Teoria

MEDICINA E POLITICA

Medicina de mercado e miséria da medicina: a relação perniciosa do mercado com a medicina

Gilson Dantas

Brasília

sábado 5 de março de 2016| Edição do dia

Nos seus primeiros manuscritos, filosóficos, o jovem Marx a certa altura, argumentou que havia uma unidade e ao mesmo tempo uma contradição entre o homem e a natureza. E que não se poderia deixar de levar em conta o dado de que a natureza é o corpo inorgânico do homem, era mais ou menos essa a sua ideia. Para além de outras considerações que possam ser feitas, uma delas, que aqui interessa resgatar, é a seguinte: o capital – que será objeto de estudo em obras posteriores de Marx – provoca um tipo de cisão naquela relação homem-natureza, de tal forma que o resultado final será, digamos assim, uma perversão da relação do corpo orgânico com o inorgânico, para dizê-lo de alguma maneira.

Senão vejamos o caso da medicina.

Se a doença for entendida como uma alteração, nefasta para o nosso organismo, daquela relação, de tal forma que nosso equilíbrio interno, biológico, seja tornado disfuncional, golpeado ou alterado, obviamente que a resposta curativa, digamos assim, terá que trabalhar com equilíbrios desfeitos e, entendendo sua lógica e seus ritmos, deve procurar recompô-los de alguma forma. Assim funcionaria a ação terapêutica do médico e do próprio enfermo.

Não pode ser uma lógica abstrata e nem imposta de fora para dentro mas antes de mais nada respeitadora da dinâmica biológica, procurando conhecê-la para, da melhor forma que for possível, restaurar o equilíbrio perdido [doença].

Mas o que ocorre com a medicina nos marcos do mercado? O que se observa é que a dimensão mercantil termina impondo, a partir dos seus interesses próprios, ritmos e dinâmicas sobre os processos de natureza biológica. Leis da biologia versus leis das estruturas biológicas agora manipuladas como mercadorias.

Na medicina, portanto, nossa hipótese vai ser a de que a mercantilização da sociedade vai impondo a medicalização da vida [e do trato com a doença]. Nos marcos de uma relação de natureza perniciosa.

Examinemos essa hipótese.

A lógica e a dinâmica inerente ao capital é a de que ele precisa se valorizar, e se move nos marcos férreos da concorrência em uma dinâmica pela valorização que se dá ininterruptamente. Seus tempos são determinados por esses pressupostos férreos. Se o empresário produz lapiseiras, ele é fustigado pela concorrência a produzir mais lapiseiras no menor tempo possível. Com o mínimo de custos e procurando maximizar os ganhos [o processo inexorável é o da acumulação do capital]. Os ritmos da produção daquela mercadoria serão guiados pelo imperativo da concorrência e de redução de custos, de maior rapidez possível nos ciclos de rotação do capital [investimento-reinvestimento]. Mais lapiseiras por minuto, sempre. A lógica é imediatista. E também minimalista: o que se espera da lapiseira é que ela escreva.

Este é seu valor de uso; sendo que ela é fundamentalmente uma mercadoria, um valor de troca. Para o capitalista ela não passa de um valor de troca e com o qual pretende o máximo retorno [em valor] para seu capital.

Nada de novo. É assim que funciona o mercado no capitalismo.

O problema que aqui estamos tratando, no entanto, é o da esfera onde a saúde ou o nosso corpo enfermo, ou o serviço médico, os equipamentos e medicamentos, passam a estar na condição de mercadorias. Nessa esfera a busca incessante do capitalista de internalizar os ganhos e externalizar os custos tem um efeito rigorosamente devastador e, tomado ao pé da letra, surpreendente e grotesco se comparado com o prosaico exemplo da lapiseira.

E é assim porque o valor de uso do serviço, da providência médica ou do medicamento, é bem peculiar.

Seria, por exemplo, suprimir o sintoma da doença ou a lesão. Apagar uma dor que está incomodando, tirar um órgão que está dando sintomas, liquidar um tumor e assim por diante. Procurando ganhar o máximo possível, financeiramente, com isso.

