Teoria

ECOLOGIA E MARXISMO

Marx: a relação do capitalismo com a natureza é insustentável

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 22 de fevereiro| Edição do dia

Que ideias de Marx sobre a devastação da natureza pelo capitalismo possuem profundas implicações para hoje? [Leia aqui a PRIMEIRA de uma série de cinco notas sobre ecologia e marxismo]

A sociedade capitalista estabelece um vínculo com o seu entorno natural que resulta ser hostil e contrário à continuidade e à reprodução sustentada daquela relação seres humanos-natureza. Esta é uma ideia de Marx que J Bellamy Foster irá qualificar como falha metabólica.

Marx utiliza o conceito de metabolismo (stoffwechsel, que pode também ser traduzido como “intercâmbio ma­terial”) pela primeira vez, em O capital, no capítulo 1; ali tem o significado de intercâmbio entre os homens e a natureza para a produção de valores de uso; no capítulo 3 volta com “in­tercâmbio material da sociedade” (“gesellschaftliches Sto­ffwechsel”) para reiterá-lo no capítulo 5 com o mesmo sig­nificado (intercâmbio homens-natureza). Ainda no livro I de O capital, ele retoma a ideia do intercâmbio material e da inexorável relação homens/na­tureza ou condição natural da vida humana, tomando aos homens como inseparáveis da natureza:

“O proces­so de trabalho, tal como o apresentamos em seus movi­mentos simples e abstratos, é atividade orientada para a produção de valores de uso, apropriação do natural para os carecimentos humanos, condição geral do intercâmbio material entre homem e natureza, eterna condição natu­ral da vida humana e portanto independente de todas as suas formas sociais”.

O conceito em si (falha metabólica), aparentemente, não está em Marx. Ou, pelo menos, Foster não chega a mencio­nar em que texto Marx o teria formulado. Mas faz sentido. Marx, formula o conceito de metabolismo (stoffwechsel), que já circu­lava nas ciências naturais em seu tempo, na verdade, apro­fundando seu uso; neste caso, para mostrar o desencontro ou o conflito que o capitalismo vem aprofundando e tende a levar ao paroxismo na relação sociedade-natureza.

A ideia que o conceito procura refletir é a de que en­tre a sociedade e a natureza se estabelece uma interação ou troca metabólica, um tipo de relação que, sobretudo nos marcos do modo de produção capitalista, é antiecológico e mais diretamente é contra a classe trabalhadora; em ou­tras palavras, um modo de produção que, sobretudo pela via da agricultura em larga escala, degrada o solo, rouba nutrientes sem repô-los naturalmente e, que, com o processo de acumulação do capital e suas crises, vai se estabelecendo e agravando a cada dia, um hiato ou uma contradição antagônica na relação homens-natureza.

A sensibilidade de Marx ao desequilíbrio/devastação produzido na relação entre a produção capitalista e a na­tureza, assim como seu foco no metabolismo homens/na­tureza pode ser bem ilustrado por seu argumento no livro I de O capital:

“Com a continuamente crescente sobrecarga da po­pulação urbana, que se amontoa nos grandes centros, a produção capitalista concentra, por um lado, a força his­tórica de mudança da sociedade; mas por outro lado, ela prejudica o intercâmbio material entre homem e terra, isto é, o retorno ao solo das partes do mesmo utilizadas pelo homem na forma de meios de alimentação e vestuário, portanto, a permanente condição natural da fertilidade perma­nente do solo”.

É como se o ciclo de trocas metabólicas – aqui em seu sentido ambiental, de sociedade-natureza e natureza-sociedade – ao ser dominado pela acumulação do capital funcionasse como uma pilhagem, um saque, um roubo que, ao final, resulta em um profundo desequilíbrio (ou falha metabólica irreparável nos termos de Foster) ou defor­mação na relação sociedade natureza.

A qualidade da vida humana sai perdendo em todos os sentidos, com os ares, o solo, as águas e os alimentos dire­tamente envenenados, empobrecidos e funcionando muitas vezes como anti-nutrientes ou anti-alimentos. Rompe-se o metabolismo no sentido biológico humano, nossa fisiologia adultera-se (daí a moderna epidemia de doenças crônicas etc), rompe-se o metabolismo no sentido daquela interação metabólica sociedade-natureza (daí uma agricultura clara­mente destrutiva da natureza, agricultura do saque ininter­rupto de nutrientes do solo sem trazê-los de volta natural­mente e também agricultura dos venenos).

Os mares, as águas doces, a biosfera vão sendo des­truídos dramaticamente e, mais recentemente, na era in­dustrial e nuclear moderna, aos saltos. Certamente o processo de fundo vem a ser o de que a produção – ou a relação dos homens com a natureza através do trabalho – tem como objetivo, nesta sociedade, a acumulação de capital, de mercadorias. A “interação” (melhor: metabolismo) dos homens com a natureza se es­tabelece forjada por aquele objetivo. A produção será um meio para valorizar o capital.

