Política

DEPUTADO DO PSOL FRENTE AO MASSACRE DOS PALESTINOS

Mais de cem palestinos assassinados por Israel, o que Jean Wyllys tem a dizer sobre isso?

Nos protestos de palestinos iniciados em 30 de março aos 70 anos do início de sua implacável perseguição pelo Estado de Israel, já são mais de cem mortos e mais de 2 mil feridos. Diante desses abomináveis crimes, Jean Wyllys, parlamentar do PSOL conhecido por sua defesa de Israel em oposição a seu partido, mantém um silêncio ensurdecedor.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 17 de maio| Edição do dia

“Nakba”, a “catástrofe”: essa é a palavra utilizada pelo povo palestino para se referir aos eventos do dia 15 de maio de 1948, quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos de suas casas, de sua terra, pela criação do Estado de Israel, com o aval da ONU e dos países imperialistas. O absurdo mito de “uma terra sem povo para um povo sem terra” ocultava um dos maiores crimes contra a soberania de um povo praticados no século XX, forçando ao exílio centenas de milhares de palestinos e obrigando a que outros milhares passassem a viver em condições de absoluta degradação, violência e terrível opressão cada vez maior ao longo dos próximos 70 anos.

São incontáveis os crimes praticados desde então, por um Estado altamente militarizado que mantém sob seu jugo o povo palestino, hoje confinado brutalmente, na região de maior densidade populacional do mundo, a dois minúsculos territórios: a faixa de Gaza e a Cisjordânia. O mapa abaixo mostra a evolução ao longo das décadas desse absurdo ataque ao direito dos palestinos sobre sua terra, num movimento que foi além inclusive da já criminosa fronteira estabelecida pela ONU (marcada no segundo mapa e com contornos cinzas nos seguintes) e estabelecida à custa do derramamento de muito sangue palestino, de muitos exílios, muita dor e sofrimento impostos pelos tanques do exército israelense.

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Hoje, as condições de vida dos palestinos que resistem em Gaza e na Cisjordânia são absurdas. Em Gaza, têm direito a 4 horas de eletricidade por dia. São obrigados a passar por revistas vexatórias e opressivas para passar pela fronteira. Não possuem os mesmos direitos que os israelenses, sendo considerados cidadãos de segunda classe. Estão sujeitos a todo tipo de violência e arbitrariedade por parte do Estado de Israel, inclusive as crianças, como vimos no célebre caso de Ahed Tamimi presa por resistir aos abusos dos soldados e dar um tapa em um deles. Num exemplo do que acontece a milhares, sua família vem sendo perseguida, com nove pessoas presas em fevereiro e a prisão de seu irmão recentemente.

Em mais uma ação de resistência frente a esse absurdo que já dura setenta anos, os palestinos organizaram desde março uma série de protestos que denominaram "Marcha do Retorno". Desde então, foram ao menos 111 mortos, sendo cerca de sessenta apenas nessa segunda-feira, 14, durante os protestos contra a transferência da embaixada dos EUA de Tel Aviv, capital oficial de Israel, para Jerusalém, numa medida de Trump que fere até mesmo os acordos internacionais ratificados pelos países da ONU. Os números de feridos oficiais são de 2.771, sendo 225 crianças, e 54 em estado crítico. Um bebê de 8 meses está entre os mortos, bem como um homem que já havia perdido as duas pernas em outras ações de repressão aos palestinos. Do lado de Israel, não houve nenhuma morte, mas cinicamente os meios de comunicação, a imprensa em todo o mundo fala quase sempre em "confronto", "conflito", "embate", e outros termos que indicariam um enfrentamento em igualdade de condições, ocultando o que ocorre de fato: um massacre ao povo palestino.

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Não se poderia esperar algo diferente da mídia burguesa, patronal, que está do lado dos poderosos interesses econômicos de Israel, o maior aliado dos EUA no Oriente Médio. Contudo, chama a atenção a escandalosa posição que o deputado federal Jean Wyllys, do PSOL, defende há anos, reproduzindo o discurso cínico e criminoso de que há uma disputa ali que deve ser entendida em sua complexidade e o Estado de Israel deve ser defendido. Em fevereiro, soltou um posicionamento público (veja abaixo) em que afirma, novamente, que Israel é "a única democracia da região". A "democracia" de Jean Wyllys é fundada sobre o massacre cotidiano de um povo.

Escandalosamente, Jean Wyllys afirma que a posição de seu partido, de criticar Israel, se deve a um "antissemitismo" (ele diz: "A obsessão de uma parte da esquerda em atacar Israel, a única democracia da região, é suspeita de estar contaminada por preconceitos antissemitas"), um argumento calunioso e reacionário, em especial se lembrarmos que por décadas o antissemitismo, preconceito contra os judeus, foi utilizado pela direita mais reacionária para atacar a esquerda (na Rússia, por exemplo, onde se realizavam "pogroms" - massacres de judeus - era utilizado o fato de Trotski ser judeu para atacar o partido bolchevique). O enfrentamento ao sionismo, movimento político que embasou a criação de Israel, não tem nada a ver com o antissemitisimo. São conhecidos, aliás, os movimentos de judeus ortodoxos contra Israel e o sionismo, como ilustrado na foto abaixo de um de seus protestos. Somos intransigentemente contra todo e qualquer tipo de discriminação contra a religião e a cultura judaica, contra qualquer judeu e suas expressões, seus costumes e suas tradições. A defesa da liberdade de crença irrestrita nada tem a ver com a defesa da manutenção de um Estado criado artificialmente por um acordo entre nações imperialistas sob a base da expulsão de centenas de milhares e da manutenção de um povo em situação de opressão. Os judeus que são contrários ao Estado de Israel, ao contrário de Jean Wyllys, compreendem que não há nenhuma relação entre anti-sionismo e antissemitismo.