Quanto mais medicalizar o problema melhor, desde que cada ato médico ou medida terapêutica signifique mais gasto para o enfermo, mais ganhos para o aparato médico-hospitalar. E que os custos sejam externalizados [isto é, fiquem do lado do chamado enfermo e seu entorno]. O problema de saúde pode até ser puramente social – falta do mais mínimo saneamento, por exemplo – mas quanto mais ele puder ser medicalizado, quanto mais se puder abstrair sua causa ou sua dinâmica social, melhor para o mercado médico.

O parto natural vai ser preterido pelo cirúrgico, o óculos preterido pela lente de contato, a medicina nutricional para emagrecimento preterida pela cirurgia bariátrica, de tal forma que aquilo que puder ser objeto de atos médicos complexos e de custo, que assim seja. Melhor para o mercado. Quanto ao chamado enfermo, cedo ou tarde ele se dará conta que a medicina virou um negócio como qualquer outro, mais caro que nunca e do qual ele depende mais tempo que nunca, do nascimento até seus últimos dias. Cada momento da sua vida virou um momento da acumulação do capital para o complexo médico-hospitalar. E isso nos marcos de um movimento onde efeitos colaterais e indesejáveis “desaparecem”, não entram no diálogo médico-paciente.

Aqui há uma pequena-grande diferença em relação à lapiseira: os tempos e ritmos biológicos não são os da rotação do capital. Mais ou menos como a relação do capitalismo como um todo com a biosfera: os ciclos da acumulação do capital, as leis da economia política não combinam, pelo contrário se chocam, com as leis e os ciclos da natureza, da biosfera. A avidez do capital pelo lucro, seus ciclos [nos marcos da citada concorrência] brutalizam a relação com a biologia, com a natureza.

Acumulação do capital degrada o meio ambiente e assim será sempre: é da sua essência internalizar ganhos em valor e externalizar custos, como foi mencionado lá atrás. Para o ambiente onde vivemos e ao qual estamos umbilicalmente ligados isso é veneno puro. A brutal carga tóxica que as fábricas lançam sobre rios e lençol freático é economia de custos para o capitalista representa brutal ataque ao nosso “corpo inorgânico”. Ou o escapamento do carro que libera gases tóxicos, já que um catalisador seria custo.

Na medicina é a mesma tragédia anunciada. Os médicos gostam de falar da medicina como “a medicina”, algo puro, como se fosse uma ciência médica flutuando no ar, por fora da sua condição de mercadoria. E preocupada com restabelecer a saúde.

Acontece que ela não escapa da lógica de mercado, da lógica imediatista da produção capitalista, onde os tempos não são os tempos biológicos. O produtivismo – a produção pela produção - no caso da saúde e da doença esbarra ou perverte os ciclos biológicos. Os tempos do capital não são os das funções orgânicas.

Outro dia um conhecido nosso, com um cálculo renal, foi submetido a um procedimento cirúrgico que quase o matou. Sobreviveu com muita dificuldade, gastando dezenas de milhares de reais e foi declarado “curado”, teve alta. Leia-se: a medicina de mercado tinha cumprido seu ciclo de realização do lucro e ponto. A pedra foi retirada. O sintoma apagado. Case closed.

Aqui fica evidente o choque entre medicina e mercado: o interesse e a discussão sobre porque aquele cálculo – que ia custando a vida do paciente – surgiu foi zero. A medicina não quer saber da causa, seu foco não é prevenção. Seu valor de uso é: remover a lesão, apagar o sintoma. Daqui retira seu lucro. Medicina de mercado é medicina da lesão e medicina dos sintomas. Medicina do capital; do valor de troca.

O desvio metabólico que gerou aquela pedra no rim, e que continuará agindo naquele organismo, formando cálculos que podem liquidar o outro rim – e o paciente - não é problema seu. Ainda não há lesão, ainda não há sintoma: não temos problema a ser medicalizado. Aquilo que seria o mais importante problema médico não é um problema – não é área de interesse – para o mercado.

