Teoria

IDEIAS DE ESQUERDA

Mauro Sala: “Eles sabem que os professores podem enfrentar Bolsonaro”

O suplemento Ideias de Esquerda entrevistou Mauro Sala, professor de Sociologia do IFSP e militante do Nossa Classe Educação e do MRT.

segunda-feira 6 de maio| Edição do dia

Veja também: Ideias de Esquerda: Ataques à educação, New Deal, migração e fronteiras

Ideias de Esquerda – Já antes das eleições, Jair Bolsonaro parece ter elegido os professores como um de seus alvos principais, desferindo inúmeros ataques sobre eles e promovendo abertamente o assédio. Na sua visão, por que Bolsonaro investe tanto contra os professores?

Mauro Sala – O governo Bolsonaro, como um herdeiro inesperado do golpe institucional, representa todo um projeto reacionário de sociedade. E para ele poder levar adiante esse projeto ele precisa buscar “enquadrar” os elementos dissonantes e as contra-tendências que vêm se articulando. Um dos principais elementos dissonantes e de oposição tem sido justamente os professores, que formam um conjunto de trabalhadores que acumularam certa experiência em mobilizações e luta. Já antes do golpe institucional, sempre se teve notícias de greves de professores reivindicando melhores salários e melhores condições para exercer seu trabalho educativo. A categoria dos professores é a categoria profissional que mais promove movimentos reivindicatórios e conflitos trabalhistas. A expansão precária que os sistemas educacionais vivenciaram nas últimas décadas colocou para os trabalhadores da educação essa posição de constante luta, que explodem em movimentos grevistas de cunho reivindicatório.

E isso não só no Brasil, mas no mundo todo. Para se ter uma ideia, em uma pesquisa realizada na década de 1990, pelo World Labor Group, da Universidade de Binghamton, mostrava que o setor da educação vivia um crescente de insatisfação trabalhista nas últimas décadas do século XX (tanto em número de protestos como na sua distribuição geográfica), superando a ocorrência de manifestações de setores como o da indústria têxtil, automobilística, de ferroviários, aeronáuticos, portuários e outros. Pelo que posso acompanhar, não parece que essa realidade tenha mudado.

Se dermos um giro pelos jornais do mundo todo encontraremos, ainda hoje, diversos exemplos de movimentos reivindicatórios de professores, que passam a articular reivindicações trabalhistas “clássicas” – como a questão salarial e da jornada de trabalho – com outras questões impostas pelas atuais políticas educacionais de cunho empresarial. Os professores parecem perceber que a luta pelas condições do trabalho educativo é também uma luta contra o empresariamento da educação. E isso não acontece só na periferia do capitalismo. Não faz muito, pudemos acompanhar o importante movimento de professores que aconteceu no coração do imperialismo, que, desde o ano passado, vem constituindo uma verdadeira “primavera docente” que fez tremer os EUA.

Esses constantes movimentos reivindicatórios de professores fez com que se tentasse colar sobre nós um selo de “corporativismo”, que não é capaz de apreender a complexidade dos movimentos reivindicatórios dos professores. Como eu disse, os movimentos de professores não se concentram apenas na defesa de suas condições trabalhistas – o que é plenamente legítimo – mas também se coloca no campo das disputas pelas políticas educacionais. Mas também não é apenas esse campo que tem mobilizado o professorado.

No Brasil, pudemos acompanhar milhares e milhares de professoras e professores se colocando em movimento por questões gerais da sociedade, rompendo com qualquer pretenso corporativismo da categoria. Nós fomos linha de frente na luta contra o golpe institucional, nas greves gerais contra a reforma da previdência, e nas lutas democráticas, que se expressa na adesão bastante massiva entre os trabalhadores e trabalhadoras da educação em dias de luta como o 8 de março, por exemplo.

IdE – Bolsonaro e seus principais apoiadores tem insistido na ideia de “doutrinação ideológica” por parte dos professores. Existe algum fundamento nessa acusação?

Mauro Sala – A ideia de doutrinação ou de assédio ideológico é uma bobagem constantemente veiculada por setores reacionários que apoiam o governo. O movimento “Escola sem Partido” talvez seja seu elemento mais organizado. Entretanto, temos que estar atentos para bobagens que podem se tornar movimentos reais e/ou alguma forma de política do governo de turno.

A ideia de que os professores fazem uma espécie de doutrinação esquerdista nas escolas não encontra amparo na realidade. O que se tem aí é uma completa inversão da realidade e um desconhecimento da própria dinâmica do desenvolvimento das crianças e dos jovens.

O que acontece é que um setor bastante conservador da sociedade parece não entender que a própria vivência da juventude leva a certo “rompimento” com as posições mais conservadoras presentes na família.

