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Manoel Bomfim: por que este sociólogo sergipano fica à margem dos livros escolares? [Parte final]

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 27 de julho| Edição do dia

Parte III [final]

Conforme viemos analisando, o mais notável livro de M Bomfim – América Latina: males de origem - faz um diagnóstico dos males sociais e políticos do Brasil e da América Latina sem paralelo em seu tempo. Por suas qualidades encontrou repúdio das autoridades sociológicas de época.

Mas Bomfim estava correto e é atual: um entendimento mais concreto dos males sociais do Brasil passa pela noção tão enfatizada por ele a respeito dos males da espoliação externa, do colonialismo e sua contrapartida de um Estado conservador e subalterno.

E das relações imperialistas, capitalistas, o maior obstáculo para a emancipação dos povos da América Latina.

Sua noção de colonialismo, que chega ao ponto de antever a possibilidade dos EUA dominarem a região, permite compreender porque uma região tão rica em recursos naturais, sempre esteve endividada, submetida e dominada economicamente pela metrópole.

Uma das razões pelas quais o pensamento (e o diagnóstico) de Bomfim consegue ver mais longe é sua percepção da relação global, mundial, da qual a América Latina está prisioneira, à qual está atada. Como não traçar paralelo com o parasitismo do moderno capital financeiro sobre a América Latina?

Como não perceber que estamos, provavelmente, diante do primeiro autor não marxista de que se tem notícia a denunciar as relações imperialistas aqui?

Pensadores de sua época, e praticamente das três primeiras décadas do século XX, não avançam muito além de Bomfim, ou sequer dele se aproximam, entre outras coisas, porque a eles lhes falta aquela concepção anticolonial de Manoel Bomfim. Assim como também lhes falta a percepção, ainda que incompleta - como é natural em Bomfim -, da relação do emergente imperialismo com a periferia do sistema, com a América Latina.

Os problemas desse seu conceito-chave vão estar, em todo caso, não apenas na elaboração ainda genérica - digamos assim - desse tipo de parasitismo de classe, mas em especial, no fato de não contemplar, claramente, a relação estreita na fase do capital monopolista, entre imperialismo e classes dominantes locais, sejam estas mais oligárquicas [agrárias] ou mais industriais.

Dito de outra forma, seu conceito-chave (do colonialismo como mal de origem), é um conceito ainda ambíguo (ou contraditório), na medida em que não chegou a desprender-se do campo da “nação”, da “nação” como algo que não distingue a burguesia local como parte integrante (e inseparável, mesmo sendo heterogênea, contraditória) do mecanismo de dominação imperialista.

Ainda assim, a radicalidade dessa sua dimensão contraditória é central, uma vez que, se por um lado, como destaca SILVA (5), “atua no terreno da burguesia, valorizando ideais abstratos de liberdade, igualdade, nação, pátria”, ao mesmo tempo, não vacilou em defender propostas ou perspectivas que não eram integralmente, as da classe burguesa (como a da educação em massa da população pelo Estado, ou a de uma via antioligárquica do tipo mexicana).

Nessa medida, o pensamento de Bomfim pode ser valorizado como clarividente, pioneiro, na sua ênfase anti-imperialista. Sua concepção, sem abandonar o terreno de sua classe, leva seu radicalismo, em certos aspectos, para além do que interessa à burguesia. É esse elemento que vai explicar, em boa medida, aquelas características de um pensamento radical.

E vale destacar que ele percebia, dentro de certos limites, o parasitismo interno das classes conservadoras, classes que visam sempre “seus próprios interesses”, isso está presente em diversas passagens de América Latina e foi destacado por Silva (5). Ainda que Bomfim não chegue a ver claramente a questão do “inimigo interno”.

Bomfim critica o agrarismo das “classes dirigentes [“É idiota e irracional o conservar-se um país, qualquer que ele seja, como puramente agrícola”, diz ele à p.174 de A. Latina: males de origem], bate de frente em sua decadência e parasitismo, mesmo que, em regra, não vá além de um projeto nacionalista republicano radical, de reformas no capitalismo.

