Teoria

MARX E EPICURO

Marx, Epicuro e a concepção de natureza e dialética [Parte I]

Gilson Dantas

Brasília

sábado 20 de junho de 2015| Edição do dia

Sabemos que o jovem Marx, em 1841, na intenção de tornar-se professor, desenvolveu uma pesquisa e tese de doutorado na qual escolheu como tema a filosofia da natureza em dois filósofos gregos, Demócrito e Epicuro. Marx irá mostrar, na sua tese, a diferença entre os dois, com destaque para a importância de Epicuro, o “iluminista radical da Antiguidade”, como dizem Marx e Engels, em A ideologia alemã.

O estudo de Epicuro, na elaboração da sua tese universitária, permitiu que Marx, segundo Foster (31) “focasse, a um só tempo: as primeiras teorias materialistas; as suas concepções de liberdade humana; as fontes do Iluminismo; o problema da filosofia da natureza hegeliana; a crítica da religião; e o desenvolvimento da ciência”. Com Epicuro, Marx aponta para o estudo da natureza sem partir de princípios extra-natureza, teleológicos.

Marx irá argumentar naquela tese que o maior “pecado” da religião é despir o homem de toda autodeterminação. E por criticar dessa forma a religião é que Epicuro atraiu o ódio dos fundadores do cristianismo e o elogio de Lucrécio; este, diz Marx na A ideologia alemã, elogiou Epicuro como o herói que foi o primeiro a derrubar os deuses e a criticar a religião; por este motivo, recebeu o ódio de todos os pais da Igreja, incluindo Lutero e, por isso mesmo, argumentam Marx e Engels “Epicuro sempre teve a reputação de ser o filósofo ateu por excelência, e sempre foi xingado de animal”. Na sua tese Marx argumenta que a ideia de que há poderes divinos regendo o mundo “sempre esteve associada com a ideia de terror... Nada mais perigoso que convencer o homem que há um ser superior à natureza, um ser diante de quem a razão deve silenciar e a quem o homem precisa sacrificar tudo para ganhar a felicida-de” (Foster,86). De quebra Marx critica Plutarco, que entendia o medo da morte como essencial para assegurar a fé em Deus.

Marx abraça, também em sua tese, o desafio de demonstrar que não era uma fraqueza ou uma anomalia em Epicuro aquilo pelo qual ele era criticado por Bacon: de ser um materialista cujo pensamento estaria submetido à moral, às incertezas morais. Pelo contrário: Epicuro era, por isso mesmo, um materialista especial, que se recusava a ser mecanicista em sua concepção de mundo e natureza.

Marx demonstra, na sua tese, que a concepção de natureza (ou concepção atomística) de Epicuro comportava um tipo de materialismo que não apenas exigia que a natureza fosse explicada pelas suas próprias leis (sem os deuses), e nisso coincidia com Demócrito e outros materialistas, mas ia além, propondo que a natureza não poderia ser integralmente explicada apenas pela necessidade, isto é, pelo império rígido das leis naturais, mas que era preciso incluir também o acaso, a contingência. Acaso e necessidade integram os processos na natureza. Esta concepção aparece clara na atomística (concepção da natureza) de Epicuro e esta era sua “anomalia”.

Epicuro propunha, coincidindo com Demócrito, com os atomistas gregos, que para além das aparências e das formas, todas as coisas e seres são compostos de unidades menores de matéria, os átomos como ele dizia, que são indivisíveis, e que no espaço vazio tendem a cair; mas Epicuro divergindo de todos aqueles pensadores, dirá que os átomos, por conta do seu peso, além do movimento em linha reta possuíam a capacidade de uma pequena inclinação lateral, oblíqua, que era a explicação para as colisões entre eles; ele queria dizer que sem esse movimento oblíquo ou auto-movimento eventual dos átomos, não se poderia explicar a natureza .

Logo, o diferencial de Epicuro, detectado pioneiramente por Marx – e confirmado pelos demais escritos de Epicuro descobertos apenas no século XX – será o de que ali onde ope-ram as leis, a necessidade, é também crucial enxergar necessidade e acaso.

Nas palavras de A. H. Armstrong, citadas por Foster (81): “Nós vemos que o que Epicuro fez, e parece que com originalidade, foi rachar a concepção natural de Acaso-Necessidade de tal forma que, embora permanecendo estritamente dentro das fronteiras do seu sistema e sem envolver nenhum princípio de explicação que seja imaterial ou dotado de razão [isto é, teleológico], ele se mune de uma moldura ou fundo de regularidade e ordem enquanto deixa espaço para um princípio caprichoso, errático no mundo...”

Aqui convém lembrar que os filósofos idealistas pregavam que a natureza obedece a propósitos, a uma causa última, a desígnios, à providência divina. Aristóteles, Platão e tantos outros pensam assim. E o aristotelismo, por sua vez, será cristianizado e adotado como elemento básico da filosofia de mundo pela Igreja durante todos os séculos que separam Epicuro do Iluminismo burguês. Epicuro, com seu materialismo especial, ia além, entendia o aleatório.

Nos métodos e nas pesquisas de Darwin, em outro nível e obviamente outra época, Darwin demonstra que mudanças aleatórias estão sempre ocorrendo em todas as formas de vida e que a evolução das espécies passa por elas; e que a evolução só pode ser explicada racionalmente se forem consideradas tais mudanças que, ocorrendo ao acaso podem tornar uma espécie mais adaptável a determinado ambiente.