Ainda mais, Jean Wyllys diz que a posição do PSOL crítica a Israel representa "minoria fanática e barulhenta do meu partido" e que a posição é "não representativa do conjunto do partido".

Frente ao massacre perpetrado por Israel desde março, e com mais de cem mortos na última semana, o que Jean Wyllys disse (veja postagem abaixo) é que é "abjeto e repudiável" o massacre de Netanyahu, mas defende frente a isso a criação de dois Estados.

Essa resposta, aparentemente "humanista", é a continuidade dos crimes contra os palestinos. Em primeiro lugar, ele reproduz os argumentos absurdos de Israel que responsabilizam mortes causadas pelo seu exército a uma "legítima resistência" que existiria por uma reação a grupos terroristas como o Hamas. Além disso, coloca em pé de igualdade, como a mídia, uma resistência com paus e pedras dos palestinos frente aos ataques com bombas, tanques, metralhadoras e fuzis israelenses. A foto abaixo, de Fadi Abu Salah, um dos palestinos mortos nessa segunda-feira, é uma ilustração contundente de que não há uma "guerra" entre iguais (bem como o fato de que foram mais de cem mortos de um lado e nenhum de outro).

Jean Wyllys também atribui, falsamente, o massacre ao povo palestino a um governo (Netanyahu), e não a uma política de Estado vigente há setenta anos. Defende a solução de "dois Estados", o que na prática é legalizar, legitimar o massacre que foi feito nesse período, todos os crimes desde a Nakba, e essa ação em si, que expulsou 700 mil palestinos de suas casas. É a defesa desse crime que Jean Wyllys defende contra o "fanatismo" dos que lutam pelo direito do povo palestino à sua terra. E, escandalosamente, isso foi dito no dia seguinte ao massacre que matou cerca de 60 palestinos durante o protesto contra a transferência ilegal da Embaixada dos EUA para Jerusalém, em relação à qual não ouvimos uma palavra de Jean Wyllys, mostrando que a sua defesa é da política criminosa de Israel, inclusive quando ela é feita por intermédio de Donald Trump.

Se é um escândalo a posição de Jean Wyllys, em defesa de um Estado opressor e militarizado que massacra um povo há 70 anos, e também seus absurdos ataques contra os setores majoritários do PSOL que condenam as ações de Israel, não deixa de ser um absurdo a postura de seu partido diante disso. Aqui e ali encontramos militantes honestos que expressam seu repúdio aos posicionamentos de Jean Wyllys, mas a questão vai muito além disso. Uma figura pública do partido, de imensa projeção, veicula posições absolutamente reacionárias de defesa do Estado de Israel em meio a um massacre monstruoso do povo palestino. Uma posição escandalosa e abertamente contrária não apenas ao que o partido defende, mas a qualquer posicionamento que seja digno de qualificar como de esquerda. E, frente a isso, a direção do PSOL se abstém. Jean Wyllys continua tranquilamente defendendo Israel, em meio ao mais brutal massacre dos últimos anos, continua chamando os militantes do PSOL de "antissemitas" e "minoria fanática e barulhenta" e simplesmente nada acontece.

Essa é mais uma trágica expressão de que tipo de partido o PSOL é, em que os parlamentares não são representativos das posições programáticas construídas pela militância, não se centralizam pelas posições das bases, da direção, da maioria partidária, mas ao invés disso atuam como caudilhos a quem tudo é permitido, inclusive defender massacres de povos inteiros. Ou seja, no PSOL quem dirige a atuação parlamentar não é o partido, e em geral é até o contrário: os parlamentares acabam por deslocar e centralizar a atuação partidária por meio de sua atuação. Que diferença em relação à tradição dos comunistas e do parlamentarismo revolucionário, que já em 1920, no II Congresso da Internacional Comunista diziam (em resolução escrita por Leon Trotski):

"Todo deputado comunista no parlamento está obrigado a recordar que não é um ’legislador’ que busca uma linguagem comum com outros legisladores, mas um agitador do partido enviado para atuar junto ao inimigo para aplicar as decisões do partido. O deputado comunista é responsável não ante a massa anônima dos eleitores mas sim ante o partido comunista seja este ilegal ou não;" e, ainda, "Em todos os problemas políticos importantes, o grupo parlamentar está obrigado a solicitar as diretrizes prévias do comitê central."

Diante da projeção parlamentar de Jean Wyllys, contudo, é nítido que a direção do PSOL preferirá o cômodo silêncio, mostrando que os acordos oportunistas primam em detrimento das questões políticas fundamentais.

Como Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT), defendemos uma posição absolutamente distinta. Pautados nos princípios do marxismo revolucionário, que tem no internacionalismo da classe trabalhadora um de seus fundamentos, somos completamente solidários à luta do povo palestino contra a opressão que sofrem há décadas pelo Estado de Israel. A luta contra o colonialismo israelense, que tem como primeiro aliado o imperialismo estadunidense, é absolutamente legítima. Defendemos sua luta pela libertação nacional e pelo direito de retorno de todos os refugiados. Como fim para esse massacre, defendemos o fim do Estado de Israel e o estabelecimento de uma Palestina livre, laica e socialista onde os trabalhadores judeus e árabes possam viver juntos.




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