A natureza e o trabalhador serão secundários, só serão levados em conta na mesma medida em que sejam funcionais ao processo de valorização do capital

Portanto, com o conceito de metabolismo, que im­plica trocas materiais, controle das trocas, Marx “expres­sa a relação humana com a natureza como uma relação que abrange tanto as ´condições impostas pela natureza´ quanto a capacidade dos seres humanos de afetar este pro­cesso” (FOSTER, 223).

O objetivo da produção, diferentemente de antes, não será o de satisfazer necessidades (mesmo que sejam as da classe dominante, sua suntuosidade, seu poder, seu excedente etc), mas a produção – essencialmente – de va­lores de troca.

A partir dessa ideia conflituosa entre o metabolismo sociedade e natureza, que conduzirá à separação anta­gônica e destrutiva campo-cidade, o Marx mais maduro – e já trabalhando na redação de O capital – irá proceder a uma crítica à agricultura no capitalismo por sua condição de atividade que, apesar de mais e mais produtiva, tende a tornar-se insustentável ambientalmente, pela degradação dos solos que os interesses do capital levam a cabo neces­sariamente.

Esse será o Marx dos Grundisse e de O capital. Seus pressupostos analíticos, de toda forma, estavam da­dos no Manifesto Comunista e em textos filosóficos anterio­res, onde ele questiona a alienação dos homens em relação à natureza, inseparável da alienação dos homens entre si.

Engels no Anti-Dühring argumenta que os dejetos das cidades deveriam ser reutilizados na produção agrí­cola ao invés de funcionarem como fonte ou incubadores de doenças.

Marx, por sua vez, denunciou mais de uma vez a gê­nese da agricultura capitalista como algo que rompe a re­lação orgânica do trabalhador com a terra

Aquela sensibilidade de Marx como também de En­gels à devastação da natureza pelo capitalismo encontra-se em várias outras passagens de O capital e dos Grundisse, assim como no interessante argumento de A ideologia alemã, onde, ao criticar o conceito imutável de es­sência de Feuerbach, os autores do Manifesto mostram uma consciência que hoje seria chamada de “ambientalista”:

“A ‘essência’ do peixe de água doce é a água de um rio. Mas ela cessa de ser sua essência, ela se torna um meio de existência não mais adequado a ele tão logo esse rio fica sujeito à indústria, tão logo ele se polui por tinturas e outros despejos, é navegado por barcos a vapor, tão logo é desviado em canais, nos quais se pode retirar ao peixe seu meio de existência por simples escoamento”.

Engels, particularmente, não foi menos explícito nes­te ponto. Ao tratar em A questão da habitação da necessida­de de transcender a divisão antagônica do trabalho entre cidade e campo, ele se referiu, acompanhando o químico Liebig, ao fato de que, “apenas em Londres, uma quan­tidade de esterco maior do que a produzida por todo o reinado da Saxônia é despejada todo dia no mar com um gasto fabuloso”.

Era pois necessário, afirmava ele, restabe­lecer uma “conexão íntima entre a produção industrial e a agrícola” juntamente com “uma distribuição o mais uni­forme possível da população por todo o país” (um argu­mento de Marx e Engels no Manifesto Comunista).

Na mesma linha, no vo­lume 3 do Capital, Marx insistiu categoricamente em que o “excremento produzido pelo metabolismo natural do ho­mem”, com os dejetos da produção e consumo industrial, precisavam ser devolvidos ao solo, como parte de um ciclo metabólico completo”.

A anotação de Foster a seguir é elucidativa a respeito: “Em vez de argumentar, como Alec Nove afirma, que os recursos naturais eram ‘inexauríveis’ e que a abundância ecológica estava simplesmente assegurada pelo desenvol­vimento das forças de produção capitalistas, Marx insis­tiu reiteradamente em que o capitalismo era afetado por um problema crônico de produção na agricultura, que em última instância podia ser atribuído à maneira insustentá­vel como se organizava a produção. A agricultura em ge­ral, argumentava Marx, quando avança espontaneamente e não é controlada conscientemente... deixa atrás de si deser­tos – Pérsia, Mesopotâmia etc., Grécia” (232).

É de Marx, no volume 3 de O capital, o argumento de que mesmo que o capitalismo promova o desenvolvimento técnico da agricultura, “uma agricultura racional é incom­patível com o sistema capitalista”; ou como arremata ele no mesmo argumento: “o sistema capitalista corre no sentido inverso ao de uma agricultura racional”.

O formato das re­lações de produção capitalistas, visando valor de troca está na raiz dessa impossibilidade; o capitalismo não produz tendo como objetivo a genuína riqueza, os valores de uso.

A relação capitalista com o solo é puramente mercan­til, predatória. Não está conectada com as gerações futuras.

