Teoria

ECOLOGIA E CAPITALISMO

Marx escreveu sobre meio ambiente?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 11 de outubro| Edição do dia

Introdução

A compreensão de Marx sobre a questão da alienação do trabalho não está desvinculada daquilo que ele entende como a alienação do ser humano em sua relação com a natureza nos marcos do capitalismo. Ele pensa na dupla alienação que se estabelece na relação do trabalho e na relação com a natureza, inseparáveis ambos.

Essa é a base ou o pressuposto para que as várias indicações ou insights teóricos de Marx, ganhem importância como método de pensar o problema ecológico contemporâneo em profundidade. Um problema que ganha, nos nossos tempos, contornos catastróficos em marcha [ou, em outras palavras, o custo sócio-ambiental da permanência do capitalismo é insuportável].

Marx, desde os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, entende o sistema da propriedade privada como opondo o homem à natureza de duas formas: a propriedade usada para explorar o outro e sua capacidade de deteriorar a relação da sociedade com a natureza [por exemplo, a deflagração da “poluição universal das grandes cidades”, nas palavras de Marx nos Manuscritos].

Sua percepção é de que as tendências e contradições do processo produtivo - nos marcos das relações capitalistas de produção – só pode se dar destruindo condições naturais da vida humana, o que inclui o empobrecimento dos solos pela agricultura capitalista [além da crescente separação campo-cidade etc].

Marx estudou autores que tratavam das ciências da matéria, da vida, do solo e frequentou palestras sobre o tema em Londres [Marx assistiu conferências, em Londres, de Tyndall, Moleschott, Liebig e T. Huxley] e fez anotações a respeito, por mais que não tenha elaborado, por exemplo, um ensaio específico a respeito.
Em que direção suas reflexões apontam?

Agricultura e capitalismo

Já desde os anos 1840, Marx-Engels argumentavam sobre a necessidade de se enfrentar o antagonismo cidade-campo (em benefício “da saúde pública”, como argumenta Engels no Anti-Dühring, ao defender que o excremento das cidades deve “produzir plantas em vez de doenças”); e a questão dos solos, da terra, aparece em seus escritos, como também a reflexão sobre a capacidade da natureza de reagir aos ataques das comunidades humanas a determinados ciclos biológicos [ver seu texto sobre O papel do trabalho na transformação do símio em homem].
Marx assimila os mecanismos detectados por Liebig sobre degradação do solo e assinala que, nesse sistema, mais indústria significa, necessariamente, mais destruição como se vê no seu argumento em O capital [ANDRIOLI, 2008: 20]:

Quanto mais um país como os Estados Unidos da América, por exemplo, partir da grande indústria como base para o seu desenvolvimento, tanto mais rápido será o processo de destruição. Nesse sentido, a produção capitalista somente desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na mesma medida em que destrói as fontes de toda a riqueza: a terra e os trabalhadores.

A gênese da agricultura capitalista é entendida por Marx como algo que rompe a relação orgânica do trabalhador com a terra [sendo o trabalho o pai e a mãe a terra, em uma imagem de Marx no O capital, volume 1]. A relação capitalista com o solo é puramente mercantil, predatória. Não está conectada com as gerações futuras.
É preciso ter em conta que a ‘interação’ (metabolismo) homens-natureza tinha, em Marx, o duplo sentido, econômico e também de relação de troca material; valor de troca e valor de uso.

Dessa forma, está presente em Marx um pensamento que é social e é - para usar uma expressão atual - ecológico ao mesmo tempo. Sua premissa é que a indústria capitalista, somente produz valor de uso na condição de mercadorias. Portanto, da acumulação do capital. A preservação da natureza ou da vida passa longe dessa dinâmica.

A visão de natureza que se desenvolveu “sob o regime da propriedade privada e do dinheiro”, escreveu Marx em 1843 em “A Questão Judaica”, “é de verdadeiro desprezo pela degradação prática da natureza... Neste sentido, é que ele cita Thomas Müntzer que considerava intolerável que ‘todas as criaturas tenham sido transformadas em propriedade, os peixes na água, as aves no céu, as plantas na Terra, todas as coisas vivas também precisam tornar-se livres” [FOSTER, 2005: 110].

