Sociedade

CARTAS CONTRA A MEDICINA DO CAPITAL

Medicina no capitalismo: refém de patentes, segredos comerciais e concorrência (Parte II)

O escândalo da “pílula da USP” contra o câncer [fosfoetanolamina] transformou-se em debate nacional. A má vontade do governo com qualquer tratamento anti-câncer que não seja o oficial ficou patente. O que é que esse processo esconde? O que ele revela sobre a ciência médica oficial e sobre a política de Estado contra o câncer?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 20 de janeiro de 2016| Edição do dia

Por que as empresas não dominam, até hoje, a tecnologia barata e natural dos repelentes e larvicidas contra o mosquito da dengue e do zica vírus? Idem para a cura da AIDs ou de tantas doenças medievais que nos assolam: por que a medicina capitalista não centra fogo na pesquisa objetiva pela sua cura? Porque não centram fogo na cura da malária, da doença de Chagas? Porque não focam definitivamente na cura do câncer, em tantas opções promissoras, que regularmente viram notícia, mas cujo denominador comum é que não dão patente? Ou então, por que o ozone não foi adotado pela medicina brasileira se há décadas e décadas se conhecem seus efeitos – só para citar um deles, indiscutível – antimicrobianos? (Lembrando que, segundo profissionais e pesquisadores de saúde cubanos, o ozone supera amplamente vários antibióticos sem os seus efeitos colaterais).

Parecem perguntas óbvias. Ou melhor: na aparência parece que é exatamente isso que eles estão fazendo, pesquisando a cura daquelas e de outras doenças. No entanto, acreditar neste postulado é o mesmo que acreditar que grandes oligopólios, os donos do capital, vão patrocinar qualquer pesquisa que tenha potencial para bani-los do mercado, ou seja, a pesquisa que encontre a cura barata de uma doença muito lucrativa, de uma doença que hoje consome medicamentos caríssimos e que traz os lucros estratégicos para tais empresas.

Esse é muito claramente o caso do câncer. Já se sabe que a quimioterapia, a radioterapia e a cirurgia estão mais e mais sofisticadas e, no entanto, a mortalidade pelo câncer aumenta sem cessar e sua incidência alcança populações cada vez mais jovens antes não tão atingidas por essa moderna peste negra.

Isso por um lado, por outro se sabe também que químio, radioterapia e equipamentos afins são o filé mignon de taxa de lucro ou de retorno para os investimentos na área de saúde por parte daqueles mesmos oligopólios que alguém já chamou de “indústria do câncer”(Ralph Moss). Eles patrocinam uma campanha duvidosa para dizer que estão “vencendo” a batalha contra o câncer, eles controlam o conjunto do sistema médico-hospitalar com a ideologia de que não há outra saída, de que tudo que é “alternativo” é charlatanice, não funciona e com toda certeza, assinariam embaixo da afirmação presunçosa de Dawkins [ver Parte I deste artigo].

Há um exemplo recente que ilustra o que aqui está sendo argumentado.
Em 2007 pesquisadores canadenses da Universidade de Alberta descobriram que determinada substância – a molécula simples de dicloroacetato, ou DCA – tinha efeito letal sobre as células cancerosas e sem os efeitos colaterais da quimioterapia. Trata-se de uma molécula simples, de efeito fartamente conhecido sobre o corpo humano, usada há décadas para tratar pessoas com certas desordens celulares (mitocondriais); e sabe-se que não tem aqueles efeitos colaterais que conhecemos na quimioterapia por exemplo. Sua virtude: o DCA tem o poder de reativar a mitocôndria das células cancerosas fazendo com que elas ganhem de volta sua “mortalidade” igual às células normais. Enfim, uma droga anticâncer seletiva, revolucionária, promissora.

Pergunta: alguma grande empresa farmacêutica se interessou em pesquisá-la, em investir maciçamente nela? Até hoje os pesquisadores de Alberta estão mendigando recursos públicos, investindo do próprio bolso numa Fundação, e a pesquisa simplesmente não anda, sofreu desvios. Os resultados iniciais prometem, mas a pesquisa entrou em modo câmara lenta e limitadamente . A pista para se começar a entender esse enigma e que não é pronunciada em alto e bom tom: aquela substância não é patenteável.

