Educação

EDUCAÇÃO - ELEIÇÕES

Lutas da juventude durante os governos petistas: o abandono de uma perspectiva?

João de Regina

Professor de Campinas

segunda-feira 1º de outubro| Edição do dia

Nestas eleições tem sido comum escutar a ideia de que frente a uma vitória da extrema direita seria justo o voto em qualquer outro candidato. Haddad, mas também Ciro, são as opções mais cogitadas e o que podemos ver é que, para muitos, o debate programático com os projetos destes representantes é menos importante uma vez que o objetivo se limita a impedir a vitória de Bolsonaro.

Essa posição frente as eleições tem se expressado mesmo entre pessoas que na última década participaram de mobilizações na educação lutando por objetivos opostos ao que desejam esses dois candidatos. Buscamos aqui demonstrar que o voto em Haddad ou em Ciro é uma contradição com as bandeiras de luta desta geração e que longe de enfraquecer a extrema direita, na verdade, nos desarma frente aos tempos conturbados que virão, mesmo caso o odiado Bolsonaro não vença as eleições.

Para muitos ativistas, que protagonizaram importantes lutas durante os governos do PT, era necessário mostrar que as reformas na educação, apesar de terem medidas que se apresentavam como democratização, vinham acompanhadas de ataques que significavam continuidade com as diretrizes neoliberais. O elitismo avassalador das universidades públicas, que na altura contava com apenas 3,22% da população com acesso ao ensino superior, e uma economia internacional marcada pela alta do preço das commodities, permitia que as reformas educacionais que eram pensadas conjuntamente com os empresários fossem justificadas como “democratização”. Aqueles que buscavam uma alternativa mais radical ao projeto do PT precisavam explicar que por trás do acesso, que por si só estava longe de ser o necessário, existia todo um projeto de ensino superior e de educação em que prevaleciam a precarização das condições de trabalho e estudo, uma divisão entre universidades consideradas “centros de excelência para pesquisa” e formação de mão de obra, e, fundamentalmente, um fortalecimento sem precedentes de grandes monopólios na educação.

O ensino privado crescia graças às isenções fiscais, parcerias privadas e, às vezes, até injeção direta de dinheiro público como foi o caso do Pronatec de Dilma. No plano político, os monopólios do ensino privado aumentavam o poder político com iniciativas feitas junto aos partidos do governo e da oposição burguesa. O próprio Haddad, como aponta Mauro Sala, é cofundador do movimento “Todos pela Educação”, um conglomerado de reformadores empresariais.

O cenário não era fácil. O movimento estudantil protagonizou um conjunto de lutas, greves e ocupações contra a precarização das universidades públicas, contra os ataques à autonomia universitária, contra as iniciativas que desmontavam o tripé de pesquisa, ensino e extensão. O grande desafio era enfrentar os projetos de reformas pró-empresariais sem se isolar da grande massa da juventude sem acesso ao ensino superior ou que se endividava no ensino superior privado. O debate programático para evitar que isso ocorresse foi intenso. O próprio movimento estudantil e sindical se dividiu organizativamente entre os críticos à esquerda aos projetos governamentais e aqueles que o defendiam. Algumas alas propunham que um novo projeto de universidade tinha que ser proposto pela esquerda e pelo movimento estudantil para fazer oposição as reformas em curso. As propostas mais radicais propunham um programa de acesso radical ligado a estatização do ensino superior privado e ao fim do vestibular.

Apesar das polêmicas, o movimento estudantil não se radicalizou programaticamente e não foi capaz de barrar o fortalecimento de um projeto nacional de educação influenciado pelo empresariado. O ponto crítico com certeza pode ser considerado junho de 2013. A esquerda que havia lutado no movimento estudantil contra o petismo chegou neste momento sem um programa capaz de se ligar à massa da juventude que despertava para a política desligada do movimento estudantil tradicional.

O movimento estudantil não havia apresentado uma alternativa, mas acertou em denunciar a fragilidade do que era chamado de democratização. Quanto mais se sentia o impacto da crise econômica no Brasil, menos o regime possuía margem de manobra para aumentar concessões. Se antes as reformas viam acompanhadas da noção de democratização agora os ataques ficavam cada vez mais evidentes, fazendo que o ano de 2013 representasse o fim da ilusão no gradualismo petista.

