Teoria

TEORIA

Marx e a relação entre a sociedade e a natureza

Gilson Dantas

Brasília

sábado 13 de junho de 2015| Edição do dia

A sociedade do capital é entendida por Marx com o mundo da “prostituição universal do trabalhador” e da “poluição universal” das grandes cidades em que a “matéria morta” sob a forma do dinheiro veio a “dominar necessidades e o autodesenvolvimento do homem” (Foladori).

“A visão de natureza que se desenvolveu sob o regime da propriedade privada e do dinheiro”, escreveu Marx em 1843 em A Questão judaica, “é de verdadeiro desprezo pela degradação prática da natureza...” Nesta linha, o jovem Marx reivindica Thomas Müntzer quando este declara ser intolerável que “todas as criaturas tenham sido transformadas em propriedade, os peixes na água, as aves no céu, as plantas na Terra”.

O comunismo para Marx nada mais era – desde seus textos iniciais – que a abolição positiva da propriedade privada, mediante a associação entre os homens. Ele argumenta que esse comunismo positivo “como naturalismo plenamente desenvolvido é igual a humanismo e como humanismo plenamente desenvolvido é igual a naturalismo; é a resolução genuína do conflito entre homem e natureza, e entre homem e homem, a verdadeira resolução do conflito entre existência e ser, entre liberdade necessidade, entre indivíduo e espécie”.

Neste argumento de Marx, dos seus Manuscritos econômico-filosóficos, fica demarcado que a essência humana da natureza e essência natural da humanidade apenas existem para uma sociedade de produtores associados, cujas relações sejam, portanto, integralmente sociais. Sem exploração do homem pelo homem.
Engels por sua vez, plenamente coincidente com Marx, desenvolve argumentos sobre a incontornável unidade entre a sociedade e a natureza, a necessidade do adequado equilíbrio e sustentabilidade nessa relação; tais argumentos são atuais e a rigor ecológicos, (sob a perspectiva anticapitalista) como se pode constatar nessa conhecida citação, onde ele começa falando da diferença entre a espécie humana e os animais em sua relação com a natureza, onde os humanos modificam a natureza e tratam de colocá-la a seu serviço; mas alerta:

“Não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em face de nossas vitórias sobre a natureza. Após cada uma dessas vitórias a natureza adota sua vingança. É verdade que as primeiras consequências dessas vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem consequências muito diversas, totalmente imprevistas e que, com frequência, anulam as primeiras. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para obter terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da atual aridez dessas terras. (...). Assim, a cada passo, os fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.
(...) Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados neste século pelas ciências naturais, estamos em condições de prever e, portanto, de controlar cada vez melhor as remotas consequências naturais de nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza”.

Mas o pressuposto é o de que enquanto não prevalecer a cooperação entre os homens não há chance de harmonização da relação sociedade-natureza. É a ecologia que só pode ser política. No argumento de Caudwell:

“Um homem não controla a natureza por conhecer as leis necessárias para fabricar guarda-chuvas, nem porque consiga ficar livre do domínio da física, uma vez que a natureza não obedece ao homem individual e sim aos homens organizados em sociedade, e ela não cumpre nenhuma vontade particular mas sim o resultado histórico de todas as vontades em ação. Por isso, os homens, além das necessidades da ‘natureza’, devem conhecer as necessidades da cooperação e o resultado histórico das ações socialmente empreendidas. Este conhecimento forma parte da cooperação da ação social, pois é sabido que são necessárias tais e tais ações para se alcançar determinado fim. Daí que semelhante conhecimento implique no abandono da economia burguesa e sua substituição pela eco¬nomia comunista”.

A classe que produz a riqueza, para Marx, é aquela que pode tomar essa questão nas mãos e, controlando a produção, resolvê-la em sua escala mais profunda através de um processo prático que passa pela desalienação do homem de si próprio através da luta de classes com o programa de emancipação da classe trabalhadora.
Desalienar tem o sentido, portanto, também, de re¬compor a relação dos homens com a natureza. Como argumenta Rees, “a noção de relação entre os homens e a natureza desenvolvida por Marx e Engels nem reduz os seres humanos ao nível dos animais – como fazem vários teóricos na linha do ‘macaco nu’ atualmente – e tampouco pretende que os seres humanos e a consciência humana sejam totalmente separados do mundo natural”.

Não há conciliação histórica possível entre uma produção voltada para o lucro – cuja dinâmica inexorável é a da acumulação do capital – e qualquer coisa parecida com utilização racional e ambientalmente correta dos recursos naturais. Para Marx a agricultura capitalista não é apenas a arte de depredar o trabalhador como também o solo. Uma coisa leva necessariamente à outra: a alienação na relação entre os homens é seguida da alienação da relação sociedade-natureza. A alienação da relação dos homens com a natureza pressupõe uma alienação na relação entre os homens, que nasce na esfera das relações de produção, começa no chão de fábrica, de empresa.

Deste pensamento revolucionário e ambiental mais amplo, por exemplo, se desprende a noção de que degradação e gigantismo urbano só serão devidamente enfrentados com a liquidação do capitalismo, nas palavras de Cantor:

“De que outra forma, por exemplo, poderia ser entendida uma afirmação tão flagrante como a de Engels de que na sociedade socialista seria imprescindível reduzir ao má-ximo o gigantismo das cidades? (...) hoje [essa proposta] vem sendo assumida como uma grande novidade por alguns ecologistas e críticos sociais, sem que mencionem para nada a Engels, como se este não tivesse dito que a “civilização nos legou, com as grandes cidades, uma herança que custará muito tempo e trabalho eliminar, mas as grandes cidades têm que ser eliminadas, e o serão, ainda que se trate de um processo lento”.

Essas são preocupações fundantes do marxismo clássico, em antecipação ao atual debate ecológico. E em clara defesa do novo sujeito, o poder dos trabalhadores, como a chave histórica do problema ambiental.

Referências - CAUDWELL, Christopher, 2008. La agonía de la cultura burguesa. Buenos Aires: Ediciones Razón y Revolucion. ENGELS no Anti-Dühring Grijalbo, México, 1983, citado por Renan V CANTOR, 1999, El caos planetário: ensayos marxistas sobre la miseria de la mundialização capitalista. Buenos Aires: Antídoto. REES, John, 1998. The algebra of revolution: the dialectic and the classical marxist tradition. London: Routledge. FOLADORI, Guillermo, 1997. A questão ambiental em Marx. Crítica Marxista, v.1, n.4, maio 1997, São Paulo. O texto acima é excerto do livro Natureza atormentada – marxismo e classe trabalhadora, G Dantas, C Cultural, Brasília, 2011.




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