Opinião

RESPEITO COM BOLSONARO?

Manuela D’Ávila afirma em entrevista que buscará "diálogo respeitoso" com Bolsonaro se for prefeita

Em entrevista à CNN, no último dia 13, Manuela D'Ávila, candidata à prefeitura de Porto Alegre pelo PCdoB em coligação com o PT, afirma que “pretende manter o diálogo respeitoso” com o governo Bolsonaro, caso seja eleita. Estamos com todas as mulheres e trabalhadores que querem derrotar a direita e a extrema direita e repudiamos os ataques que Manuela D'Ávila vem sofrendo do bolsonarismo. Entretanto, não será “dialogando” ou se coligando com eles que vamos avançar nesse sentido.

sexta-feira 16 de outubro| Edição do dia

Foto: Edilson Dantas/Agência O Globo

A entrevista completa pode ser vista neste link e a questão surge no minuto 5:53. O discurso de Manuela serve como um recado ao establishment e à elite. Essa declaração assume que sua eventual gestão em Porto Alegre não vai se enfrentar com Bolsonaro e os outros poderes e vai governar de acordo com as regras do jogo capitalista. Trata-se de uma lógica que vai na contramão do embate necessário com Bolsonaro e seus aliados, bem como uma senha para a conciliação com o que há de mais podre no cenário político nacional e regional.

Como nós do Esquerda Diário viemos, insistentemente, denunciando, a maioria dos candidatos em Porto Alegre são inimigos declarados da classe trabalhadora, das mulheres, do povo negro e da juventude. Eles representam os interesses dos grandes empresários da cidade. Marchezan, Fortunatti, Melo, Nagelstein e tantos outros querem fazer com que sigamos pagando pela crise. Não vamos avançar no sentido de derrotar a direita e a extrema direita “dialogando” ou fazendo coligações eleitorais com esses setores. Por isso abrimos esse debate sobre a candidatura de Manuela D’Ávila, que aparece como uma alternativa a amplos setores, mas, na verdade, tem como objetivo administrar o regime do golpe institucional em Porto Alegre e, por isso, diz que tratará respeitosamente o governo nefasto de Bolsonaro, inimigo número 1 das mulheres do país.

Desde 2018 viemos denunciando os perigos de uma extrema direita fortalecida, com militares galgando cada vez mais espaço no poder, atuando junto a um poder judiciário cada vez mais autoritário. Com essa força, sem nenhum “diálogo” ou “respeito”, o governo, o Congresso e os militares conseguiram aplicar alguns dos maiores ataques à classe trabalhadora e ao país das últimas décadas. As reformas, o teto de gastos (que veio antes, com Temer), as MPs da fome impostas em meio à pandemia, as queimadas na Amazônia e Pantanal, as privatizações, as intervenções em IF’s… a lista é grande, e são eles os responsáveis pelos mais de 152 mil mortos devido à pandemia. Sem contar o avanço do fundamentalismo religioso contra os corpos das mulheres, o aumento dos índices de feminicídio, a violência policial bárbara que tira vida de jovens negro. O fato é que não vamos frear esse maremoto de ataques, que Porto Alegre e todas as cidades sentem, buscando um “diálogo respeitoso” com Bolsonaro, como Manuela quer. 

O que Manuela diz sobre ter um “diálogo respeitoso” é uma senha para a mesma conciliação que é parte importante do que nos trouxe até aqui. As alianças com os capitalistas e a direita, promovidas pelos governos do PT, fortaleceram a direita em vários âmbitos da sociedade brasileira e pavimentaram o caminho do golpe institucional. Do fortalecimento do poder arbitrário do judiciário e do exército, com as GLO’s e intervenção no Haiti, da bancada evangélica ao latifúndio arcaico, das megaempresas de educação aos bancos, que lucram horrores em meio à crise capitalista – todos esses setores, se fortaleceram, foram aliados e foram tratados com respeito e diálogo pelos governos petistas. Depois, em 2016, foram eles que deram o golpe e, em 2018, garantiram a manipulação das eleições, resultando na vitória de Bolsonaro. Repetir esse caminho é inaceitável para todos os que se indignam com as barbaridades cometidas pelo governo federal. 

Manuela está concorrendo à prefeitura de Porto Alegre e a lógica é a mesma. A nível nacional, seu partido, PCdoB, vem se coligando com o PSL, DEM, PSD e PSDB em várias cidades. O PT faz o mesmo. Ao invés de combater a direita, eles participam do vale-tudo eleitoral com ela. Além disso, recentemente o PCdoB votou em bloco pelo perdão bilionário às igrejas. Mais do que isso, nos lugares em que governa, o PCdoB aprova ataques aos trabalhadores e outras barbaridades, como vimos com o governo de Flávio Dino entregando a base de Alcântara para os EUA no Maranhão, uma nítida demonstração de submissão ao imperialismo ianque. 

Não obstante, a conciliação de agora é situada em um momento distinto em relação ao dos governos do PT, pois o regime político já não é o mesmo que aquele instaurado com a constituinte em 1988. Trata-se de um regime político profundamente marcado pelo golpe institucional, no qual não apenas mudanças constitucionais atacam direitos históricos, a exemplo da reforma da previdência e a trabalhista (e também a administrativa em curso, junto das privatizações de grandes estatais, como os Correios e as vendas da Petrobrás), como novos atores se fortalecem em um quadro geral mais à direita e mais autoritário, do qual são parte o poder judiciário, os militares, o Congresso Nacional ultrarreacionário, etc. É nesse Brasil de 2020 que Manuela D’Ávila se propõe a governar com “diálogo e respeito”. Uma situação reacionária que, conjugada à enorme crise econômica, impõe pouca margem de manobra para concessões e constitui qualquer aspiração eventualmente progressista da candidatura de Manuela como uma verdadeira utopia. 

Como a candidata do MRT a vereadora em Porto Alegre, Valéria Muller, afirmou, “Não existe diálogo respeitoso com quem homenageia torturadores como Ustra, com quem é responsável pela queima de mais de 1/4 do Pantanal e territórios imensos na Amazônia. Não há respeito com quem diz com orgulho que existem mulheres que merecem ser estupradas, com quem aprova a reforma da previdência para nos fazer trabalhar até morrer, com quem chama sua filha de “fraquejada”. Nós vamos derrotar Bolsonaro e esse regime político do golpe institucional com a luta organizada dos trabalhadores, das mulheres, da juventude, dos negros e LGBT’s. 2016 nos ensinou que alianças com a direita, como as que o PT fez durante anos, e o PCdoB de Manuela faz hoje com PSL, DEM, PSDB e outros golpistas e perdoando bilhões das igrejas, pavimentaram o caminho do golpe. Por isso a necessidade de se fortalecer uma alternativa à esquerda do petismo, com independência de classe, sem alianças e conciliação com os empresários.”

É preciso apostar na força da classe trabalhadora, ao lado das mulheres, da juventude, dos negros e LGBT’s, fortalecendo a auto-organização desses setores para superar as direções sindicais que negociam nossos direitos e travam nossa luta, como CUT e CTB, dirigidas também pelo PT e PCdoB. Devemos enfrentar Bolsonaro, Mourão e todo esse regime político para impor, pela força da nossa mobilização, uma assembleia constituinte livre e soberana, que coloque nas mãos da maioria da população as principais decisões do país, para mudar as regras do jogo, e não apenas os jogadores, e batalhar pela revogação de todas as reformas e ataques aprovados até aqui. Uma luta cujos embates concretos devem conduzir à necessidade de constituir um governo de trabalhadores, sem patrões e conciliações, de ruptura com o capitalismo.




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