A juventude já não acreditava na ideia de que pactos, que o equilíbrio entre as forças tradicionais da política melhorariam sua situação pouco a pouco. O que o PT apresentou como virtude se transformou rapidamente em fragilidade. O acesso à universidade estava impedido pelo endividamento crescente, a expansão do ensino federal não só se estagnou como os cortes chegaram a colocar em risco o funcionamento de muitas universidades públicas, a expansão do ensino profissionalizante que a juventude via como promessa de emprego se transformou em frustração ao ver cada vez mais claro um horizonte de desemprego ou trabalho ultra precário.

O PT foi incapaz de mudar esse quadro pois seus compromissos com a burguesia não permitiam manter, ao mesmo tempo, as concessões populares e os lucros empresariais. Apesar da demagogia, o ano de 2015 com o plano “Pátria educadora” significou a redução drástica da expansão de vagas através do Prouni e Fies, nas universidades privadas, e Reuni, nas federais. Antes do golpe, o PT já havia iniciado grandes cortes na educação, o que contribuía para evidenciar uma precarização imensa das universidades federais e gerar uma imensa dificuldade para os jovens trabalhadores nas universidades privadas devido aos cortes orçamentários no Fies.

Longe desses ataques acalmarem a direita, ela se sentia mais moralizada para tentar projetos desavergonhados e sem qualquer tipo de concessão, como foi o caso da reorganização escolar, de Alckmin, que teve como obstáculo um forte e novo movimento estudantil secundarista. Apesar dessa importante luta secundarista, o que assistimos depois foi uma radicalização ainda maior da direita, o esgotamento dos pactos protagonizados pelo PT e uma sede brutal da burguesia que culminou no golpe parlamentar. No âmbito educacional, o empresariado também se radicalizou tentando impor um plano abertamente ultraliberal, se utilizando da força que adquiriu nos próprios anos de petismo no governo. As concessões populares do PT eram frágeis, mas os benefícios e o fortalecimento da direita e dos empresários eram fortíssimos. A conclusão é que o "mal menor”, o “programa possível” e a conciliação de interesses se transformou no grande mal.

O que explica que jovens que tiveram experiências de luta contra os projetos petistas, cogitem um voto em uma via conciliadora ainda mais frágil, seja na demagogia do retorno da felicidade de Haddad ou no projeto de pais de Ciro, é o medo de uma vitória de Bolsonaro. Mas uma nova via conciliatória, uma reordenação do regime através de um novo equilíbrio, não representará um enfraquecimento da extrema direita, mas o desarme de uma vanguarda de luta.

O que não possibilitou que a esquerda independente do PT emergisse em 2013 foi a ausência de uma radicalidade programática, ainda que por uma década toda uma geração de ativista tivessem a perspectiva de construir uma esquerda alternativa ao PT. Abandonar esta perspectiva com o medo de uma vitória de Bolsonaro nas urnas é uma contradição para essa geração e pode significar perder novamente uma oportunidade em um futuro próximo. Longe de enfraquecer a extrema direita é permitir mais margem de manobra para ela, quando as contradições do novo projeto conciliatório aparecerem.

Apesar dos planos do PT de conformarem um novo pacto junto a todas as alas possíveis, a ânsia de ataque da direita vai continuar aumentando. O PT, ou outro mediador, se colocar mais uma vez como administrador do Estado capitalista traz a contradição de que agora é ainda mais difícil diminuir a velocidade desses ataques. Haddad, ou ainda mais Ciro, não só serão incapazes de reeditar qualquer plano de concessão popular como serão obrigados a ter cada vez mais a cara que a direita exigir. Estes que se apresentam como mediação serão eles mesmos a realizar os ataques. A eleição só está inaugurando a lógica que será um novo governo baseado no pacto e na conciliação: “deixa que eu faço para a direita não fazer”. A juventude que iniciou sua experiência na última década com o gradualismo petista ainda pode resgatar a perspectiva de um programa independente do PT e de qualquer ala da burguesia. É a radicalidade de uma vanguarda assim armada com um programa real de transformação que pode fazer frente a radicalidade da extrema direita. Não um novo pacto.




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