Política

SOBRE A CONDUÇÃO COERCITIVA DE LULA

Lula discursa para tentar erguer uma “resistência petista” (que deve “militar” ignorando os ataques de Dilma)

Logo ao sair da polícia federal Lula discursou em um tom mais duro que o comum. Estava ladeado pelas presidentes da UNE e das UBES, simbolizando um elemento fundamental de seu discurso: o ex-presidente estaria à disposição dos militantes governistas para correr o país para tentar despertar uma militância. Deixou claro isto afirmando “Eu quero dizer aqui à CUT, ao PT, aos Sem Terra, ao PCdoB que, a partir da semana que vêm, me convidem que eu estarei disposto a andar esse país fazendo manifestação”.

Leandro Lanfredi

São Paulo | @leandrolanfrdi

sábado 5 de março de 2016| Edição do dia

Lula esforçou-se para vender uma imagem de retornar aos tempos da fundação do PT com mais militância olho no olho, no bairro. Contou como fazia comícios para poucas pessoas, e para erguer seu próprio papel “pulou” o papel de centenas de milhares de operários que mantinham um sonho de um partido “independente dos patrões e dos generais”. Este mesmo partido que se aliou inseparavelmente dos Sarney, Maluf, de Kátia Abreu, das Odebrecht e Camargo Correa do país agora fala em retorno a sua origem, saltando este “pequeno” elemento enterrado há décadas. O PT se encastelou em burocracias sindicais, parlamentares, ministerais sob o mando e condução de Lula e seus mais próximos aliados (muitos deles atingidos em outros escândalos como Dirceu, Genoíno, Palocci). É possível este retorno?

Sob ataque, é possível surgir uma “resistência petista”? Uma militância verdadeira, voluntária, pensada, de dedicar a vida a grandes causas. É possível militar sem se enfrentar com problemas da realidade que tocam os trabalhadores, entre eles a reforma da previdência defendida por Dilma, o aumento do desemprego, a entrega do pré-sal, é possível “militar” só em defesa de Lula e um governo indefensável (segundo o próprio petismo no dia seguinte a votação do PLS 131 mediante acordo de Dilma-Serra-Renan)? Não falta elementos a odiar da direita, de Sérgio Moro, do imperialismo, mas há algo do lado petista a animar, um sonho a conduzir a vida?

Um sinal para a burguesia: blefe?

Acuado pela operação que atingiu ele mesmo, seus familiares e colaboradores mais próximos, como Clara Ant e Paulo Okamotto, Lula resolveu mostrar a Moro e a setores da burguesia que tem utilizado a Lava Jato não só para promover interesses imperialistas mas para atingir o ex-presidente e ao PT, que atacar Lula pode sair mais caro para a estabilidade do país.

Os enfrentamentos ocorridos hoje também marcariam este “alerta”. Ainda está para se ver quanto a burguesia ficou assustada com isto e quanto irá se desenvolver uma “resistência petista”. Blefe?

Uma ameaça do mesmo tipo foi feita por Lula no auge do mensalão. Naquele momento discursou na porta da Mercedes-Benz em Santo André chamando a resistir ao golpe. Para armar esta “resistência” é preciso um discurso, parte disto foi o que Lula tentou fazer hoje.

Armando um discurso de profunda mudança do país: o que pode ser mostrado e o que deve ser escondido

O discurso para criar uma mística de resistência teve 3 elementos que se misturavam e tinha como objetivo final mostrar que sob seu comando o país havia mudado estruturalmente, teria passado uma revolução. Os três elementos foram: mostrar sua origem humilde e como esta humildade persistiria (através de diversas anedotas sobre vinho e coisas que ele não saberia o nome); como seus inimigos querem puni-lo por ter feito um governo que teria erguido as capacidades de consumo e de acesso ao estudo dos pobres e por fim por nomear, mais agressivamente, o papel da mídia em atacá-lo.

O ataque à mídia e a justiça, ambos rigorosamente fortalecidos durante 14 anos de governo petista, vem crescendo dia a dia. E é evidente o papel manipulador da Rede Globo. O judiciário conduzir forçosamente um poderoso ex-presidente sem que ele tenha sido condenado é parte de um fortalecimento de instituições “bonapartistas” do Estado que se voltam e voltarão com muito mais força aos cidadãos comuns.

Destilar raiva contra a Globo e os abusos da justiça brasileira é um ponto pacífico não há quem de esquerda possa se opor, mas Lula não pode mencionar como seu governo financiou mês a mês os oligopólios midiáticos, como foi seu governo que foi dando autonomia a PF, como foram seus ministros da justiça Jobim e Thomas Bastos que contribuíram à autonomia do Ministério Público. Como foi a reforma da justiça sob seu comando, ainda no primeiro mandato que fortaleceu o STF. Lula não falou como seu governo e o de Dilma contribuíram para que a AGU, TCU, MPF, PF e cada força judiciária e repressiva se fortalecesse como verdadeiras castas incontroláveis, que se controlam a si mesmas (com “Comissões Nacionais” onde os próprios juízes opinam sobre si mesmos, os procuradores sob si mesmos, etc) e que com tanto autonomia agora resistem até mesmo a mecanismos da democracia burguesa como os “pesos e contrapesos” sejam aplicados. Agora a PF, MPF, e a AGU, protestam que Dilma estaria nomear chefes sem que os “poderosos” dali sancionem, maior exemplo disto seria a negativa destes setores em aceitar um novo ministro da justiça e de aceitar Cardozo como chefe da AGU.

Alimentaram as cobras agora elas se voltaram contra o PT. E atingindo até mesmo um ex-presidente, amigo de empresários, bem-recebido por estadistas em outros países, podemos imaginar o que esta força significará em uma greve, a cada Amarildo deste país.

Um relato “heroico” dos anos de governo que foca no consumo, no PROUNI, Pronatec, mas não menciona o crescimento exponencial do trabalho precário nestes mesmos anos, como os grandes empresários da educação lucraram bilhões com o PROUNI e para piorar não fala que estes mesmo programas estão em extinção debaixo dos ajustes de Dilma. Como erguer o relato apoiando-se no Pronatec, quando ele agora é um sexto do que a dois anos atrás. É possível “militar” só de passado? Lula aposta que sim. Veremos se o proletariado também, ou se ao menos a burguesia se assusta com a ameaça de Lula e o petismo. Os próximos dias responderam as duas perguntas.

De nossa parte, apostamos no futuro. É preciso desenvolver as lutas que os trabalhadores e a juventude tem erguido contra os ajustes. A vitoriosa luta dos estudantes secundaristas de São Paulo contra o tucano Alckmin marcam o caminho. Agora estão em pé de luta os estudantes do médio carioca junto aos professores e outros setores do funcionalismo daquele estado. Destas e outras lutas contra os ajustes é preciso erguer um grande movimento que barre os ataques de cada governo municipal, estadual e do governo Dilma, mas que também unifique esta luta contra os ajustes a uma luta contra a impunidade e a corrupção e avance a questionar todo este regime podre de mensalões, petrolões, merendões, trensalão, etc. Para nós esta luta se concretiza através de impor uma Assembleia Constituinte baseada na mobilização, que questione os privilégios dos políticos, dos juízes, mas também avance sobre a entrega dos recursos naturais ao imperialismo, sobre as grandes fortunas e debata as grandes necessidades do povo brasileiros tais como saúde, educação, moradia.




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