Gênero e sexualidade

PLENÁRIA NACIONAL DO PÃO E ROSAS

Maíra: "Que o medo e a raiva se transformem em luta contra Bolsonaro, Mourão e os golpistas"

Abaixo reproduzimos a fala de Maíra Machado, professora da rede estadual de São Paulo, dirigente do Pão e Rosas e do MRT, durante a plenária nacional do Pão e Rosas Brasil.

sábado 6 de março| Edição do dia

Meu nome é Maíra Machado, sou professora da rede pública em São Paulo e eu queria dizer que estou muito muito feliz de estar aqui nessa plenária com tantas mulheres. Nesse momento eu também estou junto à milhares de professores em luta contra a reabertura das escolas no mais forte pico da pandemia em nosso país. Somos essas mulheres que enfrentamos a precarização e exclusão gerada pelo ensino remoto, que prejudica também nossos alunos e suas famílias, sendo que muitos mal têm acesso às aulas assim como os pais e mães em sua maioria não tiveram direito à quarentena. Tô vendo muitas estudantes secundaristas aqui que devem estar passando por essa situação, tamo juntas!

Com jornadas de trabalho sem fim, tendo que driblar as precárias condições de trabalho imposta por governos que jamais garantiram o mínimo para que nossos alunos pudessem realmente acompanhar as aulas à distância. Estamos com cada professora que nesse momento está sendo obrigada a voltar paras as escolas, com medo porque além de nossos alunos, temos nossos filhos e sabemos que as escolas públicas não tem o mínimo necessário para funcionar nessa situação. Estamos vendo diversos professores e até crianças de 13 anos morrendo com a reabertura das escolas, esse combate não é apenas por nossas vidas, mas também pela vida de nossos jovens. Mas batalhamos para que o medo e a raiva se transformem em luta contra Bolsonaro, Mourão e todos golpistas que rifam nossas vidas e querem acabar com nossos direitos, por isso fizeram um golpe institucional no país pra fazer ataques mais profundos do que o PT já vinha fazendo. Esse é o convite que fazemos a todas as mulheres que estão nessa plenária hoje. Por isso, antes de tudo quero saudar cada professora que está aqui, as trabalhadoras da saúde que são a força da linha de frente nessa pandemia, as mulheres jovens que vieram conhecer nossas ideias.

O Pão e Rosas é um grupo internacional de mulheres socialistas, aqui no Brasil o Pão e Rosas é construído pelo MRT e muitas mulheres independentes. Estamos em 14 países e ocupamos a linha de frente na luta pela legalização do aborto na Argentina nos últimos anos, uma luta que teve seu ponto alto na Maré Verde em 2018.

Somos parte das mulheres negras norte americanas que romperam a passividade da pandemia e foram Às ruas nos EUA contra a violência policial. Nós do Pão e Rosas, junto a diversos companheiros de luta impulsionamos a Rede Internacional de Jornais Diários chamada esquerda diário, desde já convido a todes para impulsionar com a gente a sessão de gênero e sexualidade de nosso diário, para dar voz às milhões de mulheres que sofrem todos os dias com a violência machista e o patriarcado. Levamos à frente no Brasil o podcast “feminismo e marxismo” onde resgatamos as ideias de grandes revolucionárias como Rosa Luxemburgo e as experiências mais profundas das lutas das mulheres no decorrer dos séculos. Lutamos em cada local de trabalho e estudo para que as mulheres sejam a força que empurre para a frente de combate os milhões de trabalhadores, jovens, negros e negras, as LGBTs para o combate ao capitalismo. O patriarcado não vai cair sozinho, por isso a organização de nossas forças é fundamental para destruir o machismo e o capitalismo. E é por isso gente que o nosso feminismo não é pra reformar o capitalismo, não é pra ter meia dúzia no poder, não é um feminismo contra os homens: nosso feminismo é socialista, unindo a nossa classe contra o capitalismo.

Por isso a força das mulheres, que vimos se desenvolver e ocupar as ruas em todo o mundo nos últimos anos segue sendo o motor para lutar contra o negacionismo de Bolsonaro e sua perseguição constante contra os nossos direitos, pra isso ele conta com mulheres como Damares Alves que acha que pode determinar o que vestimos e como devemos nos comportar e nosso grito de raiva diz que não permitiremos retrocessos em nossas conquistas, mas também que não aceitamos que sigam cortando nossos direitos, como estão fazendo com a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a lei da terceirização, a ingerência em nossas universidades, a perseguição e punição ao livre pensamento em nossas escolas.

