Cultura

Livros, panfletos e autores militantes

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 10 de junho| Edição do dia

“ Livros sim, armas não “. Esta tem sido uma das palavras de ordem em que o conhecimento, a leitura, são entendidos enquanto armas contra o atual governo, contra todo um reacionarismo muito mais nocivo do que aquelas traças gordinhas que se alimentam das memórias impressas. A referida palavra de ordem é proferida por estudantes, professores e trabalhadores num contexto histórico em que ler e escrever tornam-se, mediante as novas formas de produção do conhecimento, atividades que só podem amedrontar mentes conservadoras. Quem estuda, quem pesquisa, sabe questionar. No atual momento , produzir literatura ou escrever sobre, assemelha-se cada vez mais ao ato de fazer e pensar a história.

Desdenhar o pensamento crítico e reprimir aqueles que o produzem, são características recorrentes dos regimes políticos que lidam com a cultura na mesma profundidade que um pires. Hitler mandou atear fogo em uma série de livros na Alemanha nazista. Durante os primeiros momentos da ditadura do Estado Novo no Brasil, romances de esquerda foram queimados em praça pública. No período da ditadura militar, ocorria verdadeiras batidas policiais em repúblicas de estudantes: agentes buscavam livros e materiais impressos tidos como subversivos. Ás vezes nem era preciso que este material fosse propriamente portador de ideias políticas de esquerda, já que um livro de Física cujo título fosse “ A Revolução da mecânica “ ou que simplesmente ostentasse uma capa vermelha, eram motivos suficientes para apreender o material. Como se vê, ao longo da história, o braço armado do Estado pertence muitas vezes a um corpo sem cérebro. Nos nossos dias, em que a Educação e a pesquisa encontram-se ameaçadas, o livro impresso coexiste com uma avassaladora proliferação de palavras no contexto digital.

A leitura de um livro ou de qualquer texto substancioso, requer dedicação. Quem deseja aprofundar suas leituras precisa desaparecer diariamente por algumas horas numa biblioteca, no fundo de uma praça ou no silêncio de um quarto/escritório. Esta conduta intelectual existe num momento em que as palavras ficaram desobedientes: as palavras não ficam mais quietinhas numa página de papel. Elas desenvolveram uma musculatura própria em que as letras passaram a saltar por diversos suportes, valsando com imagens e trajando-se com diversos sons. Todavia estas profundas transformações culturais não podem substituir o livro: não é uma questão de apego emocional aos livros, mas a constatação de que abrir mão de leituras densas( que apresentam uma unidade temática e estilística) significaria encurtar o alcance do pensamento. O Capital de Marx ou A Comédia Humana de Balzac, não poderiam existir como resumos: é preciso ler página por página. Do ponto de vista crítico não existe razão para opor os livros as novas mídias, já que ambos se complementam, se articulam: quem se descobre como autor, como produtor de textos nos meios digitais , sente naturalmente a necessidade de mais informações, sente a necessidade de ler livros. É nesta dialética que surgem escritores que realmente tem algo a dizer. Sabe-se que esta situação histórica modifica não apenas a arte da escrita como o próprio conhecimento no interior da luta de classes.

Quando empunhamos nossas bandeiras e proclamamos nossas palavras de ordem numa passeata, num ato público, não somos mais apenas objetos de terceiros que filmem e escrevem sobre o que se passou. Todos os presentes numa greve podem registrar e relatar com seus celulares o ocorrido a partir de uma clara posição política: o militante de esquerda é cada vez menos objeto de narrativas e cada vez mais narrador.

O testemunho lírico, o olhar sociológico e a cobertura jornalística existem sob essas novas condições produtivas. Se isto revolucionar o jornalismo, apresentando fecundos instrumentos de luta na guerra da informação, a literatura também embarca nessa: misturada com as novas mídias, mergulhada na política, a atividade literária é ação sensível direta no combate anticapitalista. Não existem motivos para o ficcionista ou o historiador que lidam com os conflitos da era contemporânea, ficarem sentados esperando que os documentos históricos saltem nos seus colos. Os documentos históricos tendem a correr pelas ruas, pelos celulares, pela boca do militante que dissemina a crítica. É preciso saber apropriar-se destas fontes históricas e usa-las publicamente na luta contra o conservadorismo.

Livros e panfletos, periódicos e vídeos, estão cada vez mais sob o controle de quem contesta a classe dominante.




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