Cultura

POESIA

Marcado de vermelho código de barras e lutas sem fronteiras

Reproduzimos aqui o poema de Débora Torres

quinta-feira 9 de maio| Edição do dia

Sacolas de mercado no braço, depois das moedas contadas. O braço fica marcado de vermelho. Depois é farmácia, porque não é toda hora que tem remédio no posto. Eu tenho reparado o quanto esse governo tem imposto sobre a gente que é mãe trabalhadora uma carga enorme enquanto nossa energia nunca, nunca se recarrega.

Camisa de uniforme da escola, branquinha, esfregada no tanque com o restinho de sabão de côco que ainda tinha pra raspar com a unha. Agora está manchada com o sangue do filho, que indo pra escola, foi metralhado. E depois, o moleque olhou fundo no meu olho e disse: Eles não viram que eu tava de uniforme ?

Eu?

Eu sou Cláudia. Sou Marielle.

Sou cravejada.

Oitenta vezes e mais.

Pelo

Capitalismo.

Eu sou aquela que morreu na mesa do aborto clandestino.

E a que foi espancada e estuprada e sangrou, vermelho no meio fio da cidade limpa.

Eu?

Sou nós, centanas de milhares que cerram punhos.

Que dizem não.

Sou América Latina, sou trabalhadora precarizada. E nunca me calo diante da opressão.

Eu sou resistência e ainda mais.

Sou

Revolução.

Poema: Deh Torres
Imagem: Allan Costa




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