REFUGIADOS NA ALEMANHA

Merkel pactua com o regime assassino de Erdoğan para frear os refugiados

Ângela Merkel pactuou com o governo da Turquia para acelerar a adesão desse país à UE. Em troca, a Turquia freará os refugiados às portas da Europa. Realpolitik alemã em tempos de crise.

Josefina L. Martínez

Madrid | @josefinamar14

quarta-feira 21 de outubro de 2015| Edição do dia

Erdoğan e Merkel após seu encontro, Foto: EFE/EPA/TOLGA BOZOGLU

A impossibilidade de deter a onda de refugiados, e a crise interna que está sendo gerada na Alemanha, levou Merkel a um giro em sua política em relação à Turquia. A chanceler se comprometeu pessoalmente a acelerar a adesão da Turquia à UE em troca de uma contenção dos refugiados em sua fronteira.

A Turquia possui uma posição estratégica, entre a Europa e as linhas "quentes" de Síria e Iraque. Atualmente, acolhe mais de 2 milhões de refugiados em seu território.

Após seu encontro com Merkel, o primeiro-ministro turco, Davutoglu, assegurou que "das crises surgem novas visões" e disse que espera que devido à crise dos refugiados "se reavivam relações um tanto congeladas e se recupere o processo de adesão".

Davutoglu ofereceu uma roda de imprensa conjunta com Merkel e disse que espera que Bruxelas "cumpra sua promessa" de entregar a chave da UE à Turquia.

"Pacta sunt servanda", os pactos são para serem cumpridos, assegurou Merkel, que se comprometeu a abrir uma nova fase nas negociações, priorizando os capítulos 17, 23 e 24, referentes à política econômica e monetária, à Justiça e às liberdades fundamentais.

"Os demais capítulos podem vir depois. Necessitamos do acordo de todos, mas vamos defender essa postura diante de Chipre", prometeu Merkel. Chipre é o Estado-membro da UE que mais se opõe ao ingresso da Turquia e tem capacidade de bloquear o processo. Chipre rechaça a Turquia pela ocupação do norte de seu país, a qual mantém até os dias de hoje.

As negociações oficiais de adesão da Turquia à União Europeia começaram em 2005, porém se mantiveram quase congeladas desde então. De tempos em tempos se abria um novo "capítulo", porém acabava estancado. Muitos estados da UE, sobretudo Alemanha e França, frearam a Turquia para evitar uma chegada massiva de cidadãos turcos a seus países, e pelo temor de incluir na UE um país em que o Islã tem forte enraizamento.

Ainda que a adesão da Turquia dificilmente se concretize, o pacto a que chegaram contempla a "liberalização" de vistos para cidadãos turcos que queiram viajar à UE.

Outra importante concessão à Turquia foi sobre a oferta de Bruxelas de entregar a Ankara 3 bilhões de euros (3,4 bilhões de dólares) para que contenha os refugiados. Merkel aceitou a exigência da Turquia para que esse dinheiro não saia dos fundos que a UE já teria concedido no processo de adesão.
"Turquia quer dinheiro à parte, eu entendo, entendemos que é dinheiro adicionado e assim falaremos", confirmou.

Além de sua reunião com o primeiro-ministro, Merkel visitou Erdoğan, com quem concedeu uma breve declaração conjunta à imprensa.
Erdoğan exerceu como primeiro-ministro entre 2003 e 2014. Atualmente, é presidente, um cargo supostamente com menos atribuições, porém segue manejando toda a rede de poder de seu partido, AKP, e do governo.

A presença de Merkel na Turquia foi muito criticada tanto pela oposição alemã como pela turca, já que, a poucos dias das eleições gerais antecipadas, aparece como um claro apoio político a Erdoğan.

Nos últimos meses, Erdoğan levou a diante uma ofensiva repressiva de enorme magnitude sobre o povo curdo, e seus ataques contra as posições do PKK deixaram mais de 400 mortos. Assim, vem aprofundando um "giro bonapartista", reprimindo a oposição política no interior da Turquia, organizações de esquerda, sindicais e a imprensa.

Por sua vez, a oposição responsabiliza Erdoğan pelo brutal atentado de Ankra, que deixou um saldo de 97 mortos, e atentados anteriores como o de Suruc, que deixou 33 militantes mortos. Nas manifestações de repúdio ao atentado, milhares cantavam "Erdoğan assassino".

Entretanto, apesar de todos os questionamentos internos por sua política fortemente repressiva, Erdoğan conta com o apoio diplomático e financeiro dos Estados Unidos e da União Europeia. As bases aéreas turcas a serviço da OTAN e seu papel como "guardiã" das fronteiras "quentes" da Europa lhe garantem essa localização privilegiada.

Outra demonstração, mais uma vez, da hipocrisia dos líderes políticos do "ocidente", que não hesitam em pactuar com ditaduras e regimes repressivos como o da Turquia (e tantos outros) para salvaguardar seus próprios interesses.

Nesse caso, o que Merkel busca é evitar que centenas de milhares de refugiados consigam ultrapassar as fronteiras. A precária situação dos refugiados nos acampamentos da Turquia e do Líbano não se alterará, mas o que importa não é isso, e sim que não cheguem à Europa.

Tradução da charge: "Querido Recep, aqui está o pagamento adiantado para se livrar dos refugiados!"




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