×

Crise política | Mal subiu e já caiu o terceiro gabinete ministerial de Pedro Castillo no Peru

Diante de um questionamento generalizado por parte da população e de vários partidos políticos, Pedro Castillo anunciou em uma curta mensagem à nação peruana que irá recompor o gabinete ministerial recentemente juramentado e presidido por Héctor Valer. Uma mostra da profunda debilidade do governo e da incapacidade do presidente peruano para tomar decisões e sustentá-las no tempo.

segunda-feira 7 de fevereiro | Edição do dia

O gabinete Valer - juramentado pelo presidente Pedro Castillo no dia 1 de fevereiro - será lembrado por ser um dos mais breves da história peruana, durando apenas 72 horas. Castillo se viu obrigado, pela avalanche de críticas, a destituir seu Premier e seu gabinete em uma curtíssima declaração na tarde do dia 4.

A equipe ministerial foi composta majoritariamente por figuras altamente conservadoras e anti-direitos, além de abertos defensores do modelo neoliberal, como o ministro da Economia, Oscar Graham Yamahuchi, e “terruqueadores” [direitistas peruanos que acusam a esquerda de terrorismo] conspícuos, como era o caso do ministro da Cultura, Alejandro Salas Zegarra.

Debates | Tirando o chapéu para Bolsonaro: como fica a esquerda que apoiou Pedro Castillo?

Um dos mais questionados foi o Premier Héctor Valer, o homem do Opus Dei, sobre quem pesam denúncias por violência doméstica e brutal agressão de suas esposa e filha. Valer é, além disso, conhecido por sua vida política pulando de partido em partido. Começou militando no APRA de Alan García, depois no União Pelo Peru e no Peru Nação, até passar a nada menos que o Renovação Popular do ultradireitista Rafael López Aliaga, onde chegou ao atual congresso defendendo a privatização das vacinas. Uma vez no Parlamento, Valer rompeu com Aliaga e foi para o Somos Peru de Salaverry, para logo terminar defendendo Pedro Castillo com Guillermo Bermejo, seu novo sócio de bancada e atual homem de confiança do presidente.

Internacional | Presidente do Peru "se distancia do marxismo", pede investimento privado e unidade

Outra figura muito criticada foi a ministra da Mulher e Populações Vulneráveis, Katy Ugarte, quem, apesar de ser docente e militante do Peru Livre - organização por onde chegou ao Congresso - é também uma ativista anti-vacinas e opositora às lutas das mulheres. Ugarte também é lembrada por sua aberta posição homofóbica, além de ser promotora da eliminação do enfoque de gênero na educação básica, tarefa que compartilha com congressistas provenientes do fujimorismo e da extrema-direita do Renovação Popular, muitos dos quais fazem parte das igrejas evangélicas e militam fervorosamente na organização ultra reacionária “Con mis hijos no te metas”, algo semelhante ao “Escola sem partido” do Brasil.

A eles se soma o ministro do Meio Ambiente, Wilber Supo Quisocala, que não possuía a mínima experiência de trabalho ou profissional na área ambiental. Questão paralela é o caso dos ministros do Interior, Alfonso Chavarri Estrada, e do ministro da Defesa, José Luis Gavidia. Sobre o primeiro pesam denúncias por abuso de autoridade e tráfico de drogas, enquanto o segundo também tem denúncias por violência doméstica.

Ao que parece, Pedro Castillo, com esses novos rostos em seu gabinete e com sua visita ao reacionário admirador de Trump, Jair Bolsonaro, pretendia se fazer digerível pelos setores direitistas e ultra reacionários do Parlamento peruano, para assim evitar um futuro impeachment. Mas o tiro saiu pela culatra, já que a direita parlamentar percebeu a debilidade do presidente e o desconforto social gerado pelas trocas ministeriais. Por isso, quase em coro no momento em que se fizeram públicas as novas alterações, imediatamente disseram que não dariam voto de confiança ao novo gabinete.

Derramamento de óleo | Mobilização no Peru por conta de ecocídio da Repsol questiona governo Castillo

A bancada do Peru Livre, presente no gabinete Valer, em um primeiro momento saudou a nova conformação ministerial com a qualificação de “gabinete de choque”, e até mesmo festejaram a saída dos ministros próximos de Verónika Mendoza, a quem chamam pejorativamente de “caviares”. No entanto, muito ao seu estilo, uma vez que perceberam o repúdio massivo do gabinete em questão, saíram dizendo que também não dariam o voto de confiança, com o que a sorte de Valer e de seus ministros já estava determinada.

As idas e vindas de Pedro Castillo não fizeram mais do que confirmar a extrema debilidade do mandatário e de seu entorno próximo, assim como a aceleração de seu processo de direitização que já vem sendo levado adiante desde que Castillo pisou no Palácio de Governo e começou a trair de forma sistemática todas as suas promessas de campanha, inclusive as mais básicas como a de igualar o salário presidencial ao de um professor de escola.

Nos próximos dias, conheceremos os nomes dos novos ministros de estado. No entanto, sua permanência no executivo, para além de qualquer identidade política e ideológica que tenham, ajudará muito pouco a solucionar a crise do governo peruano, que faz parte de uma profunda e estrutural crise orgânica no país e que se liga ao esgotamento do modelo neoliberal e do regime político da Constituição de 1993, elementos que Pedro Castillo se empenha em seguir sustentando às custas de terminar perdendo tudo.




Comentários

Deixar Comentário


Destacados del día

Últimas noticias