidade e a expressão corporal e linguística do povo brasileiro. Continha sua ginga, a brincadeira, a malícia e a musicalidade: a liberdade e fluidez dos corpos e mentes. A medida que era reprimida, se tornava cada vez mais sagrada e cada vez mais praticada.

Até o final da escravidão, já havia se tornado um problema de saúde pública para o Estado burguês, principalmente nas capitais portuárias, como Rio de Janeiro e Salvador, onde se encontravam o grande aglomerado da classe trabalhadora da época. Não a toa a capoeira foi proibida dentro da Constituição brasileira, dois anos após a abolição da escravatura, em 1890.

“Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil
(Decreto número 847, de 11 de outubro de 1890)
Capítulo XIII – Dos vadios e capoeiras
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercício de agilidade e destreza corporal conhecida pela denominação Capoeiragem: andar em carreiras, com armas ou instrumentos capazes de produzir lesão corporal, provocando tumulto ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal;
Pena de prisão celular de dois a seis meses.
A penalidade é a do art. 96.
Parágrafo único. É considerado circunstância agravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta. Aos chefes ou cabeças, se imporá a pena em dobro.
Art. 403. No caso de reincidência será aplicada ao capoeira, no grau máximo, a pena do art. 400. Com a pena de um a três anos.
Parágrafo único. Se for estrangeiro, será deportado depois de cumprida a pena.
Art. 404. Se nesses exercícios de capoeiragem perpetrar homicídio, praticar alguma lesão corporal, ultrajar o pudor público e particular, perturbar a ordem, a tranqüilidade ou segurança pública ou for encontrado com armas, incorrerá cumulativamente nas penas cominadas para tais crimes.”
Foi justamente no período de sua proibição que surgiram grandes capoeiristas conhecidos até hoje. Como o próprio Pastinha e a mitológica figura de Besouro Mangangá.
Manoel Henrique Pereira, nasceu entre os canaviais de Santo Amaro, em 1895. Filho de escravos recém-libertos, pouco sabe-se sobre a vida do capoeirista, tendo alguns poucos registros, já que foi assassinado jovem, em 1924, aos 29 anos. Ainda criança, se autointitulou Besouro Preto, aquele que, apesar de ser pequeno, escuro e pesado, podia voar e sumir de seus inimigos em um piscar de olhos.
No recôncavo baiano a capoeira se desenvolvia de uma maneira completamente nova. Agora se mesclava mais profundamente com o samba – que também era perseguido – e carregava uma raiva e uma malandragem maior, típico daqueles que só tinham seu chapéu, uma navalha e seus pés para se defender dos assédios diários, em uma cidade em que cada vez mais se aglomeravam massas recém-libertas da escravidão, sem moradia, sem comida e sem trabalho. A capoeira havia se tornado mortal, tanto para os próprios capoeiristas quanto para seus adversários.
Desse cenário surge Besouro Mangangá, que na sua juventude se tornou um símbolo de resistência contra a polícia, contra os patrões, contra a injustiça diária e contra a moral burguesa branca e cristã da época. Tanto foram seus embates com as polícias e comerciantes que ficou conhecido como justiceiro da região, e lhe foram atribuídos muitos feitos mágicos e uma sacralidade dentro da capoeira, que persiste até hoje.
Dos registros de Besouro que temos acesso hoje, existe um de uma delegacia de São Caetano, em Salvador, no qual relata a tentativa de recuperação de um berimbau que havia sido confiscado de seu grupo:
“Aos dez dias de setembro de mil novecentos e dezoito,
nesta capital do estado da Bahia (…) Argeu Cláudio de Souza,
com vinte e três anos de idade, solteiro, natural deste estado,
praça do primeiro batalhão da brigada policial (…)
foi interrogado pelo doutor delegado que lhe perguntou o seguinte:
como foi feita a agressão de que foi vítima no posto policial
de São Caetano? (…)

Ali apareceu um indivíduo mal trajado,
e encostando-se a janela central do referido posto,
durante uns cinco minutos, em atitude de quem observava alguma coisa,
que decorrido este tempo, o dito indivíduo interpelando o respondente,
pediu-lhe um berimbau que se achava exposto juntamente com armas apreendidas”
PIRES, Antonio Liberac Cardoso Simões. Bimba, Pastinha e Besouro de Mangangá. Três personagens da capoeira baiana. Goiânia/Tocantins: UFT, 2002, pág. 27

Assim como todo jovem e todo trabalhador que tem seus instrumentos de arte confiscados pela polícia – como são em muitos casos de batalhas de rap e poesia, onde microfones e caixas de som são criminosamente pegos por policias – Besouro representa uma juventude que anseia por arte até os dias de hoje e representa o medo de uma burguesia que compreende o perigo de uma roda onde se troca conhecimento e experiência, onde se pode desenvolver ideais revolucionários.

