Gênero e sexualidade

NICHOLAS, PRESENTE!

Mais uma vítima da transfobia, Nicholas, militante do PCB, presente!

Hoje o dia amanheceu mais triste. A transfobia levou mais um companheiro no país que mais assassina trans.

quinta-feira 6 de julho| Edição do dia

Hoje o dia amanheceu mais triste. A transfobia levou mais um companheiro no país que mais assassina trans. Nicholas era estudante da UFJF, do curso de bacharelado de ciências humanas, militante do PCB e lutador contra toda opressão e exploração dessa sociedade capitalista. Recebemos como muita tristeza a notícia de seu suicídio e nos solidarizamos com toda família, amigos e camaradas. Nicholas, presente!

Reproduzimos abaixo a nota de pesar da União da Juventude Comunista - UJC:

É com pesar que a União da Juventude Comunista - UJC Brasil comunica a militância o falecimento do camarada Nicholas Domingues.

Estudante da UFJF e militante da UJC, o camarada deixou contribuição importantes na luta LGBT, em especial a população Trans.

Descanse em paz camarada, em cada luta contra contra a exploração e opressão do homem pelo homem você será lembrado.

Nicholas PRESENTE, Hoje e SEMPRE!

Deixaremos abaixo uma de suas ultimas contribuições ao movimento datada de 07/06/2017

"Quem se interessar pelo texto que escrevi para a mesa de hoje, aqui está (foi escrito como eu costumo falar e não como costumo escrever):

Primeiramente, gostaria de pontuar que a discussão que está sendo feita, por mais que na mesa estejam presentes apenas pessoas trans, é uma discussão que deve ser feita por todas e todos independente de identidade de gênero ou qualquer outro marcador social, é uma discussão necessária para que possamos avançar nessas pautas e conquistar direitos juntos. A luta deve ser coletiva porque individualmente é impossível conquistar qualquer direito.

O que vou falar agora pode incomodar e pode ser um tanto quanto agressivo, então peço que se preparem, porque eu não vou poupar palavras quando o assunto é grave. Queria avisar também que quando eu falar de pessoas trans, usarei palavras como “somos, estamos, achamos” porque me reconheço como uma pessoa trans e me incluo na discussão, mas acho extremamente importante ressaltar que nada dito aqui se trata do Nicholas indivíduo, mas sim de um conjunto de pessoas nas quais eu me incluo.

É necessário, ao falarmos de pessoas trans, falarmos de números porque esses números existem e não são aleatórios. No ano de 2016, 144 travestis e transexuais foram assassinados. Outro número divulgado em 2015 pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), é que 90% das travestis e transexuais se prostituem ou já se prostituiram em algum momento de suas vidas. Mais um número, para que quem ainda não percebeu que existe um problema agora fique claro, é que o suicídio e pensamento suicida é uma realidade de 66% dos homens trans. Claramente, não é mera coincidência. Claramente, existe um grande problema. Quando aprofundamos a discussão e percebemos que Dandara, travesti apedrejada e morta a tiros, não foi um caso isolado, que Dandara foi vítima de um mesmo sistema que prendeu Rafael Braga, nos revoltamos. Nos revoltamos porque a barbárie, não apenas à população trans, mas aos negros, às mulheres, aos homossexuais, aos pobres, lota os jornais diariamente. “Ah mas Nicholas, a discussão é sobre pessoas trans, porque você ta falando tudo isso?”. Vou explicar novamente: o mesmo sistema que dificulta a inserção de pessoas trans no mercado de trabalho, prende e condena a 11 anos de prisão o negro pobre por andar com pinho sol e água sanitária na rua. É importante percebermos o problema, porque não está certo do jeito que está.

Entendendo que a discussão é mais profunda e que a luta pelo direito das pessoas trans não é apenas uma luta das pessoas trans para as pessoas trans, é uma luta da sociedade para a sociedade, podemos adentrar a discussão e falar sobre os números citados anteriormente e o que eles significam.