Temos um Marx – em ruptura com o capitalismo, com a mercadoria - que defende o ciclo metabólico completo, e que desenvolve indicações na perspectiva do que hoje se entende como agroecologia. . Profundamente influenciado por Tyndall (que impulsionou Mayer e sua lei da conservação da energia), também por T.Schwann [com seu “metabolismo celular” em 1839], Marx lê Liebig (Organic chemistry...) e aprofunda sua crítica à agricultura no capitalismo. Vale lembrar que no período em que ele escreve, está em marcha a segunda revolução agrícola [1830-1880], da indústria de fertilizantes e o avanço na química dos solos.

E, justamente, é por conta do desenvolvimento da ciência da química dos solos e dos fertilizantes, isto é, da revolução agrícola, é que Marx poderá aprofundar seu foco. Aliás, o próprio Liebig, diretamente, propõe reciclagem orgânica dos dejetos/esgotos para reincorporar os nutrientes ao solo [FOSTER, 2005: 218].

Engels, por sua vez, já cita a revolução química de Liebig – em seu Esboço de uma crítica à economia política de 1844 – para refutar Malthus. E Marx-Engels nos anos 1850, assumirão a perspectiva de otimismo industrial (de Liebig) contra Malthus nos termos de que a agricultura pode ter produtividade do solo melhorada: não estamos fadados à baixa produtividade, à fome. Marx seguirá adiante com suas leituras, e lá pelos anos 1860, aquele otimismo dá passagem a um foco mais sofisticado, que não aceita a degradação ambiental em nome de qualquer perspectiva “industrial”, e que enfatiza a degradação ecológica.

É portanto, pacífico para Marx, que necessitamos de uma agricultura mais preservacionista, e que mesmo com toda a ciência, o capitalismo não recicla o solo. Seu objetivo é o lucro, o que não o impele para o manejo do solo na perspectiva da saúde e recomposição do solo.

Por outro lado, manter a terra em benefício da “cadeia de gerações humanas” era uma ideia postulada por Marx a partir de Proudhon [FOSTER, 2005: 230]
Para Marx, nos estudos para elaborar O capital – quando leu Liebig – a nova química agrícola deste lhe aparece como mais importante que a economia política para compreender a agricultura, isto é, as condições da agricultura. É nessa linha de pensamento que ele destaca o roubo do solo. São insights que constam do volume 3 de O capital [ A gênese da renda fundiária capitalista, onde ele denuncia a “exaustão do solo”] e no volume 1 [no A indústria e a agricultura em larga escala, onde ele destaca que “todo progresso na agricultura capitalista é um progresso da arte de roubar, não só do trabalhador, mas do solo”].

Nesses marcos é que Andrioli [2007] recupera, de Marx de O capital, seu alerta para o problema agrícola e ecológico da redução da fertilidade dos solos com base no exemplo da utilização intensiva de adubação química:

Cada progresso da agricultura capitalista não é somente um progresso na arte de expropriar o trabalhador, mas, ao mesmo tempo, na arte de expropriar o solo; cada progresso em aumento da sua fertilidade por um determinado tempo é, ao mesmo tempo, um progresso na ruína da fonte da sua fertilidade a longo prazo. (…) A redução da produtividade do solo em função de sucessivos investimentos de capital pode ser comprovada com base em Liebig.

Marx fala (também nos Grundisse) que a agricultura no capitalismo não era mais “auto-sustentável” [FOSTER, 2005: 221]. Também é relativamente conhecida sua homenagem a Liebig, por ter “desenvolvido, do ponto de vista da ciência natural, o lado negativo, isto é, destrutivo, da agricultura moderna” [FOSTER, 2005: 218]. Lembrando que, naquele momento, em Londres, alguns problemas ambientais já começavam a ser pautados, como poluição das cidades, desflorestamento, temores malthusianos de superpopulação, preocupação com esgotamento da fertilidade do solo [que irá impulsionar a revolução agrícola] etc.

