100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

’Lenin era um doente mental e Trotski um assassino’ segundo a Globonews

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 2 de novembro| Edição do dia

Na opinião da GloboNews e mais especificamente do seu tradicional programa de notícias [notícias??] o Manhattan Connection, eis o seu diagnóstico sobre os dois dirigentes da Revolução Russa: Lenin é um caso psiquiátrico [“doente mental”] e Trotski [“um assassino”] um problema a ser resolvido pelo direito penal, pela criminologia. Esse tipo de conteúdo foi ao ar dias atrás.

Ou seja, no mês da Revolução Russa, em programa exibido no dia 30 de outubro passado, os titulares do programa Manhatttan Connection pautaram a Revolução Russa para explicar para o mundo “ilustrado” que lhes dá ouvidos, todo um rosário de “fatos históricos” que não passam da mais pura ideologia.

O nível mental daquele anticomunismo não vai além de frases de efeito que não precisam de explicação, de análise, de nada. Basta afirmar, rotular, e pronto, a “explicação” está dada. O rótulo substitui os fatos. Essa particular explicação “histórica” de parte da Globo é o que é, disso as pessoas mais conscientes já sabem. No entanto, como é repetida mil vezes e de diferentes formas, em diferentes horários e lado a lado com seu discurso pretensamente liberal e temperado com uma tonelada de inverdades, merece um rápido comentário de nossa parte.

***

Quando as massas tomaram o poder na Rússia, sob a liderança do partido bolchevique, decretaram, em poucas horas, as medidas estruturais que nem o tzarismo e nem o governo provisório, “socialista”, quiseram tomar em tempo algum e nem com todo o tempo do mundo: resolver o problema dos sem-terra, da democratização da terra e tirar o país da grande carnificina mundial, da qual os grandes ganhadores eram as grandes democracias ocidentais tipo Inglaterra, Estados Unidos. “Democracias”, aliás, que a Globo sempre exalta. E Revolução Russa que ela escracha sempre que pode.

Mas a verdade dos fatos é que, imediatamente à tomada do poder, aquele Estado dos trabalhadores tomou medidas a favor da emancipação da mulher que nenhum país capitalista liberal jamais tomou. Nem os ricos Estados Unidos, sequer, jamais tomaram as medidas em favor da mulher e da criança que a empobrecida Rússia, sob a direção bolchevique tomou naquele momento. Esse é o fato histórico, sem rótulos, digamos.

Mas não importa: o que interessa é que aquela revolução era dirigida por “um doente mental” e seu parceiro, um criminoso.

Quando o general fascistóide Kornilov lançou um golpe de Estado contra o governo provisório de Kerenski, cujo desfecho teria sido uma carnificina tipo Pinochet, Videla ou qualquer totalitário que o liberalismo ocidental – tipo a Globo - termina apoiando, a resposta dos bolcheviques foi imediata: se levantaram em armas em defesa das conquistas operárias, da democracia operária. A mesma que estava diretamente ameaçada por um general ensandecido e, naturalmente, armado.

Mas que importam os fatos? Para que examinar fatos? O determinante é que Lenin era doente mental e Trotski um malfeitor.

Quando os sovietes, eleitos por aclamação pelo povo pobre, pelo proletariado, soldados e camponeses, decidiu, por ampla maioria [em seu II Congresso nacional] enterrar o governo provisório e fundar o Estado dos trabalhadores, em seguida da insurreição de Outubro, esta decisão, inegavelmente democrática, popular, inequivocamente livre, inaugurou, na história humana o mais democrático dos parlamentos, o parlamento soviético, sem divisão de poderes. E que, ali, retomava a tradição da Assembleia unicameral da Revolução Francesa e, sobretudo, o parlamento operário da Comuna de Paris. Portanto, um fato histórico memorável para a história da classe trabalhadora.

Que importa isso para a grande mídia tipo rede Globo? O que importa é que coisas desse tipo não podem aparecer na TV, nos livros de história: no que depender da Globo, não e não.

O que ela promove e divulga – como vimos mais uma vez no GloboNews - é, afinal de contas, o essencial para a retrógrada classe dominante brasileira: os dirigentes daquele primeiro Estado operário da história ou eram loucos ou infratores da ordem, celerados. A Revolução Russa não deveria existir.

Quando os métodos da planificação da economia, uma vez confiscado o grande capital, possibilitaram que o país mais atrasado daquele canto do mundo se desenvolvesse ao ponto de virar segunda potência mundial, que importa isso? Que importa demonstrar, para além de O capital, de Marx, demonstrar na prática, que o capital é a mais decisiva trava ao progresso humano? Que importa que – apenas depois de confiscado o grande capital – os bolcheviques tenham logrado a alfabetização total, saúde para todos, níveis altíssimos de desenvolvimento da ciência, que importa tudo isso se seus fundadores eram loucos e marginais? O que importa é o que a Globo quiser rotular, o decisivo são as frases de efeito dos senhores da Casa Grande, digo, grande mídia, com seu pensamento único.

Quem não conhece a Globo dos rótulos fáceis e sempre a serviço dos mais ricos, da “família” e da tradição [burguesa]? Ela nos rotulava de subversivos, nos anos 1970, vocalizando a ditadura, funcionando como partido político da ditadura militar. Quem viveu aqueles tempos e não lembra disso? Quem não sabe que a Globo virou o gigante midiático, enriqueceu, por conta dos seus serviços e acordos com a ditadura cívico-militar de 64? E cá entre nós: por que a Globo precisaria buscar fatos e análises, se tudo que ela necessita, com o alcance de público que tem, é fabricar um discurso de ocasião, a serviço do poder?

Os trabalhadores terem levantado, pela primeira vez na história, seu Estado, da forma mais democrática jamais vista, que importa isso? Para mídias tipo Globo jamais passará de um mau exemplo. Por isso o que mais importa é repetir dia e noite [lembram do ditado de que “uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade”?] que a Rússia bolchevique era um país de loucos e criminosos que era preciso invadir, sufocar. Que era preciso esmagar, forçar privações extremas e inomináveis, até que ela afundasse, de preferência, em algum tipo de deformação política funcional ao capitalismo.

Que importa o papel sujo e sangrento das “democráticas ocidentais”, liberais de palavra e antidemocráticas e totalitárias nos fatos? Que importa se quando a Rússia declarou paz unilateralmente, aquelas democracias seguiram em guerra contra a Rússia? Que importa tudo aquilo se a Globo já dispõe do capital e da hegemonia midiática cativos para poder dizer que os bolcheviques “usavam o povo como instrumento” [afirmação do citado Conexão Manhattan], coisa que a Globo, ela sim, pratica todos os dias [manipulação]? Que importa que as massas pobres e o proletariado tenham assaltado os céus e tenham imposto, contra a vontade divina do tzar e do grande capital que dominava a Rússia, o primeiro Estado dos trabalhadores?

Que importa tudo aquilo, que importam os fatos ou a história real?

Ou alguém mais sério ainda acha que a Globo liga para os fatos? Os fatos estão aí para serem omitidos, torturados, afinal de contas o papel da grande mídia, esta sim, mídia “com partido”, é operar como um panfleto político - de direita claro -, para manter o povo brasileiro o mais dopado e intoxicado possível, o mais alienado possível, sem qualquer conexão com a realidade. Sem qualquer conexão com a crítica da realidade injusta e cruel do capitalismo que a Revolução Russa tão bem ajudou a desmistificar e a provar que podemos mudá-la; e que podemos transformar tudo, de cima a baixo, pela simples expressão da vontade política nossa, do proletariado organizado como poder político.

Crédito de imagem [cor alterada]: slideshare.net




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