Internacional

UM GENOCIDIO EM MAR ABERTO

Mais de 700 imigrantes morreram na semana passada tentando cruzar o Mediterrâneo

Entre 700 e 900 pessoas haviam morrido na semana passada, após o naufrágio de várias embarcações com imigrantes provenientes da Líbia que se dirigiam às costas italianas.

Juan Andrés Gallardo

Buenos Aires | @juanagallardo1

segunda-feira 30 de maio de 2016| Edição do dia

Os números não foram conhecidos com exatidão e têm como referência os depoimentos dos próprios sobreviventes. Cada um dos relatos é mais assustador que o anterior e os números aumentam com o passar das horas. Trata-se do número de mortos mais alto registrado em uma só semana, comparado ao decorrer do ano.
O organismo da ONU para os refugiados, ACNUR, sinalizou por meio de sua porta-voz que “Nunca sabemos o número exato, nunca conhecemos sua identidade, mas os sobreviventes contam que morreram umas 500 pessoas”.
Essa foi a mensagem que publicou o domingo pela manhã em sua conta de Twitter, Carlotta Sami, porta-voz da Acnur.

No entanto na mesma noite de domingo o número de mortos já subia a 700, contando somente os naufrágios ocorridos entre quarta e domingo.

Carlotta Sami, publicou então um novo tweet descrevendo o “macabro exercício” de contar as vítimas e questionando a passividade frente a este verdadeiro genocídio “o mundo irá perceber que mais de 700 pessoas haviam merecido uma passagem seguro?

Por sua vez a organização Médicos sem Fronteiras declarou que as vítimas dos naufrágios poderiam chegar a 900.

Nos últimos dias, a guarda costeira italiana confirmou três naufrágios: o primeiro na quarta, em que se recuperaram cinco cadáveres, um segundo na quinta, em que se reconheceram entre quinze e vinte corpos, e um terceiro na sexta em que se recuperaram 45.
Os números refletem uma escalada assustadora na quantidade de imigrantes mortos no mediterrâneo, que desde o primeiro de janeiro somaram 1100 segundo a Organização Internacional de Migrações. Uma cifra que praticamente se duplicará com os naufrágios dos últimos dias.

A responsabilidade da União Europeia

O mediterrâneo voltou a se converter em uma tumba para os imigrantes de forma acelerada, e não é por casualidade. A mudança na forma que adotou o fluxo migratório tem uma relação direta com as políticas levadas adiante pela União Europeia.

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O fechamento deliberado de fronteiras por meio de muros, cercas de contenção e a militarização dos campos de refugiados, no que se conhece como a “rota balcânica”, desencorajou a tentativa de entrar na Europa desde o norte da Grécia ou Turquia. É acordo da EU com a Turquia para que este último atue como “tampa” frente à onda migratória, enquanto recebe e envia aos campos de refugiados os imigrantes que são expulsos dos países membros da União.
Frente a este cenário se reativou a rota do mediterrâneo para tentar chegar às costas da Itália desde o norte da África. Trata-se de uma rota muito mais perigosa, não somente pela possibilidade de naufrágio, mas porque a maioria das precárias embarcações partem da costa Libia, um país fragmentado e submerso em uma profunda crise política, onde operam todo tipo de máfias que negociam com o tráfico de pessoas. Estima-se que cobram uns 400 euros por pessoas, e que para aumentar seus lucros excedem amplamente a capacidade das embarcações, fazendo com que muitos imigrantes viajem diretamente nos porões, o que constitui a crônica de uma assassinato anunciado.
Com o fechamento da rota balcânica, não passará muito tempo antes que a União Europeia comece a discutir uma solução semelhante para o norte da África. Com a recusa de evitar mais mortes em naufrágio, a UE havia aprovado o ano passado operações que lhe permitiam afundar embarcações nas costas líbias como forma “preventiva” de impedir que saíssem em direção as costas italianas.
Alinhado com o cinismo destas ações o primeiro ministro italiano, Matteo Renzi, já adiantou o que seria sua política frente a nova onda migratória. No domingo declarou que a chave é “cortar o problema da raiz” e evitar que “os refugiados e migrantes saiam de seus países”.

Tradução: Milena Bagetti




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