A dialética de Marx já desponta, portanto, naquele seu prognóstico ou programa “agroecológico” [evidentemente usando um termo atual], que poderia ser sintetizado nos seguintes termos: a agricultura, agora mais moderna, é capaz de resolver a fome – contra a opinião do malthusianismo -, mas desde que seja planificada pelos produtores associados, na condição de uma produção que rompa com o comando do capital, o qual, necessariamente, degrada e devasta a terra; rouba seus nutrientes sem devolvê-los. O cereal exportado leva o solo consigo.

Nessa mesma linha é que Marx formula aquele já citado o argumento no volume I de O capital, de que a Inglaterra roubou o solo da Irlanda [FOSTER, 2005: 230].
Ou reiterando: uma agricultura racional e humana requer a superação das relações de dominação capitalista, de maneira que a produção agrícola e o desenvolvimento das forças produtivas estejam submetidos – no argumento de Marx em O capital, citado por Andrioli (2008, p. 20) – ao controle dos trabalhadores (pequenos agricultores autônomos e/ou produtores livremente associados):

“A moral da história é a de que (...) o sistema capitalista contraria uma agricultura racional ou que a agricultura racional é incompatível com o sistema capitalista (mesmo que esse estimule seu desenvolvimento técnico); não há saída por fora do produtor livremente associado”.

Como pioneiro da química orgânica e dos solos, Liebig preocupava-se em estudar as formas da agricultura devolver ao solo os nutrientes que ela arranca deles, Marx vai por essa mesma via, retoma essa perspectiva e se refere à separação capitalista entre o campo e a cidade como a ruptura radical do metabolismo com a natureza, elemento que hoje em dia, no debate ambiental se poderia destacar entre as causas da insustentabilidade do desenvolvimento no capitalismo.

Insustentabilidade também urbana por inchaço populacional, lixo urbano, poluição do ar, da água, ruído urbano, crescimento desordenado, congestionamento do tráfego etc.; insustentabilidade rural pela erosão, salinização, desertificação relativa, degradação da cobertura vegetal, compactação do solo, ou acúmulo de substâncias tóxicas [FOLADORI, 2001: 111]. Para não mencionarmos o grave problema da violência urbana. Hoje, a lista de determinantes de devastação ambiental é superior e impensável em relação aos tempos de Marx [veja-se, apenas para tomar um exemplo, a terrível e amplamente disseminada poluição por radiações ionizantes, cotidianamente utilizada, por exemplo, nos diagnósticos e tratamento médicos].

Por aquela lógica de Marx é que, em com toda a química, nem com todos os investimentos capitalistas, a agricultura no capitalismo seria autossustentável.
E a razão para isso é que o objetivo do capitalismo é o lucro e não a reciclagem do solo ou o bom uso da ciência dos solos.

O sistema capitalista e seus políticos não podem entender que a relação do trabalho humano com a terra torna-se disfuncional se existe a mediação compulsiva do lucro. O ciclo metabólico da biosfera não se fecha.

A única opção realista é sinalizada por Wallis [2009: 57]:

É claro que o lema do ‘realismo’ mudou de mãos. Os ‘moderados’, com sua incansável insistência em buscar uma saída ecológica com base em um sistema ine-rentemente empenhado em esmagar tudo que se coloca em seu caminho, perderam todo o senso de realidade.
A questão agora é se uma população que até hoje foi enganada estará preparada para exigir medidas radicais (claramente as únicas realistas em nosso contexto) ou se seus membros ficarão tão engessados pelo paradigma capitalista que as únicas saídas que poderão buscar - seguindo as regras fixadas por aqueles que nos colocaram nesta situação - será a regra do cada um por si.

Considerações finais

Portanto, nem o Marx do progresso a qualquer custo, ou linear, ilimitado, nem o Marx produtivista, nem tampouco cego às determinações do capital ofensivas à natureza. E, pela positiva, sim o Marx que aponta para a única gestão racional [“ecológica”, diríamos hoje] da Terra, dos recursos naturais: pelas mãos coletivas dos produtores associados.

Em seu tempo, Marx já criticara o “prometeísmo” mecanicista de Proudhon [sua crença na indústria em si mesma].