Vez ou outra ouço na escola pais e mães se queixarem de que a escola “mudou” seus filhos, que antes eles eram “dóceis e obedientes” e agora estão “rebeldes”. Nós mesmos, nas escolas, sentimos o mesmo. A passagem para a adolescência leva muitas vezes a essas transformações, que são perfeitamente normais e saudáveis. É apenas o processo do jovem começando a exercer sua autonomia, o que muitas vezes leva a conflitos. Nisso a escola, certamente, tem um papel, embora num sentido bastante diferente do que os defensores do “Escola sem Partido” acreditam.

O jovem se constrói, na escola, não apenas na relação que tem com os professores, mas – poderia dizer, sobretudo – pela relação que estabelece com os outros jovens. Acusar um professor ou professora de ter favorecido, por exemplo, a homossexualidade de seu filho é um contrassenso absurdo. É a própria vivência da sexualidade que o levou para esse caminho, uma sexualidade que se constrói antes na relação direta entre os jovens do que nessa ou naquela aula. Por isso os setores ainda mais reacionários defendem simplesmente o ensino domiciliar como forma de manter um controle estrito sobre a juventude e qualquer influência que o jovem possa ter para além do conservadorismo familiar e religioso.

IdE – Mas então, por que o debate sobre gênero e diversidade sexual é um tema tão caro para os professores?

Mauro Sala – A questão é que nós que estamos cotidianamente nas escolas em contato com a juventude sentimos antes as suas angústias. O debate sobre gênero e diversidade nunca foi um debate doutrinário dentro das escolas. Em certo sentido, posso mesmo afirmar que não nasceu de uma demanda geral dos professores. Ele é antes uma necessidade imposta pela juventude.

Mesmo com toda a opressão que existe nas escolas, muitas vezes ela ainda é um espaço em que o jovem pode se expressar mais livremente do que em casa. Não são raros os estudantes que expressaram sua homoafetividade ou que davam sinais de transição na escola antes de expressarem no seio da família. A escola, de alguma forma, antecipa alguns conflitos geracionais que se expressarão depois no seio da família. E se ela estiver atenta, terá que tematizá-los a fim de poder diminuir as violências e opressões que também ocorrem em seu interior. Os professores não doutrinaram os estudantes nessas questões. Eles antes buscam ajudar a vocalizar e amplificar demandas já contidas na vivência e no modo de vida de uma parcela expressiva da juventude. Os professores servem antes como tribunos para ajudar que essas demandas possam ser socialmente reconhecidas e, dentro das escolas, eles precisavam reconhecer a diversidade das vivências e para fazer valer a vivência das diversidades. A questão é reconhecimento e direitos.

IdE – Mas o “Escola sem Partido” parece querer ir além, propondo um revisionismo completo no currículo como forma de combater essa pretensa doutrinação

Mauro Sala – Sem dúvida, o “Escola sem Partido” vai muito além do debate sobre gênero nas escolas. Eles querem até mesmo promover uma revisão sobre a história da escravidão, onde colocam os próprios negros africanos como os artífices da escravidão durante a colonização e o Brasil Império, como forma de combater o que eles chamam de “mimimi” da esquerda quanto ao racismo estrutural e estruturante do país.

Mas a questão parece que vai além do ensino dos conteúdos. Trata-se de buscar isolar e estigmatizar os professores. Assim como em questões da vivência juvenil, a escola e os professores também podem se tornar uma caixa de ressonância de diversas demandas gerais dos trabalhadores e trabalhadoras, como a falta de creches, os problemas do transporte até as péssimas condições de trabalho, os baixos salários e o desemprego. Aqui também os professores podem ser – e frequentemente são – uma espécie de tribunos do povo, fazendo ecoar na sociedade demandas que já existem, mas que, de alguma forma, não atingem o nível do debate público e da mobilização. Nesse sentido, buscar taxar os professores de doutrinadores é uma forma de silenciar essa voz, que no mais das vezes não é apenas a voz dos próprios professores, mas que articula um discurso difuso que é claramente percebido no interior das escolas públicas do país.

IdE – Essa semana, vimos o anúncio do Ministro da Educação de cortes nas verbas das Universidades e dos Institutos Federais. Como esse anúncio se articula com sua proposta geral para a educação?

Mauro Sala – Penso que isso está totalmente articulado com um projeto bastante elitista de sociedade. O ex-Ministro Vélez Rodriguez já havia declarado que a Universidade não deve ser para todo mundo, mas apenas para uma elite. O próprio Bolsonaro sempre se orgulha em dizer que o curso de reparador de máquina de lavar que ele fez já é suficiente para garantir uma vida muito confortável. O que ele quer é que a educação – da Educação Básica ao Ensino Superior – se torne apenas uma incubadora de força de trabalho barata. Por isso os cortes.