Das rodas de capoeira, até os repentes das batalhas de rap e poesias nas rodas do slam resistência, todas essas manifestações perpetuam uma característica fundante da cultura brasileira: a cultura da resistência, contra a classe opressora e a favor da liberdade de expressão e de conhecimento da nossa classe. Uma cultura das trabalhadoras e trabalhadores negros e nordestinos contra o regime de exploração dos escravocratas e patrões.

A partir dos anos de 1910, Mestre Pastinha busca a emancipação da capoeira. Já reconhecido por todos os grandes mestres da Bahia, ele é proclamado por eles o guardião da capoeira, já que tinha uma visão prática e uma didática excelente para organização da capoeira, produzindo diversos manuscritos sobre a tradição da Capoeira de Angola e sua filosofia.

Porém, apesar do grande reconhecimento que Pastinha havia adquirido e da perpetuação da capoeira por todo Brasil, surge um movimento novo da capoeira nos anos 30, contrário a moral de “paz entre nós, guerra aos senhores” da capoeira tradicional. Mestre Bimba, como mentor desse novo movimento, funda a Capoeira Regional, e mescla a arte com outras lutas marciais, como karatê e jiu-jitsu – que estavam chegando ao país na época. Inclusive, numa tentativa de aproximar a capoeira das artes marciais e menos da criminalidade.

A Regional ganhou muitos adeptos, sobretudo a juventude pequeno-burguesa da época, que acabou se encantando pelos golpes mortais e os movimentos acrobáticos. Naquele período já se falava muito depreciativamente da Angola, por ser um jogo mais lento e mais estratégico. A febre da Regional levou a sua descriminalização em 1935, principalmente por conta das políticas populistas de Getúlio Vargas, que queria construir uma “arte marcial nacional”, o que anos depois levou Bimba até o Palácio Nacional para fazer uma apresentação oficial da Regional para o presidente.

Enquanto isso, Pastinha evoluía a Angola em seus modestos passos. Em 1941, fundou a mais tradicional escola de Capoeira de Angola legalizada pelo governo: o CECA (Centro Esportivo de Capoeira Angola) e de lá surgiram os mais famosos mestres angoleiros e foi frequentada por diversas personalidades da época, sendo conhecido até na África. O próprio disco Transa, do Caetano Veloso, homenageou o Mestre nessa época.

Infelizmente, em 71, sua academia foi expulsa do lugar que habitava no Pelourinho pelo governo. Pastinha e seus discípulos sofreram um golpe da Ditadura, que havia afirmado que precisaria fazer uma reforma no prédio, os retiraram de lá e nunca mais o devolveram. Hoje o local ainda é o restaurante do Senac da região, numa época de avanço dos cursos técnicos e profissionalizantes no país e de uma repressão muito forte de movimentos culturais e sociais.

Mestre Pastinha, já com uma catarata muito avançada e sem auxílio médico, sofreu o segundo derrame depois de sua expulsão. Passou os últimos anos de sua vida com a saúde muito debilitada, cego, esquecido pelo público e difamado pelos jornais da grande mídia. Morreu em sua humilde casa em Salvador, junto de sua esposa, em 1981, aos 92 anos de idade.

Após a morte de Pastinha, a luta de Angola ficou em profundo luto. O Brasil se tornou um terreno muito infértil para a capoeira tradicional, o que isolou e enfraqueceu os mestres aqui presentes. A maior parte dos mestres, inclusive discípulos de Pastinha, migraram para o exterior – como Europa e América do Norte – e lá perpetuaram com maior sucesso os seus ensinamentos.

Mestre Pastinha viveu sua vida pela capoeira e, mais, mesclou todo o seu ser com o corpo e a mente do capoeirista. Ele foi o reflexo de sua época: dos tempos amargos dos ex-escravos, com toda sua malícia, sabedoria e alegria, sobrevivendo o dia a dia no campo individual, até os tempos atuais resistindo aos ataques constitucionais da burguesia que teimavam em destruir a tradição negra de Angola, sobrevivendo o dia a dia no campo coletivo, com a mesma malícia, sabedoria e alegria.

Escrevo esse artigo pela lembrança da arte da classe trabalhadora, pois é ela que nos mantém vivos, ativos e fortalecidos contra as opressões diárias da exploração e da perseguição. Que não morra a vela que foi mantida acesa por tantos séculos por tantos mestres capoeiristas e que ela evolua conforme evolui nossa classe.

“Capoeira angola, mandinga de escravo em ânsia da liberdade. Seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista. Capoeira é amorosa, não é perversa. Ela é um hábito cortês que criamos dentro de nós, uma coisa vagabunda.” - Mestre Pastinha

Segue o link do documentário link aqui a vida de Pastinha disponível no youtube “Pastinha!Uma vida pela capoeira!”.




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