O passo decisivo dado por Marx, por sua vez, veio a ser o de entender o materialismo como dialético. Essa maneira de pensar, por exemplo, a natureza, permite uma ciência da natureza mais profunda. E em segundo lugar, quando se pensa a natureza como meio ambiente do qual o homem é parte ativa, fica clara a superioridade do foco epicurista tal como destacado por Marx. Observe-se aqui que temos um Marx que assimilando a dialética hegeliana, se debruça sobre o materialista Epicuro para valorizar sua filosofia da natureza por conta do seu viés não determinista.

Portanto um Marx que, contrariando todo o materialismo moderno (mecanicista e determinista), não apenas se coloca contra qualquer forma de teologia, como, neste mesmo movimento, se afirma contra o determinismo e dogmatismo na abordagem da natureza e da história humana. (Maus comentadores de Marx vão acusá-lo justamente do contrário: de ser materialista determinista etc).

No funcionamento da natureza inanimada (e também dos seres vivos) temos o acaso sim, embora, certamente, não alheio à necessidade. No funcionamento da sociedade, por outro lado, temos alguma coisa que vai além dessa ideia de acaso. E que é qualitativamente diferente do que se dá na natureza. Ou seja, temos a liberdade (vontade, propósito) individual e/ou coletiva como agente de mudança. Engels esclarece este ponto:“Os homens fazem eles mesmos sua história, mas até hoje não por meio de uma vontade coletiva e nem em obedi-ência a um plano coletivo (...) As aspirações dos homens se entrecruzam; por isso em todas essas sociedades impera a necessidade, cujo complemento e forma de manifestar-se é a casualidade. A necessidade que aqui se impõe através da casualidade é também, em última instância, a econômica”

Portanto, não há como entender a sociedade humana sem a subjetividade. Através desta integra-se a autoatividade dos homens na explicação da sociedade e do próprio entorno e contexto da natureza (quando a existência da civilização passa a incidir sobre esta). Sempre nos marcos das classes sociais, se a sociedade é de classe. Ou, dito de outra forma: não há deuses e nem propósito último regendo a conduta dos homens: o que existe são as leis da natureza, da vida da sociedade em sua dinâmica dialética e histórica. E no mesmo processo, a subjetividade ou atividade consciente dos homens, classes, como agente de mudança em perspectiva de classe; e a classe trabalhadora como agente que pode se tornar consciente e então, revolucionariamente, mudar a história, sair da pré-história, fazer sua história consciente e, por extensão, a história humana.

Ou seja, nas ações dos homens, inclusive, é claro, na ciência, não há muralha intransponível entre sujeito e objeto. Na natureza inanimada, em Epicuro, os átomos possuem seu momento de auto-atividade – o desvio da linha reta, que ele chamava de clinamen.

Seguindo Epicuro – ao se examinar a natureza, suas transformações há que incluir, na análise, o propósito dos homens; aqui ele “mistura” moral e ciência, para desespero, por exemplo, do materialista mecanicista Bacon.

O princípio da incerteza de Heisenberg, da física moderna – desde que seja lembrado que ele trata do nível infra-atômico – pode ser uma analogia útil a respeito da guinada dos “átomos” de Epicuro; aquele princípio contempla a incerteza básica da localização de um elétron em determinado momento; ou seja, o comportamento das partículas subatômicas não é inteiramente previsível. Foster (366) chega a destacar esta analogia. No entanto, ela só pode ser útil desde que sejam lembrados seus limites, dentre eles o de que a imprevisibilidade de um elétron não nega as leis gerais do funcionamento dos elétrons, ou as leis tendenciais que regem o mundo subatômico. Epicuro abre a perspectiva e mediação por onde entra a autoconsciência, a vontade humana como parte criadora da vida social e da relação homem-natureza; ele entende que os homens buscam conhecer a natureza para propósitos humanos, para serem felizes. Jamais de forma neutra (sem intenções) e muito menos de fora (sujeito separado do objeto).

Observe-se a ausência de determinismo – no sentido mecanicista – nessa visão que é, por sua vez, antiteológica e antipositivista além de claramente humanista (sujeito e objeto assim postos: o homem quer conhecer a natureza para propósitos humanos).

Em resumo, Marx resgata este elemento não apenas valorizando um Epicuro materialista (como fizeram os iluministas, incluindo Bacon): caso contrário bastaria – na sua reflexão de doutorado, por exemplo – ficar com Demócrito (no qual as leis de ferro da necessidade excluem o acaso). Marx na verdade destacou um materialismo diferente do materialismo iluminista: embora focando a vida e a natureza em sua materialidade, estava contemplado agora o espaço para a liberdade, para o acaso, para a autoconsciência. E, como depois ele mesmo desenvolverá tratando da história: para a revolução socialista, obra irrealizável sem a subjetividade consciente, política, da classe trabalhadora e suas direções.

[fim da Parte I]

G Dantas
Referências:
A ecologia de Marx, J Bellamy Foster, 2005.
Carta de Engels a W.Borgius, em 25/1/1894.
Diferença da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro, Marx, Lisboa, 1972.
O tema deste artigo consta do livro Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora, que pode ser conseguido com Lúcia [centelhaculturallivros@gmail.com].




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