É interessante como eles apresentam as razões desse contingenciamento: ora eles argumentam explicitamente que é por conta da “balbúrdia” esquerdista das Universidades, ora opondo o Ensino Superior à Educação Infantil.
Esses dois elementos não podem ser separados. Um não é mais explicativo que o outro para entendermos as razões profundas do caminho que o governo vem seguindo. O ataque ideológico contra as Universidades e Institutos Federais é parte da preparação para a redução da função da educação para os ditames do capitalismo em crise. Atacar ideologicamente as Universidades e o Ensino Profissional é parte de se preparar para um estreitamento da formação nesses níveis e modalidades de ensino. Trata-se de adequar o sistema educacional – material e ideologicamente – para as reformas anti-trabalhador que o governo quer promover.

Temos que lembrar aqui que, assim como as professoras e professores da educação básica, as Universidades e Institutos Federais também são parte importante dos movimentos dissonantes e de oposição ao governo. E não se trata de reduzir essa oposição apenas ao governo Bolsonaro. Não é verdade que as Universidades e Institutos Federais são elos de transmissão do PT. Se isso fosse verdade, nada explicaria as longas greves e movimentos de oposição que eles protagonizaram durante os governos de Lula e Dilma. As Universidades tem exercido um potencial de oposição que perpassou os diversos governos. Destruir ou ao menos isolar esse potencial é o que Bolsonaro busca fazer com essas medidas de destruição material e ataque ideológico.

O outro argumento que se levantou, busca criar uma oposição entre o Ensino Superior e a Educação Infantil. Além de ser um elemento claramente populista, essa é uma falsa oposição, que só parece fazer algum sentido quando estamos num momento regressivo nas políticas educacionais. Os trabalhadores demandam tanto a Educação Infantil e o Ensino Básico quanto demandam o Ensino Superior. O que precisamos de fato é de mais vagas na Educação Infantil e mais vagas gratuitas nas Universidades e Institutos Federais. Mas o governo precisa criar essa falsa oposição para justificar os cortes, não o maior investimento.

Ele diz que a prioridade é a Educação Básica. Mas do que estamos falando? A fala de Bolsonaro de que a escola deve ensinar apenas a “ler, escrever e fazer continhas” é a expressão acabada de seu projeto de escola, onde qualquer dimensão educativa estaria vetada. É claro que ensinar a ler, escrever e fazer contas é uma das tarefas da educação escolar. E o fato de que a escola muitas vezes ou não consegue ensinar isso, ou apenas o faz de modo precário, não pode ser pretexto para a redução da educação escolar a esses elementos fundamentais. Para o Bolsonano – e isso constava em seu plano de governo – o Brasil já investe muito em educação. Isso não é verdade. Se compararmos o investimento por aluno do país com os investimentos dos países membros da OCDE, veremos que o Brasil investe significativamente menos na educação de nossas crianças e adolescentes. Isso repercute em professores com baixos salários e jornadas altíssimas, salas superlotadas, falta de materiais e toda uma série de problemas que muitas vezes inviabiliza a aprendizagem dos conteúdos fundamentais da língua portuguesa e da matemática. Se Bolsonaro se preocupasse com isso, ele aumentaria o investimento na educação em geral, e não defenderia que já gastamos demais. Bolsonaro não está preocupado que os alunos aprendam a “ler, escrever e a fazer contas”, a preocupação dele é que eles não aprendam nada além disso. A fala dele de que quer que os alunos se desinteressem pela política é a expressão acabada de sua política.

De qualquer modo, diante de tanta política regressiva para a educação, nem mesmo essa pretensa prioridade para a Educação Básica se sustenta, já que essa semana mesmo foi noticiado que haverá cortes no orçamento da Educação Básica também. Ou seja, haverá cortes no orçamento de todos os níveis de ensino. O projeto dele não é de prioridade para a Educação Básica, mas de pura e simples destruição da educação.

IdE – O grande projeto de Bolsonaro é a Reforma da Previdência. Como esses ataques à educação se relacionam com ela?

Mauro Sala – As reformas educacionais sempre têm seu ponto de inteligibilidade ligado ao trabalho. O processo de qualificação ou desqualificação do trabalho demandam esse ou aquele processo formativo. Temer fez sua reforma do ensino médio para adequar a formação dos jovens à precariedade da reforma trabalhista e da terceirização. Bolsonaro quer fazer sua reforma educacional para adequar a educação à miséria da reforma da previdência.

