Educação

REESTRUTURAÇÃO ESCOLAR

Memórias de uma escola que será fechada

Crônica de um professor de escola pública frente à reorganização escolar de Alckimin.

Iuri Tonelo

São Paulo

sábado 31 de outubro de 2015| Edição do dia

Foto: Clara Rios/G1

A história começa com uma espécie de ritual que eu, professor da rede pública, realizei e sem dúvida centenas de milhares de colegas e estudantes também devem ter feito: olhar a lista das 94 escolas fechadas essa semana para ver se era a sua. Em cada professor, em cada estudante, um drama, uma reflexão, uma indignação.

A mim passou o mesmo, mas confesso que o que primeiro me tocou foram as memórias, postas à mesa, com a ameaça de fechamento das escolas. Pra mim aparecia como se não fosse só a escola, mas uma memória que queriam nos retirar.

Trabalhando em Campinas, no interior do Estado de São Paulo, passei o olho rápido pela lista e num primeiro olhar não achei minha escola e também não vi outras. Ufa. Então segui a lista das cidades e me deparei com o fechamento de algumas escolas da minha cidade natal, Mogi das Cruzes, na Zona Leste de São Paulo. Deu certa apreensão: será que os colégio que estudei serão fechados?

Estudei oito anos na escola pública e meu primeiro reflexo foi pensar: “caramba, amanhã não poderei passear pelas ruas de Mogi e contar que foi naquele colégio que estudei... querem acabar com essa memória”. Mas não eram os colégios, eram outros, lembrava vagamente de nome, pensei que esse meu drama, por hora, não se colocava, mas no lugar dos meus estariam outros (dramas), outras histórias de professores, estudantes, funcionários daquelas escolas que deixaram de existir.

Então depois de uma primeira passada na lista voltei ao começo e fui olhando com mais calma. Um segundo olhar não passou despercebida a palavrinha “campinas” que o primeiro não tinha visto. Tinha uma escola fechada: Sebastião Ramos Nogueira, minha primeira escola como professor.

Um parêntese: existem essas “pequenas coisas” do trabalho que só vivenciando pra entender, mas se fosse tentar traduzir o significado de uma “primeira escola” diria: era a escola em que vivi aquele primeiro nervosismo inesquecível de entrar numa sala e ver dezenas de olhos brilhantes e apreensivos esperando ver o que vai acontecer.

Eu estava fazendo a licenciatura, entrei como temporário, e cai no Sebastião. Apesar de estarmos numa crônica, a realidade não é sempre romântica: a escola não era exemplar, tinha seus problemas, era a expressão da escola pública. Uma vez fizeram um meme (dessas imagens que ficam republicando nas redes sociais) com a escola porque choveu tanto dentro que os alunos brincavam que era um tsunami. Imaginem a situação.

Problemas eram vários, sempre. Mas as memórias não são só deles. Queria falar das coisas também das coisas boas. No Sebastião eu já aprendi rápido o que existia de melhor na escola: um laço profundo que vai se formando entre os colegas de profissão que vão, todos num só barco, entre angustias e obstáculos, vivenciando juntos percurso de lutar pela educação, de ensinar criticamente.

A situação da categoria é muito difícil, então imaginem, os professores estão sempre se opondo, direta ou indiretamente, aos coordenadas do sistema, que acaba sendo sufocante. Isso vai criando uma condição de companheirismo que, quando explorado, forma rapidamente um laço profundo. São as coisas que essas situações especiais propiciam. Isso foi algo que descobri, na prática, rapidamente, com a amizade que fui formando com algumas professores.

Mais teve outra coisa: no Sebastião eu vivenciei pela primeira vez a paixão indescritível (e me permitam a palavra) incomensurável de dar aulas e compartilhar os debates com os alunos, com a juventude. Eu sempre dei aula de igual pra igual com os alunos, e depois de junho de 2013 então fui aprendendo cada vez mais o que debater, como debater, o que interessa. Era uma aula a cada dia, o que aprendi na faculdade sob o nome de “subjetividade”, “consciência”, fazia-se carne como “realidade concreta”.

Com cada um dos colegas professores que converso, cada um a sua maneira, pode contar o significado disso: desde as colegas da minha escola que alfabetizam as novíssimas crianças aos colegas que pensam as mil e uma formas de dialogar com meninos e meninas maiores que a gente nos terceiros anos do ensino médio, a paixão está aí, em trocar, compartilhar, ensinar.

Voltando ao Sebastião.... lembrando agora parece que foi ontem que eu corria atrasado para escola e enviava uma mensagem pra secretaria dizendo que em dois minutos eu chegava. Agora correndo do mesmo modo parece que querem apagar essa memória, como uma imagem que vai se esvaindo nas políticas educacionais do governo.

Ou seja, pensando tudo isso, dentre as mil discussões políticas que poderíamos fazer contra os fechamentos de escolas (isso é evidente a qualquer um), quero adicionar mais um protesto: querem acabar com nossa vivência, com o nosso passado, com o nosso trabalho, com o nosso legado. Levaram nosso salário, esforçaram-se para derrotar nossas lutas, agora querem levar nossas memórias.

Faz-me lembrar de um poema de Fernando Pessoa, em que fazendo uma paródia, ficaria:

“A escola morrerá, e eu morrerei,
Ela deixará a educação, e eu deixaria versos.
A certa altura morrerá a educação também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a escola,
E a língua em que foram escritos esses versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como escolas”

No poema, Pessoa se refere a uma tabacaria. Eu joguei com as palavras e me referia a escola. As divagações pessimistas do poeta terminam com estímulos e prazeres da vida material, em saboreia a libertação desses pensamentos, volta a poesia da vida concreta.

A mim passou o mesmo, só que por outra via. Ao passo que escrevia esse texto abri meu facebook e vi uma matéria que falava de 5 mil jovens, professores e movimentos sociais nas ruas de São Paulo protestando contra os fechamentos de escolas.

Sim, querem fechar escolas, fechar as portas pra educação. Querem acabar com nossas memórias, com o passado. O problema deles é que a juventude, o futuro, está na rua.
Olha a ironia dessa história: o futuro luta salvar o passado (as boas memórias).

A juventude à frente vem dando uma aula de como se briga pela educação em São Paulo.




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