O que mostra o quanto não existe a tal medicina “pura”; ela é medicina mercantil e, obviamente mais mercantil que medicina. Por essa razão não é pré-clínica, não é pré-lesão, não é problema seu lidar com o porquê e onde a fisiologia foi agredida e cálculos se formaram. Por essa razão ela é impotente na esfera coletiva, na saúde pública, na saúde do trabalho, portanto como medicina. Ao mesmo tempo em que se tornou um grande negócio [especialmente a medicina de alta taxa de lucro, a das “ressonâncias”, das “tomografias”, das “densitometrias”, dos “radioisótopos”, das “cintilografias”].

A raiz das doenças é social. O “modelo médico” que aqui está sendo criticado fica atrás da lesão, do sintoma, do vírus ou da bactéria. Quando o que já se sabe, desde Virchow, desde Claude Bernard, é que a doença é o terreno, a enfermidade é de natureza social. As chamadas “doenças da pobreza” mostram isso. São relações sociais – e que impactam imunidade, defesas orgânicas – que engendram doenças.

A questão é que à medicina de mercado lhe convém “medicalizar” tudo, de forma que com medicamentos e equipamentos caros, de diagnóstico e tratamento, esse nicho de mercado ganha horrores. A epidemia de obesidade é um problema social, vinculado à indústria de alimentos, mas para a medicina é um nicho privilegiado de mercado para o qual ela vende cirurgias caras [e de risco].

Enquanto isso a realidade social – e do mundo do trabalho e da carga tóxica ambiental – segue produzindo doenças em massa. O “modelo médico” segue a dança macabra do mercado, e as doenças seguem engendradas pelo “modelo” social, pelo capitalismo.

Por isso a medicina não é para nada “pura” e jamais desinteressada. É de mercado.

E tem que ser denunciada politicamente. O lucro da burguesia da saúde é mais custo e mais riscos para a mesma classe trabalhadora que adoece dentro e fora da fábrica por conta da exploração, da opressão e da carga tóxica.

A lógica biológica ou a lógica das coisas da saúde não tem como ser abordada pela lógica do capital. Sua lógica, da economia política do capital, é uma tragédia para a vida na terra e para o próprio planeta. Ela tira seu lucro, acumula seu capital, regulando a produção pelos seus tempos para a acumulação ampliada do capital; o “resto” são custos, custos ambientais e biológicos que não lhe interessam na mesma medida em que não representam ganhos para o capital. O capital na medicina precisa de mais pessoas com pedras nos rins, precisa que o parto e a obesidade sejam tratados como casos cirúrgicos e não como questões biológicas e sociais, que são.

Uma medicina reinventada se ocuparia de tratar obesidade como obesidade, parto como parto e não como mercadoria, e não medicalizando o que não precisa ser medicalizado.

Outro exemplo: produzir um frango para servir como alimento, é um processo que obedece a leis biológicas. O capital age segundo suas leis: se um frango levaria 6 meses para crescer, naturalmente, nos marcos da empresa capitalista, de confinamento e alimentação artificial, ele passa a levar dois, três meses. Se ao final ele perdeu significativamente em valor nutritivo e “ganhou” em valor tóxico (com sua carga de vacinas, hormônios, antibióticos e rações tóxicas) isso não é um problema para a valorização do capital; ele ganha mais produzindo mais frangos em menos tempo (lembra da lógica da lapiseira?). O problema é que neste caso fica evidente que os tempos e ritmos da biologia e, em consequência, da saúde, não são os tempos do capital, se chocam com os tempos de produção do frango-mercadoria. A mercadoria que teremos ao final de 2, 3 meses não terá o valor nutricional [de uso] do frango que fosse criado, digamos, biologicamente.

E aqui estamos de volta ao problema original.

A relação do capital com nossa biologia, quando saúde se torna mercantilizada, é pernicioso, perigoso e frequentemente letal [a medicina capitalista se tornou perigosa para a saúde, com sua carga de medicamentos tóxicos, ambiente hospitalar iatrogênico e exames invasivos e radioionizantes que promovem câncer e mortes, coisa fartamente documentada]. Nem a biosfera e nem a qualidade de vida humana aguentam o custo social do capitalismo e a sua lógica imediatista de jamais questionar a raiz social da doença e muito menos querer investigar por que o cálculo renal cresceu naquela pessoa e que medidas devem ser tomadas para que um outro não volte a se formar.




Tópicos relacionados

medicina do capital   /    Teoria

Comentários

Comentar