O resultado negativo de tudo isso é que não temos acesso a um medicamento promissor, ele não é adequadamente testado (como diz desejar Dawkins) e, ao mesmo tempo, como a notícia do DCA circula, essa substância vai cair na rede lucrativa do charlatanismo privado que vai promovê-lo e usá-lo do seu jeito, sem pesquisa e muito provavelmente sem a adequada seriedade já que também ele [o sistema alternativo privado] visa lucro. Poucos serão beneficiados nesse caso, se o forem. Por que uma força-tarefa do governo não se ocupou decididamente e com urgência de assumir o trabalho clínico com a substância, que já é conhecida há décadas? E vinculada ao câncer há décadas?

Não será o que vem acontecendo com o escândalo daquela substância descoberta por um pesquisador da USP/S Carlos [fosfoetanolamina] e que estava sendo usada por pessoas na cura do câncer e que veio sendo alvo de perseguição pelos órgãos do governo e, por fim, de proibição da sua produção a pretexto de que agora estará sob pesquisa oficial? Se já se conhece essa droga há mais de vinte anos por que nunca fizeram ensaios clínicos oficiais com ela, ainda mais sendo relativamente não tóxica? E por que não montam uma força-tarefa clínico-hospitalar para testar adequadamente a substância sob o comando decisivo da equipe que já a estudava? Afinal querem curar ou criar uma mercadoria lucrativa? Afinal, existe alguma barreira política? Por que o pesquisador da USP não foi imediatamente acolhido pelas instituições do governo e da saúde e por que não recebeu apoio maciço para a imediata pesquisa clínica? Por que não divulgam a experiência de anos de uso clínico que já vinha sendo feita em hospital de Jaú/São Paulo?

Por que, por anos a fio, criaram dificuldade a cada tentativa de parte daquele grupo paulista de desenvolver a pesquisa e, só depois de meses de exposição na mídia, muita pressão da opinião pública, somente em 29 de outubro, o governo admitiu - portanto forçosamente, a contragosto – formar uma comissão, dirigida pela alta burocracia do ministério da Saúde, para propor, daqui a muito tempo, um plano para iniciar uma pesquisa, e quem sabe quando e sob que critérios vão conclui-la?
De onde vinha o verdadeiro obstáculo, de fundo, que impediu a pesquisa ter sido feita há décadas e fez com que somente agora, com muita pressão pública, a burocracia do governo dela se ocupe, e mesmo assim no mesmo movimento em que decreta que fica proibido o uso da substância?

O capital e sua casta político-burocrática aqui aparecem claramente como uma barreira ao progresso médico- científico fora dos marcos que lhes interessa.
Com seus interesses em segredos comerciais, em protecionismos comerciais, com sua defesa brutal da patente (da propriedade intelectual), com sua desenfreada competição e seus carteis, os donos do poder econômico na área de saúde funcionam muito mais como barreira do que como impulsionador do progresso. E o Estado aparece como é, a seu serviço.

Determinados métodos terapêuticos que estão aí, muitos deles já descobertos, não conseguem ver a luz do sol. O dr. Otto Warburg, cientista de alto nível, tem uma teoria sobre o câncer, desenvolvida antes da II Guerra e que jamais foi levada a sério pela oncologia oficial, apenas para dar um exemplo. Outros cientistas [como R Rife] são satanizados liminarmente e banidos para o ostracismo, tendo suas carreiras científicas liquidadas , enquanto rios de dinheiro, de lucros milionários, azeitam uma máquina (a chamada “ indústria do câncer”, por exemplo) que age noite e dia, para que você acredite piamente que apenas o que vem dela oficialmente representa a última palavra em medicina, em ciência e em progresso. Os cientistas não são estimulados e apoiados a cooperarem entre si, e sim a concorrerem entre si; e estão atados, por fios invisíveis, ao sistema dominante. E a uma universidade pública cada vez mais submetida à lógica empresarial.

O Estado está a serviço daqueles carteis. Esse é o outro dado da questão. O Estado jamais é neutro.

O debate que precisa ser feito é, portanto, claro: nós trabalhadores temos que sair da nossa “neutralidade”, temos que partir para uma luta sem quartel que ponha, ao final, toda essa riqueza científica, toda essa indústria e instrumentos de pesquisa nas nossas mãos, sob controle dos trabalhadores e cientistas aliados (dotados de preocupação social) destruindo esse Estado que aí está, a soldo de oligopólios privados, os quais trataremos de encampar; e planificar seus recursos, equipamentos de saúde e de pesquisa em função das necessidades sociais e não mais do lucro, da patente, de segredos.

E mais: na doença, de uma maneira geral, temos que tratar de agir, de uma vez por todas, cada um de nós, muito mais como sujeito e muito menos como paciente; seja na doença seja também na relação com essa medicina e sua casta de profissionais – em regra – acomodados à “medicina como ela é”.




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