O químico genial, estudado por Marx em seu tempo, conforme argumenta Foster, era taxativo a respeito de como a agricultura irracional esgota o solo:

“Liebig insistia – baseando-se numa análise da situação do Tâmisa – em que a reciclagem orgânica que devolveria ao solo os nutrientes contidos no esgoto era uma parte indispensável de um sistema urbano-agrícola racional. ‘Se fosse possível coletar, sem a mínima perda, todos os excrementos sólidos e líquidos dos habitantes das cidades’, escreveria ele, ‘e devolver a cada agricultor a parcela decorrente dos produtos originalmente fornecidos por ele à cidade, o estoque de elementos minerais existentes em todo campo fértil seria amplamente suficiente para as necessidades das populações crescentes” (FOSTER, 218).

Malthus culpava a superpopulação. No entanto, Marx, na era da segunda revolução agrícola (1830 e algumas décadas depois), opõe ao pessimismo de Mal­thus o otimismo industrial de Liebig: a agricultura pode, tecnicamente, alimentar a todos (não é a classe trabalha­dora quem está demais e sim a burguesia com a acumulação do capital). Mas seus estudos irão além: com o desenvolvimento da química dos solos e dos chamados fertilizantes Marx irá, explicitamente, enfatizar a degradação ecológica; ganha definição seu foco na insustentabilidade da agricultura capitalista (conforme está explícito nos Grundisse, no vo­lume 3 de O capital mas também no volume 1, em A in­dústria e a agricultura em larga escala).

Em nenhum dos momentos se pode acusar Marx de uma visão condescendente com o capitalismo e muito menos de que pudesse estar iludido por uma saída tecnológica para a crise social. A única saída – conforme já inscrita no Manifesto Comunista – é a da revolução proletária arrancando à for­ça o poder da burguesia. Jamais foi dele a crença (de fato proudhoniana etc) de que se pode ter, pela via da técnica ou de qualquer reforma social, uma situação de capita­lismo sem as mazelas intrínsecas ao capitalismo, dentre elas a da avalanche das toxinas ambientais e degradação brutal e universal da natureza.

A ‘interação’ (metabolismo) homens-natureza tinha, em Marx, o duplo sentido, econômico e também de rela­ção de troca material; dessa forma, temos em Marx um pensamento que é social e é ecológico ao mesmo tempo. Mais uma vez, Foster observa que:

“Na verdade, ‘um dos méritos imortais de Liebig’, obser­vou Marx no volume I do Capital, ‘é ter desenvolvido, do ponto de vista da ciência natural o lado negativo, isto é, destrutivo, da agricultura moderna’. Sob a influência de Liebig, que ele estudou atentamente – copiando exten­sos trechos da obra de Liebig nos seus cadernos de apon­tamentos científicos –, Marx desenvolveria uma crítica sistemática da ‘exploração’ (no sentido de roubo, isto é, incapacidade de manter os meios de reprodução) capita­lista do solo. Daí as duas principais discussões de Marx sobre agricultura capitalista se encerrarem com explica­ções de como a indústria de larga escala e a agricultura de larga escala se conjugaram para empobrecer o solo e o trabalhador” (218).

Na obra final de Marx, também nos seus Cadernos et­nográficos (base para Engels em sua A origem da família, de 1884) está manifesta sua visão de como a sociedade capi­talista constrói e desconstrói sua própria ´casa´, de como produzir a vida – nesta sociedade capitalista – pode ame­açar a reprodução de sua comunidade ou; como formula Foster, está ali bem claro o viés etno-ecológico marxista (2005, 304).

A falha metabólica é engendrada na relação entre os seres humanos e o solo e foi amplamente construída pela sociedade capitalista. E entender as coisas dessa forma, como argumenta Foster (229) é “afirmar que as condições de sustentabilida­de impostas pela natureza haviam sido violadas”. E são violadas, cumulativamente, todos os dias.

O foco de Marx é o de que os homens, os produ­tores precisam se associar e comandar, coletivamente, a relação com a natureza, a agricultura e a indústria; este é o pensamento e também a estratégia ambientalmen­te mais consequente e mais radical; a emancipação dos trabalhadores para uma relação não mercantil, não pre­datória com a natureza. Trata-se de derrubar as relações de exploração do trabalho e, ao mesmo tempo, regular, racionalmente, ecologicamente, a relação metabólica dos seres humanos com a natureza. Uma coisa faz sentido com a outra, jamais sem ela.

G Dantas
Brasília 2012/2017

Referência – A ecologia em Marx, 2005, RJ, Civilização Brasileira.Automatic

[Nosso agradecimento enfático às observações feitas a esta nota por parte dos companheiros (as) Rosana Vieira, Murilo Leal, Juliana e Alexandrina Luz] [Este texto constitui um trecho do livro Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora, G Dantas, Brasília, 2012].




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