Opinião

DEBATE VENEZUELA

MES/PSOL: a saída na Venezuela seria um chamado à conciliação entre Maduro e a direita?

Se no Brasil a corrente de Luciana Genro fez coro com o golpismo ao apoiar a lava jato, na Venezuela defendem o diálogo nacional nos marcos da constituição de 1999. Num caso como no outro, nenhuma confiança nos trabalhadores e no povo

quarta-feira 30 de agosto| Edição do dia

A corrente interna do PSOL, que tem na Venezuela uma corrente chamada Marea Socialista, foi uma das que mais se entusiasmou com socialismo do século XXI e com a chamada revolução bolivariana do “Comandante Chavez”. Aderiram ao PSUV e aí permaneceram por vários anos, até 2015, buscando influenciar por dentro o “processo revolucionário”. Essa política é uma das responsáveis por hoje, no momento de crise do chavismo, a esquerda independente não ser uma força social capaz de postular como alternativa frente ao povo venezuelano.

Agora tentam conciliar suas posições anteriores com o curso atual do governo, acusando Maduro (escolhido como sucessor pelo próprio Chavez) de ir contra as conquistas da revolução. Em um texto de Pedro Fuentes em que criticam o apoio do presidente nacional do PSOL a Nicolas Maduro, chegam a afirmar: “Ficar do lado de Maduro é apoiar práticas anti-socialistas e antidemocráticas que lembram o estalinismo. As práticas maduristas são uma cópia das que fez Stalin em seu momento.” Porém, Maduro está tão distante de Stalin como Chávez esteve de Lenin e Trotsky!

O processo político promovido por Chávez na Venezuela não pode ser comparado com uma revolução. Enquanto Stalin se baseava nas conquistas sociais da revolução russa – expropriação da burguesia e monopólio do comércio exterior – para manter seu domínio burocrático sobre a URSS, o chavismo, apesar de se autoproclamar como o socialismo do século XXI, em nenhum momento tomou medidas que questionassem o capitalismo ou as bases da propriedade privada. Inclusive a legislação autoritária contra as greves de trabalhadores, que agora Maduro exacerba com o apoio do exército, já se iniciaram nos tempos do “Comandante”.

Em outro artigo, Rafael Araujo afirma “o bonapartismo progressista de Chávez foi fundamental para o desencadeamento da revolução bolivariana.” Apesar de classificar o governo Chavez como bonapartista, não tiram dessa definição as conclusões necessárias. A burocracia do PSUV, a chamada boliburguesia e sobre tudo a cúpula do exercito não se fortaleceram apesar de Chavez, mas foram impulsionadas por este. A Constituição chavista de 1999 serviu de base legal para um regime centralizado na figura de Chavéz e no exército num período de valorização do petróleo. Agora, como consequência direta das políticas de Chavez, o exército é o grande fiel da balança na luta entre Maduro e a oposição pró-imperialista aglutinada na MUD.

Entre um chamado inócuo ao dialogo e ao respeito à constituição de 1999 e a defesa de eleições

Marea Socialista, rechaçando a manobra da Assembleia Constituinte convocada por Maduro, afirmava: “reclamamos a suspensão da falsa Assembleia Constituinte, o adiantamento das eleições a governadores, um claro cronograma de eleições presidenciais, a volta plena à Constituição de 99”. A debilidade desta posição é que eleições não serão suficientes para resolver a crise atual em favor dos trabalhadores ou do povo da Venezuela. Ao invés de combater fortemente os dois bandos burgueses, em defesa de uma política independente por parte dos trabalhadores, o MÊS/Marea Socialista tenta fazer a roda da história voltar atrás em alguns anos, como se a crise do chavismo pudesse ser contida nos marcos legais da Constituição de 1999, feita à medida da burguesia nacional que se beneficiava com os altos preços do petróleo na década de 90. Ambos os bandos burgueses em disputa – como os define a própria Marea Socialista – se colocam como defensores dos marcos constitucionais de 1999, ao mesmo tempo em que a dinâmica do enfrentamento os obriga a atuar por fora destes marcos legais.

Os pedidos de dialogo realizados pelo MES não são mais que pedidos inócuos “cremos que somente o diálogo, impulsionado nos marcos legais e constitucionais, com a ampla participação dos grupos políticos internos e intermediado por nações e legítimas instituições sul-americanas, como a União Sul-Americana de Nações (UNASUL), poderá afastar a Venezuela da possibilidade de guerra civil e da consequente intervenção imperialista”. O argumento é preservar a ordem de 99 para "afastar o perigo de intervenção imperialista", uma ideia que abre espaço para a conclusão de que o imperialismo não intervirá se a classe trabalhadora se mostrar dócil, aceitar sua submissão ao “diálogo” entre Maduro e a direita, e não buscar uma saída independente dos marcos legais burgueses.

Não serão chamados como este que farão os bandos em disputa retrocederem a posições de respeito à sua própria constituição, já em si antioperária e antipopular. E ainda que isso se desse, qualquer acordo entre a MUD e o governo Maduro “nos marcos da constituição de 1999” será um pacto para avançar ainda mais contra os trabalhadores e o povo da Venezuela. Além disso, este tipo de chamado a Unasul legitima a intervenção externa por parte dos EUA. Acontece que os governos Macri da Argentina e o golpista Temer no Brasil estão a serviço do imperialismo e temos que rechaçar qualquer ingerência externa na Venezuela, seja por parte da Unasul, seja por parte da Igreja ou seja diretamente pelas mãos dos EUA.

Como defendemos a partir do Esquerda Diario Venezuela e da corrente LTS, irmã do MRT, “Corresponde buscar as vias pelas quais romper a passividade e o imobilismo que hoje impõe as centrais e federações sindicais. Os trabalhadores, ativistas e sindicatos de base devemos romper com essa situação e impulsionar assembleias em nossos locais de trabalho, assim como encontros regionais de trabalhadores em luta, onde possamos discutir a situação política do país, encontros para definir nossa própria agenda, para articular as lutas hoje se dão isoladas, para tecer a solidariedade ativa, para definir planos de luta unificados pelas nossas demandas. Assembleias e encontros regionais com o objetivo de um grande encontro nacional de trabalhadores que tire um plano nacional de luta por um programa operário de emergência e uma saída própria dos trabalhadores, independente do governo e da MUD”.

Ao contrário dessa perspectiva, que aponta para que a classe trabalhadora surja como um sujeito político independente da luta entre a MUD e o governo Maduro, o MÊS/Marea Socialista segue apostando na convergência com setores das cúpulas chavistas, inclusive das forças armadas, críticos à Maduro para construir uma terceira força. Ou seja, sob as novas circunstancias de crise apostam na mesma estratégia que durante os anos de auge do chavismo os levaram a participar do PSUV. Não aprenderam nada das derrotas e divisões do último período.




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