Gênero e sexualidade

[DOSSIÊ] O FEMINISMO ANTIPUNITIVISTA

Matéria cinzenta

O movimento internacional de mulheres colocou em foco o que antes parecia natural: a violência, coisificação, discriminação. Na Argentina, o movimento Ni Una Menos (Nenhuma a menos) em 2015, com um programa mínimo mas com uma potência enorme – parem de nos matar -, incendiou uma faísca que incendiou os movimentos operários e de luta pela legalização do aborto. As recentes denúncias de violência, assédio e abuso que partem de vítimas que decidiram sair do anonimato cumprem o importante papel aqui e lá de desnaturalizar essas práticas, e exigem novas reflexões e debates. A escritora feminista Marina Mariasch fazia uma pergunta sugestiva sobre os novos sentidos comuns, “Há algo abjeto nessa tendência aos protocolos e à proibição atravessada no processo de uma história que pretende aproximar-se da liberação do sujeitx. A pergunta incômoda: estamos promovendo mais tabus?”

terça-feira 18 de dezembro de 2018| Edição do dia

ILUSTRAÇÃO: Iara Rueda
TRADUÇÃO: Letícia Parks

O movimento internacional de mulheres colocou em foco, sob uma nova luz, o que antes parecia natural: a violência, coisificação, discriminação. Na Argentina, o movimento Ni Una Menos (Nenhuma a menos) em 2015, com um programa mínimo mas com uma potência enorme – parem de nos matar -, incendiou uma faísca que não apenas não se extinguiu como serviu de combustível para outras lutar contra a desigualdade, para lutar contra as demissões (Nenhuma a menos sem trabalho), para revitalizar o movimento pela legalização do aborto (Nenhuma a menor por abortos clandestinos), entre muitas outras manifestações.

Nos sedimentos dessas manifestações surgem novos e se recriam velhos debates. Um com grande ressonância foi o das denúncias públicas que se multiplicaram, especialmente depois do alcance que teve a hashtag #MeToo, surgida de acusações de assédio e abuso contra o produtor de Hollywood Harvey Weinstein. Respondendo a esse fenômeno, a declaração de um grupo de atrizes e intelectuais francesas colocou sobre a mesa uma pergunta incômoda acerca das outras consequências possíveis dessa onda. Suas colegas de Cannes alertaram sobre o lugar onde o puritanismo coloca as mulheres, eternamente “vítimas” e as consequências da censura na arte, em nome do “bem geral” e a “proteção das mulheres”, como aconteceu com os nus de Egon Schiele, na Grã Bretanha e Alemanha.

Disso resultou um duelo entre Hollywood e Cannes – ambos bastante longe das vidas reais de 99% das mulheres-, se colocou em debate a efetividade das denúncias e escrachos públicos como expressão urgente e mais visível da luta contra a ancestral violência patriarcal, que a sociedade capitalista reproduz, mais ou menos brutalmente.

Enquanto isso, na Argentina, nesses anos de mobilizações sob o lema de #NiUnaMenos, as exigências das mulheres vieram ganhando legitimidade, desnaturalizaram o naturalizado e criaram novos sentidos. Este foi sem dúvidas o maior impacto do movimento que, ainda assim, exige novas reflexões e debates. Nesse marco, a tendência a realizar escrachos e denúncias públicas em redes sociais coloca, também na Argentina, a pergunta incômoda.

A advogada feminista Ileana Arduino, quando o músico Gustavo Cordera foi repudiado pelas suas expressões misóginas, refletiu que “o que grande parte do feminismo faz de melhor é evidenciar o caráter estrutural das violências e exigir transformações radicais, porque se conformaria – frente ao desastre imperante – em seguir aprofundando o caminho punitivista?” (Cosecha Roja, 08/11/2017). Por outro lado, a escritora feminista Marina Mariasch fazia uma pergunta sugestiva sobre os novos sentidos comuns, “Há algo abjeto nessa tendência aos protocolos e à proibição atravessada no processo de uma história que pretende aproximar-se da liberação do sujeitx. A pergunta incômoda: estamos promovendo mais tabus?” (LatFem, 31/12/2017)

O Ideas de Izquierda Argentina as convidou a seguir refletindo sobre esses incômodos.

Matéria Cinzenta

MARINA MARIASCH

Habitamos a contradição. Como feministas, integramos um movimento que alcançará seu objetivo quando deixe de existir. Logo da irrupção feminista nas ruas, estamos vivendo uma renegociação em várias ordens do intercâmbio social, também no pacto sexual. É uma conversação total, onde entra de tudo, até as maneiras de se nomear. E é uma mudança que está ocorrendo em velocidade máxima.