Atualmente, como foi dito, o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Essa frase, que quando escutada pela primeira vez assusta porque “Nossa, eu nunca ouvi falar sobre morte de pessoas trans”, mas é claro que nunca ouviu, você nunca ouviu falar sobre pessoas trans. Afinal, quem não existe, não trabalha, não ama, não vive e não morre. E para muitos, pessoas trans não existem e se existem, não devem existir, porque é errado, simplesmente por ser, nada mais. A discussão sobre identidade de gênero não está presente nas escolas, nas mídias, no dia a dia do brasileiro e o desconhecimento gera o preconceito, gera a opressão. Opressão essa que se trabalhada direitinho a gente transforma em suicídio e assassinato, mas tudo bem, ninguém vai ver. Não existe lei que proteja, não existe pessoa que chore a vida de uma travesti e prostituta. Ninguém liga, não vai fazer falta. E assim, o Brasil torna-se recordista mundial em assassinato de travestis e transexuais. Assim, os pensamentos suicidas fazem parte do cotidiano daquela pessoa que não se identifica com o gênero imposto a ela ao nascer, porque como se não bastasse todo o sentimento em relação ao corpo, temos que aguentar a opressão e enfrentar diariamente os olhares esquisitos no banheiro, temos que aguentar nossos nomes desrespeitados e a falta de oportunidades no mercado de trabalho e uma junção disso tudo, meu querido, mata. E mata muito.

O respeito ao nome social é extremamente importante na vida de uma pessoa trans. Mudar o nome na certidão é um processo extremamente burocrático, onde a pessoa deve apresentar laudos médicos (sim, laudos médicos porque precisamos provar que possuímos esse chamado transtorno de identidade) que provem que somos trans e vivemos como homens ou mulheres. Também devemos apresentar documentos como fotos e cartas de amigos e familiares provando que somos homens ou mulheres. Todo esse processo dura por volta de um ano pra cima, difícil vermos casos que demorem menos que isso. Atualmente é lei o respeito ao nome social nos órgãos públicos como o SUS e instituições de ensino como as universidades e escolas. Um avanço muito importante visto que pessoas trans deixam de terminar seus estudos devido ao tratamento que recebem nas escolas. É importante também ressaltar que apenas aprovar, e não só aprovar, como respeitar, foco na palavra “respeito” porque simplesmente aprovar não significa muita coisa, mas enfim, apenas aprovar o uso do nome social por pessoas trans, é necessário permitir o uso do banheiro de acordo com o gênero que a pessoa se identifique. A discussão dos banheiros, muito polêmica por sinal, é uma discussão importantíssima e grudadinha na discussão do nome social, porque são direitos básicos, porém negados à população trans.

O direito precisa avançar cada vez mais nessas discussões, não só criando leis que nos humanizem, mas as executando de forma justa e igualitária, coisa que não vemos acontecer, porque sim, o judiciário escolhe quem fica livre ou não e não é no unidunitê, é na cor da pele e na classe, atendendo muito bem os interesses do capitalismo. Existir um grupo que esteja à margem, um grupo que seja proibido de frequentar certos espaços é interessante e lucrativo a esse sistema. Lembrando que esse grupo à margem não é homogêneo, como citado anteriormente.

Agora falando sobre a condição de trabalho das pessoas trans, fato que não deve ser visto como mera coincidência, é que quando temos a oportunidade de trabalhar somos jogados aos trabalhos informais e de grande vulnerabilidade – como centrais de Call Center e os trabalhos sexuais – onde não somos respeitados, sofrendo diariamente com o desrespeito do nome social e utilização do banheiro, onde a condição de trabalho é extremamente precária, onde existe muita exploração. Voltamos aos números: 90% das travestis e transexuais estiveram ou estão na prostituição. Não é um número baixo. Para uma pessoa trans conseguir um emprego é uma luta. Para que possa ter o que comer e onde dormir, muitos de nós acabam nessas situações vulneráveis e de constante exploração. Uma realidade muito grande também é a expulsão de casa por falta de aceitação da família e, enxergando-se em situação de rua, a pessoa não tem outra saída que não a prostituição.

Nos últimos anos, temos avançado bastante quando o assunto é direito e diz respeito à população trans, mas ainda não é suficiente. Enquanto existirem os números, enquanto formos explorados e mortos, enquanto formos esquecidos e jogados à margem, oprimidos, não será suficiente. É muito complicado pararmos de lutar por nossos direitos nos primeiros sinais de avanço.

Encerro minha fala agradecendo a presença e atenção de todas e todos. Muito obrigado."




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