Quando resgatamos a história das mulheres que batalharam contra a escravidão, pelo direito ao voto, pela necessidade de decidir sobre nossos corpos e pela liberdade de nossa livre sexualidade é porque sabemos que todas as mulheres são oprimidas no capitalismo, mas são as mulheres trabalhadoras, as negras, as mulheres pobres que sofrem com a super exploração do trabalho. Que se enfrentam com a dupla ou tripla jornada de trabalho, que tem que garantir sozinhas a educação dos filhos. Uma situação que só piora com a pandemia, hoje são mais de 260 mil mortos no país, quase 2000 por dia, o que se soma ao desemprego de 14 milhões de pessoas, com a fome e a carestia de vida. Essa relação entre opressão e exploração se mostra quando lembramos o caso de Denise brutalmente assassinada pelo patrão quando buscava defender a patroa que estava apanhando. Ou com a morte do pequeno Miguel Otávio que caiu do nono andar de um prédio de luxo após ser abandonado pela patroa de sua mãe. Miguel morreu pelo descaso racista dessa sociedade, morreu porque a patroa, mesmo sendo mulher não via valor em sua vida. Um feminismo que unifique todas as mulheres independente da sua classe não dá respostas a mulheres como Mirtes e Denise.

Diante da situação de nosso país, denunciamos e combatemos Bolsonaro que na última semana disse que temos que parar de chorar e ir “buscar vacina na casa da nossa mãe”, mas não caímos na demagogia dos governadores como Doria que colocou São Paulo na fase vermelha, mas manteve as igrejas abertas como serviço essencial em nome dos lucros do pastores e as escolas funcionando para contentar os donos de escolas privadas. E outros como Eduardo Leite do RGS que recorreu ao STF para impor a reabertura das escolas, o bolsonarista do agronegocio Ronaldo Caiado, governador de Goias, eles estão se lixando pra população, além de governadores do Nordeste, como Rui costa na Bahia ou Fatima Bezerra no RIo grande do norte, que são do PT e que fortalecem a linha repressiva dos governos. Sem contar a calamidade que vemos em Manaus que se depender dos governadores será reproduzida em todo o país. Não nos enganamos com esse congresso nacional composto por uma ampla maioria de empresários reacionários e machistas que atuam para aumentar seus lucros massacrando nossas vidas. Não alimentamos confiança na justiça racista e que é contra as mulheres, todas aqui devem ter visto o julgamento da Mari Ferrer no ano passado, quando ela foi humilhada por essa justiça patriarcal denunciando o estupro que viveu.

Nosso combate é para desmascarar a farsa da vacina de Doria e dos governadores. O que existe de vacina é muito pouco e não responde nem ao menos a todos os trabalhadores da saúde. Em nosso país, não existe nenhum combate ao avanço da Covid. Quando os governadores falam que vão restringir a circulação durante a noite é para fingir que estão combatendo o avanço da covid, enquanto aumentam a repressão policial nas periferias contra a nossa juventude. Com a força das mulheres da saúde, nossa luta é por testes massivos para todas as pessoas, é por pela quebra das patentes da vacina, para que seja um direito de todos se vacinar, é para que exista uma quarentena racional, afastando do trabalho todo o grupo de risco que deve seguir recebendo salário. Nosso combate é para que seja a comunidade escolar junto aos trabalhadores da saúde que decida quando e como deve ser o retorno das aulas e também para que tenhamos condições para trabalhar à distância.

Para isso a gente precisa unificar a luta das mulheres com a luta de classes, ou seja, não adianta defendermos somente os direitos das mulheres, esse não é o Pão e Rosas. O Pão e Rosas é o grupo que resgatando o melhor da tradição do marxismo revolucionário considera que a luta das mulheres está inserida na luta de classes e por isso precisamos nos posicionar politicamente, a Letícia vai falar sobre isso, já que justamente por querermos nos posicionar politicamente a gente foi vetada pessoal, é isso mesmo, essas mais de 700 mulheres que estão aqui foram vetadas de falar no 8 de março. Mas a nossa voz é muito forte né? Não vamos nos calar.

Quem tenta nos impedir de falar hoje são direções ligadas ao PT, PCdoB e também tiveram a conivência do PSOL, apesar de termos feito diversos chamados pras companheiras defenderem nosso direito. No caso do PT não chama atenção já que eles preferem fazer alianças com golpistas. Gente, como é possível combater os ataques com aqueles que fizeram o golpe? Além disso, nos sindicatos como a CUT e CTB, que são dirigidos pelo PT e PCdoB, eles atuam para chegar em acordo com os patrões e governos e não pra mobilizar a gente. Até entre os estudantes do ensino básico vimos o PCdoB, com a UJS defendendo que as escolas tinham que abrir, de uma forma que ajudou Dória a atacar a greve das professoras. Isso é muito sério, porque só com a nossa força independente poderemos derrotar esse governo e todas as instituições que fazem parte dele. Nesse momento, a CUT que está a frente da APEOESP, que é o sindicato dos professores de São Paulo, ao invés de ter construído uma greve forte e de verdade, nunca fez isso seriamente, ao contrário chegaram a falar de "greve assinando ponto", enquanto os professores iam para as escolas se expor ao vírus, dando aulas sem condições seguras" é preciso um chamado a todos os educadores do país, assim como é preciso cercar de solidariedade a atual mobilização dos trabalhadores da Petrobrás. Temos a certeza que somente nossa classe combatendo junta poderá colocar um ponto final nessa situação e apontar o caminho para um novo mundo. Isso é pão e rosas companheiras!




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