A ironia dos nossos dias, de parte de certa esquerda é que o mesmo Marx que foi crítico daquele “prometeísmo” é criticado por ser... “prometeísta”: o ambientalista socialista Ted Benton, e também Reiner Grundmann (Marxism and ecology) que adere ao modelo prometeico de dominação da natureza, assim como o liberal Victor Ferkiss, Anthony Giddens, o ecologista social John Clark, todos eles conseguem a façanha de enxergar Marx querendo “subjugar” a natureza, isto é, propondo uma relação destrutiva com a natureza; e até o trotskista Michael Lowy (For a critical marxism) vê um Marx otimista sobe o desenvolvimento ilimitado das forças produtivas. O ambientalista pós-modernista W. Sikorski vai mais longe - na mesma linha, em todo caso -, ao afirmar que Marx era um “devoto admirador da máquina” e que ele perdoava o capitalismo porque este aperfeiçoava as máquinas [FOSTER, 2005: 191].

Não nos parecem opiniões sustentáveis. E nem fieis ao conjunto do pensamento de Marx.

Observe-se que Marx não concebe a economia política como uma bolha que eventualmente “repousasse” sobre os processos materiais, ecológicos da natureza, mas sim como relações, isto é, interação, via de mão dupla entre os produtores e a natureza. Relações que podem esbarrar nos limites da realidade “extra-econômica”. Vejamos um exemplo, apenas um, a respeito: o consumo de todas as reservas de petróleo conhecidas, por exemplo, transformaria a vida na Terra literalmente em um inferno, alterando o clima etc, portanto evidenciando, catastroficamente, que não é possível separar a economia política capitalista [destrutiva dos recursos naturais, das condições materiais] da vida em si e também dos processos da atmosfera, dos rios e mares.

O marxismo denuncia o fato, seminal, de que a terra passou, com o capitalismo, a ser o “corpo inorgânico” não dos homens, dos seres vivos, mas do senhor das terras, da indústria capitalista, que usa as terras, a natureza para explorar a maior parte da humanidade! E, por essa via, solapar as condições da vida humana.
A ação nefasta da civilização capitalista sobre a biosfera [daí deriva a discussão sobre o chamado Antropoceno] perturba e afeta gravemente equilíbrios naturais que são base da vida. E se trata de uma degradação que vem se dando aos saltos [o que inclui, por exemplo, os incontáveis testes nucleares dos Estados Unidos, França, Inglaterra e várias outras potências, sobre os ares, as águas e o subsolo].

Em uma palavra: a ilimitada acumulação do capital põe em risco a vida sobre a Terra.

As tendências atuais da realidade [o desastre climático e a poluição maciça em marcha] e aquelas reflexões de Marx se conectam perfeitamente, para evidenciar, de uma vez por todas, que a mais reacionária das utopias é imaginar que vamos poder sobreviver coexistindo com capital, mercado e exploração capitalista.

Bibliografia:
ANDRIOLI, Antonio Inácio, 2007. A atualidade de Marx para o debate ambiental. Texto apresentado ao V Colóquio Marx e Engels, UniCamp, 2007. Disponível em: http://www.unicamp.br/cemarx/anais_v_coloquio_arquivos/arquivos/comunicacoes/gt2/sessao3/An-tonio_Andrioli.pdf, p. 20.
ANDRIOLI, Antonio Inácio, 2008. A atualidade de Marx para o debate sobre tecnologia e meio ambiente. Crítica Marxista n.27, Unesp, 2008, p. 20.
ANDRIOLI, Antonio Inácio, 2008. A atualidade de Marx para o debate sobre tecnologia e meio ambiente. Crítica Marxista n.27, Unesp, 2008, p.11-25.3
ENGELS, Friedrich, 2012. O papel do trabalho na evolução do homem [compilação]. Brasília: Kiron.
ENGELS, Friedrich, 2008. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo.
FOLADORI, Guillermo, 2001. O metabolismo com a natureza. Crítica Marxista n.12, maio 2001, São Paulo, p. 105-117, p. 111.
FOSTER, Bellamy, 2005. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p. 238.
WALLIS, Victor, 2009. As respostas capitalista e socialista à crise ecológica. Crítica Marxista, n.29, 2009, Unesp, p. 57-74.




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