Política

XII CONCUT

Lula quer enganar quem com seu discurso no congresso da CUT?

Nesta terça-feira foi realizada a mesa de abertura do 12º congresso da Central Única dos Trabalhadores, a CUT. O congresso teve convidados especiais para sua mesa de abertura: em primeiro lugar, falou a presidente Dilma Rousseff; em seguida falou Vagner Freitas, presidente da CUT, depois foi a vez do ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica e, por fim, encerrou o debate o ex-presidente Lula, que foi a verdadeira “estrela” da noite.

Iuri Tonelo

São Paulo

quarta-feira 14 de outubro de 2015| Edição do dia

Nós vamos inverter a cena toda porque a fala de Lula indicou com muita importância o “novo discurso” empregado nesse momento. Antes de irmos ao conteúdo, no entanto, é necessário ver as “bases materiais” dessa fala: Lula definitivamente aparece como sujeito do governo, após ter sido um dos artífices por aumentar peso do PMDB na Esplanada (chegando esse partido a ganhar o poderoso Ministério da Saúde), também retomou aliados fundamentais no alto escalão ministerial, como Berzoini e Jaques Wagner.

Daí que Lula falava não como o que tinha alguma ou outra diferença de Dilma (como foi aventado por um tempo) ou como alheio ao governo. Ao contrário, um dos principais objetivos de Lula foi dar ao discurso de Dilma um conteúdo que ele não teve, dizendo que a partir daquele congresso “Dilma começava a fazer história como uma grande líder política desse país”.

E então Lula, querendo criar uma clivagem entre “o que foi feito até o passado e o que será a partir daqui no futuro”, disse que o erro foi fazer um discurso na eleição e depois na prática fazer como “um Aécio”, que ele teve a oportunidade de ensinar a Obama (EUA) e Hollande (França) que a chave do governo é fazer o que se diz nas eleições e que agora é hora de retomar a perspectiva de crescimento, da retomada do emprego, das “demandas do povo” e não da oposição ou do Bradesco ou Itaú. Em síntese, tergiversava sobre o tema do ajuste e tentou convencer que Dilma tinha esse discurso (o que passou longe de ser realidade, mas chegaremos lá).

Lula quer convencer alguém de que vai mudar a política econômica de ajuste, da qual ele mesmo foi e é totalmente paladino? Por incrível que pareça, quer. E qual é a ideia?

A chave nem era falar tanto no golpe em si, mas que Dilma deve governar e mostrou que vai ser essa liderança. Do ponto de vista da política econômica, dialogava com a CUT dizendo que o programa de crédito e consumo da central, adicionando a importância do mercado interno (que Lula deu bastante peso) deviam sair do papel e virar um programa do governo, já fazendo alusão direta ao ministro do trabalho e da previdência presente, Miguel Rossetto.

Com isso, Lula chega na sua fórmula mágica que tenta construir uma hegemonia que vai da burocracia sindical até setores da esquerda: “nós criticamos, mas somos nós que damos sustentação”.

Ou seja, Lula faz um jogo de cena impressionante para fingir um ajuste mais amigável, um giro do governo mais popular para, com esse discurso, fazer acordos mais espúrios com PMDB no governo, aplicar um ajuste ainda mais ferrenho e colocar, além da burocracia sindical que é uma aliada, setores da esquerda nesse “bloco hegemônico” contra o conservadorismo, o ajuste duro, o golpe e longo etc.

Desgraçadamente se fazia presente uma dessas personalidades da esquerda: Guilherme Boulos, o líder do MTST. Essa figura é um dos grandes articuladores da Frente Povo sem Medo, que conseguiu reunir a CUT e a CTB, MTST e movimentos sociais e partidos como o PSOL, uma jogada ofensiva petista que busca separar o discurso de "oposição aos ajustes" ao combate contra o governo do PT (bastante ao sabor da linha de Lula).

Essa é a essência do discurso de Lula, pois não pode haver dúvidas de que vão continuar aplicando um pesado ajuste (posto inclusive que a situação econômica tem se degradado cada vez mais com essa política), um discurso que só serve para disciplinar a burocracia, movimentos sociais e setores da esquerda.

Então qual foi o papel de Dilma? Novamente um discurso protocolar, mas fez sua parte do combinado. Falou do golpismo, terceiro turno, justificou as pedaladas fiscais como “atos administrativos” que todos os governos fazem e que no governo dela não tinham outro interesse senão políticas sociais (Lula já havia ido mais longe e repetiu durante a noite que as pedaladas serviam para pagar Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida).

Falou ainda dos “moralistas sem moral” e que, no “ápice” de seu discurso anti-golpismo, perguntou “Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa suficientes para atacar a minha honra?”.

Ou seja, falava do golpismo e deixava a parte do ajuste com o Lula, que sabe jogar melhor com as palavras. O fundamental era deixar tudo um pouco ambíguo, continuar com a política econômica e que Lula resolvesse o resto.

Mas ainda faltam dois interlocutores importantes: o Vagner Freitas, dito Vagnão, podemos resumir em poucas palavras: tem ajustes, temos propostas, vamos fazer as críticas...mas no fim estamos juntos (que é o que fazia Lula vibrar em seu discurso). O "programa econômico alternativo" da CUT, frente aos ajustes de Dilma, serve para deixá-la de pé no palco dos ajustes, controlando as demissões e ataques na indústria.

O outro é o já “célebre” Pepe Mujica, que tem levado legiões nas universidades para ver seus discursos.

Ele cumpria um papel importante para o conjunto da obra. Um porque falava em coisas como “combater a cultura burguesa”, “aprender a navegar numa sociedade de classes, os que sonham com uma sociedade sem classes”, falava contra o capital financeiro etc. Dava um adorno bastante de esquerda, mas deu entre sua forma particular de falar uma base fundamental pra Lula e Dilma: dizia que ele já caiu muitas vezes na vida, e que “a pior batalha que se perde é a que não se luta”. Ou seja, a fórmula ideológica perfeita para o discurso geral de Lula, que era: sofremos alguns ataques, tombos, retrocessos até aqui, mas vamos levantar a cabeça.

Mujica, que é um dos menos afetados entre os governantes latinoamericanos parte do fenômeno "pósneoliberal" em decadência, governou o executivo burguês uruguaio contra as greves de professores que reprimiu, e sabe o valor que é conter a luta de classes no país. Parabeniza um governo que finge estar assediado por uma base de direita que ele mesmo alimenta e promove, apoiado internacionalmente por seres inapresentáveis como Daniel Scioli, candidato de direita do kirchnerismo nas eleições argentinas, e toda uma série de governos capitalistas em decadência no Cone Sul.

Voltando ao Brasil, só nas frases poéticas de Mujica e no discurso de Lula a realidade pode aparecer assim, prestes a uma mudança positiva com esse governo. Com um país que alguns economistas diziam que pode chegar a 10% de desemprego, recordes de inflação, 40% da população adulta vivendo inadimplência, demissões massivas em fábricas, um PIB que retrocede já no mínimo 3%, o discurso, as metáforas e o jogo de palavras pode "atrair" alguns setores da esquerda organizada (como MTST e PSOL, que acabam dando cobertura de esquerda para a política de Lula) e fazer o sabor da burocracia sindical (CUT e CTB), mas está longe de convencer os trabalhadores e a juventude do país.




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