[Em parte por isso, a direita tentou recuperar elementos de Manoel Bomfim para o seu receituário (caso de Azevedo Amaral, de Carlos Maúl, etc.). Recentemente, Luís Nassif, admirador das medidas neoliberais do governo FHC, esboçou tentativa na mesma direção, de associar Bomfim ao pensamento burguês neoliberal. Mas sem muito entusiasmo. O conjunto da obra de Bomfim não estimula esses voos. Bomfim aponta para o anti-imperialismo, na contramão do liberalismo de ontem e de hoje].

O pensamento de Manoel Bomfim traz, ao mesmo tempo, argumentos de uma ambivalência que aparentemente tensiona sua denúncia para além da sua base, dos seus pressupostos burgueses e iluministas. É o caso de sua argumentação (em América Latina, que é a obra que enfocamos aqui) no sentido de que são as massas que mudam a história. De que “o verdadeiro impulso para o progresso é dado, naturalmente, pelos que sofrem e são oprimidos”, que forçam concessões e “quebram os diques da resistência conservadora”. Uma ou outra vez , em América Latina, ele volta a argumentar na mesma direção, como quando elogia os sublevados de Canudos.

Mais para o fim da sua vida, em obras portanto posteriores a América Latina, Bomfim irá abraçando, além da ideia de um reformismo ilustrado, ou ampliação da cidadania via educação popular, também a defesa de um projeto nacionalista de esquerda do tipo “revolução nacionalista popular” [Ver a respeito, argumento em Memórias do subdesenvolvimento ]. Um projeto onde, para ter acesso à educação popular, o próprio povo teria que assumir os “destinos” do país (para usar suas palavras).

Bomfim foi muito além, não apenas do pensamento político conservador dominante no Brasil do seu tempo, como radicalizou o pensamento liberal burguês. Levou-o a extremos, sobretudo na denúncia das mazelas brasileiras, do colonialismo e sua herança, ao ponto de um ou outro autor - como já foi dito - tê-lo incluído na história das ideias socialistas no Brasil, ou tê-lo aproximado do marxismo.

Morto em 1932, Manoel Bomfim não pôde ser testemunha do peso progressivo que as frações da classe dominante brasileira vinculadas à industrialização foram ganhando após a década de 30, nem ao peso crescente do controle econômico do capital imperialista sobre o Brasil, processos modernizadores que, pelas próprias contradições e pelas crises do capital, jamais levaram o país de Manoel Bomfim a superar mazelas que ele tanto denunciou, e que explodem, nos tempos modernos, sob nova roupagem.

Como argumenta Silva, um dos mais profundos estudiosos de Manoel Bomfim: “No seu livro posterior, O Brasil Nação, a apologia da Educação/Progresso dará lugar à ideia de Revolução; não no sentido da´possibilidade de um confronto real entre o proletariado e a burguesia´, mas assumindo as feições de um novo projeto: o de uma revolução nacionalista popular”.

No entanto, no campo burguês, o radicalismo republicano de Bomfim não tinha onde ancorar-se no plano da elite burguesa local. Mesmo com a Revolução de 30, que abala a hegemonia da burguesia do café, a reacomodação do Brasil (em sua economia interna, em sua inserção no sistema capitalista internacional) não se dará sob hegemonia de uma suposta burguesia industrial. Menos ainda quando Bomfim escrevera América Latina. E, por sua vez, a classe revolucionária de fato, o proletariado, não era uma concepção, obviamente, que Bomfim abraçasse.

Daí que seu projeto modernizador, mesmo sendo original, ousado e revolucionário frente ao liberalismo republicano, mesmo tornando-se progressivamente (especialmente em suas últimas obras pouco depois de 1930) mais radical na tática, no recurso ao elemento popular, mas permanece sem conseguir transcender os limites de classe, não reúne condições para poder ir além da ideia de reformas profundas no sistema. De toda forma, sua evolução à esquerda foi clara, nos seus últimos tempos.