Temos que lembrar que a reforma da previdência não atingirá apenas os trabalhadores na hora da aposentadoria. Ela significará uma redução geral nas condições de trabalho. Não precisa de muita matemática para imaginar a ampliação enorme no contingente de trabalhadores disponíveis que o aumento do tempo para se aposentar gerará. Num quadro de grande desemprego, as condições gerais de trabalho – salário, jornada, tipo de contrato etc. – tendem a se deteriorar ainda mais. Essa força de trabalho entrará no processo de trabalho de forma ainda mais precária do que hoje. Isso requer adequar sua produção.

No capitalismo, a força de trabalho é reduzida à condição de mercadoria. Daí que quando procuramos um trabalho vamos ao assim chamado “mercado de trabalho” para vendermos nossa mercadoria força de trabalho. Como toda as mercadorias, o seu valor é igual ao custo de sua produção e reprodução. Com o trabalho não é diferente. Assim, os cortes no orçamento da educação, bem como o estreitamento da formação dos jovens trabalhadores visam a baratear ainda mais essa mercadoria força de trabalho. Na lógica capitalista todo gasto com a formação da força de trabalho que não servir para o aumento da exploração é um gasto inútil. Bolsonaro quer acabar com esse gasto que, também do seu ponto de vista, é inútil. Por isso ele articula estreitamento curricular com cortes orçamentários. Ele quer dar o mínimo para que o trabalhador possa apenas ser eficazmente esfolado no mercado de trabalho.

A questão é que o que é inútil do ponto de vista da exploração capitalista – ou um simples custo dispensável – é muitas vezes o que dá um pouco de sentido à vida das pessoas, como o acesso à cultura, por exemplo. Mas essa consideração não entra nem de contrabando nas preocupações do governo.

No que tange à questão dos acordos para a votação da reforma, vemos um movimento que aparentemente é contraditório. Vemos um certo movimento de atores do regime de retirar os professores das mudanças mais duras da reforma da previdência. Parece que o MDB e o PR estão discutindo fechar questão nesse ponto. Pode, para um observador desatento, parecer que se trata de um respiro para os professores diante de tanto ataque. Mas penso que temos que olhar num outro ângulo. Não se trata de uma medida de defesa da educação, em geral, e uma preocupação com os professores, especificamente. Trata-se de uma manobra para tentar afastar um elemento potencialmente perigoso e que pode colocar em risco a reforma de conjunto. Assim como nós sabemos, eles também sabem que os professores podem ser um peso decisivo na correlação de forças para a aprovação ou não da Reforma. E se o MDB e o PR querem tirar os professores da reforma é porque eles sabem que os professores podem enfrentar o Bolsonaro.

IdE – No dia 15 de maio, as entidades e sindicatos da educação convocaram um dia de paralisação. Qual a importância desse dia e como você avalia que ele poderá se dar?

Mauro Sala – Pela Dinâmica nacional e o papel que os professores vêm cumprindo, penso que poderá ser um importante dia de luta. Como eu disse no início, os trabalhadores da educação acumularam importantes experiências de luta e mobilização durante sua história e, desde o golpe institucional, têm sempre sido um fator importante na luta de classes e na organização dos trabalhadores. O dia 15 de maio pode ser um dia decisivo para que possamos dar uma passo importante nesse processo. Parece, pelo que podemos acompanhar até agora, que há bastante disposição para fazer desse dia um fator real na mobilização pela educação e em defesa dos trabalhadores, ainda mais levando em conta os recentes ataques com cortes no orçamento das Universidades e Institutos Federais e na Educação Básica e a perspectiva de votação da reforma da previdência. A questão é como fazer dessa mobilização algo que possa romper com certo controle que as burocracias e as centrais sindicais têm tentado impor aos trabalhadores. Nesse sentido, em que pese a necessidade de um amplo calendário de luta, devemos batalhar também pela sua unificação. As centrais sindicais fizeram um chamado para o dia 14 de junho e as entidades e sindicatos da educação para o dia 15 de maio. Penso que seria bastante importante que as centrais sindicais também fizessem o 15 de maio como um dia nacional de luta pela educação e contra a reforma da previdência, apontando para a unificação dos trabalhadores. Deixar os professores e estudantes sozinhos nessa jornada é uma política muito problemática. Não dá para entender, do ponto de vista das necessidades de organização e unificação das lutas, porque as centrais sindicais fazem um chamado de greve geral apenas para o dia 14 de junho e não unificam desde já com os professores e estudantes que estão buscando construir o dia 15 de maio como dia nacional de luta. A unificação das categorias é um elemento fundamental para que possamos derrotar a reforma da previdência que atingirá os trabalhadores de conjunto. A agenda da luta não pode ser formal, com datas estabelecidas apenas nos gabinetes das burocracias sindicais, ela deve refletir os elementos reais da luta de classes. Dia 15 de maio é uma realidade. Assim, unificar as lutas é uma tarefa urgente e fundamental.




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