A velocidade e a força vem com o suporte das militantes feministas históricas e com o impulso das meninas, motor da revolução que arrasa com o mundo tal como conhecíamos. As meninas estão dispostas a questionar tudo. Algo que já é próprio delas pela juventude se potencializa: a busca para que as desigualdades estruturais do patriarcado caiam são imperiosas, imediatas. Nos colégios, as meninas não estão dispostas a suportar nada: deixam claro que é responsabilidade dos adultos se atualizar sobre os usos sexistas da linguagem, evitar as práticas discriminatórias, e sobretudo oferecer as ferramentas e os dispositivos de contenção frente às situações e conflitos que o machismo e seu combate colocam. Frente à falta de resposta institucional, as meninas dos colégios secundários se organizaram.

Em agrupações e redes, em novas conspirações, envolvidas por paninhos verdes e paetês, colocam freio às distintas formas que o machismo toma nas salas de aula: nos olhares de um professor, na maneira de chama-las, um texto que é dado para leitura ou na canção que lhes ensinam, a proibição dos shorts, de um esporte, qualquer restrição que não exista para o rapaz. As meninas disseram basta. E disseram #NãoéNão. No Facebook, no Instagram, em um blog. As denúncias que que postam são a via que encontraram de legitimar a voz das que se sentiram vulneráveis pela violência machista expandida e instalada nas práticas cotidianas. Tem o impacto instantâneo e viral das redes e um instinto radical. Tomam o caminho do escracho, um caminho pavimentado em outro contexto de época, um contexto de total impunidade. Mas assim as meninas conseguiram aliviar essa urg6encia que as atravessa e reafirmar essa palavra que durante anos foi, assim como elas, depreciada. #YoTeCreo (#AcreditoEmVocê). Acreditar é a premissa básica que impõe o feminismo desses dias. A palavra de quem se percebe como vítima não está submetida ao escrutínio nem a provas, nem sequer cabe o condicional ou o suposto. O que se passa nos colégio não é muito distinto do que se passa fora, em outros âmbitos, as mesmas vozes. #NãoNosCalamosMais.

A consigna #Contalo (#Conte ou #Conta) tem a contundência das anteriores e soma esse traço de compulsão que muitas vezes leva a se reconhecer sob qualquer das formas de violência machista. Avança assim a construção de uma narrativa da denúncia, com seus bemóis e matizes, que o escracho não contempla.

A cultura na qual os abusos – sexuais, de poder – se sustentavam com naturalidade entrou em uma crise irreversível. E nesse momento de transformação as vezes se torna difícil determinar, dentro do leque de comportamentos e práticas que constituem nossos intercâmbios pessoais, o que é abuso e o que não é, e também de que maneira elegemos ou podemos nos posicionar frente a esse evento.

Frente a tudo isso, está a verdade da vítima. Uma verdade inquestionável e irrefutável, cujo direito é terreno conquistado sem volta atrás. Mas assim como nem todas as zonas cinza da tensão sexual são abuso, assédio ou estupro, não há porque necessariamente serem percebidas por quem as vive a partir do lugar de vítima. “Ficamos mas depois me dei conta que muito do que fizemos eu não queria, ou não sei se gostei”, disse Chali. “E se tomei cerveja quem é você para meter a mão entre as minhas pernas?”, disse Flo. Chali conversou com suas amigas e dedicidiu por em pausa essa denúncia que havia começado a avançar. O caso de Flo foi distinto, ela não queria. O consentimento é uma instância fundamental para dividir as águas. Inclusive quando o consentimento como conceito está colocado em questão pelos novos feminismos: teria que ver quem consente o que a quem. Queremos, além disso, revalorizar o desejo que nos move.

E mais um desafio nesse caminho é encontrar a via que nos leve, revolucionando tudo, a construir também uma justiça feminista. Onde se alguém incorre em uma prática abusiva não necessariamente se converte ontologicamente em abusador. Onde ao se tratar de um par, não corre a mesma vara que quando há distintas posições de poder. Onde o que buscamos é o fim do feminismo porque não há machismo contra o qual lutar, e isso implica educação sexual e mudança cultural, não tirar a maça podre, linchamento social, matar a raiva. No pântano do patriarcado estamos todos afundados. Nos serve mais sair de mãos dadas.




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