Para Silva, Bomfim não tinha claro o papel da classe dominante local em termos de sua associação ao imperialismo, mesmo percebendo seu papel como “preservadora” dos males deixados pelo colonialismo. “Ao privilegiar o enfoque nacional e denunciar o imperialismo como dominação militar-econômica de um povo sobre outro, e o Estado como instrumento de opressão de uma Nação sobre a outra, Bomfim não leva em conta o papel da classe dominante nacional e suas relações com a burguesia imperialista”. Ao mesmo tempo, mesmo a luta antioligárquica, que era, para Bomfim, prioritária para a constituição da Nação, não chegava a levá-lo a ter claro a questão da relação Nação-classe dominante. Essa ambivalência acompanha Bomfim em vários momentos.

Em outras palavras, Bomfim não rompe com os interesses de sua classe, como argumenta Silva referindo-se ao nacionalismo do autor de A. Latina: “esse mesmo nacionalismo, se é radical quando defende a educação popular como função obrigatória do Estado ou quando ataca o imperialismo e a ordem política conservadora, contudo, não chega a romper com os interesses econômicos, políticos de sua classe.

Expressa , algumas vezes, imagens preconceituosas sobre o popular que são conciliadoras com o domínio da classe burguesa”. Mesmo reivindicando educação popular, o que segundo Silva seria ir algo além dos interesses da burguesia, mas o radicalismo de Bomfim vai pouco adiante do projeto de defesa da educação em massa e da simpatia pela revolução mexicana. Mesmo tendo migrado para posições mais à esquerda bem no fim da sua vida.

[O que Silva pondera sobre Bomfim,, corretamente a meu ver, é que “a importância do seu radicalismo está em que mesmo atuando no terreno da burguesia (...) Bomfim não recuou em defender seus projetos políticos - a educação do povo através do Estado e a Revolução Nacionalista Popular (via mexicana) - enfrentando e sendo derrotado por aqueles que como diz Gramsci, “foram grandes demagogos: fizeram do povo-nação um instrumento, um objeto, degradando-o”].

Feita essa ressalva, em todo caso, pode-se dizer que agitar as reformas que Manoel Bomfim propôs, denunciar as oligarquias como denunciou e, em especial, assumir um diagnóstico anticolonialista como assumiu, tem uma importância que transcende todo o resto. Denunciar o parasitismo imperialista naquele momento vem a ser o ponto alto e o que destaca Bomfim em relação a todos os progressistas do seu tempo.

Nesta dimensão, anti-imperialista, continua sendo um pensador atual que deveria ser incluído em toda discussão historiográfica de época, assim como no debate sobre os “males de origem” do Brasil e da América Latina.

Os mecanismos são outros, modernizaram-se e industrializaram-se as nações, não se vive mais a República Velha de Bomfim, mas como não perceber semelhanças e, sobretudo a presença do torniquete imperialista como um elemento fundamental para se compreender o Brasil atual, seus males? E, ao mesmo tempo, reconhecer o quanto Manoel Bomfim foi lúcido e o quanto viu longe ao perceber e denunciar a relação de espoliação internacional como parte essencial dos “males de origem” e dos males históricos brasileiros? Ele está presente, se quisermos, no mais que necessário debate atual sobre o fim da dívida pública no Brasil.

Gilson Dantas,
Brasília, 10.97 [Publicado nos Cadernos do CEAS, Salvador, fevereiro/2002]

BOMFIM, Manoel. (1993) América Latina: males de origem. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993. /
BOMFIM, Manoel. O Brasil nação: realidade da soberania nacional.2a.ed.Rio de Janeiro: Topbooks, 1996. 630p. /
BOMFIM, Manoel. O Brazil na America, caracterização da Formação brazileira. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1929. /
SILVA, José Maria Oliveira .(1991) Da Educação à Revolução: radicalismo republicano em Manoel Bomfim. Dissertação de Mestrado em História Social, FFLCH da USP, 1991. 187 p. Mimeo. /
MOURA, Gerson. (1990) Estados Unidos e América Latina. S.Paulo: Contexto. 1990.




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