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Knobel vence consulta à reitoria da Unicamp

Aconteceu nos dias 15 e 16 de março o processo de consulta para o cargo de reitor da Unicamp. Um processo extremamente antidemocrático do qual o professor Marcelo Knobel, candidato apoiado por setores de direita, foi o mais votado.

quarta-feira 22 de março de 2017| Edição do dia

O processo de Consulta para a reitoria da Unicamp foi concluído na madrugada do dia 17 de março, com menos de duas semanas da volta das aulas na universidade e recepção dos estudantes ingressantes. Como já denunciamos em nota desse portal, trata-se de um processo profundamente anti-democrático, onde a opinião dos estudantes parece não importar. Além de não ser uma eleição, mas uma consulta com martelada final a cargo de Alckmin, o peso estudantil é de apenas 20% nesse processo. A não preocupação com a participação dos estudantes pode explicar a minúscula adesão e os mais de 92% de abstenções. Mas de maneira alguma deve ser tratada como uma completa apatia ou passividade da nossa parte, já que movimentamos a política da universidade com uma greve massiva de mais de três meses no ano passado.

O resultado da Consulta foi decidido já no primeiro turno e o professor Marcelo Knobel foi o mais “votado” com cerca de 52%, com mais que o dobro dos “votos” de professores (que possuem 60% de peso), com relação à segunda candidata mais “votada”, Rachel Meneguello, e praticamente empatando com ela nas quantidades de “votos” de funcionários e estudantes (que possuem 20% de peso cada categoria). Agora a lista tríplice será encaminhada ao Conselho Universitário, que poderá decidir se mantém a ordem das urnas, a saber Knobel, Rachel e Magna como primeiro, segundo e terceiro lugares respectivamente. Após a decisão do CONSU a lista será mandada para decisão final e de fato, pelo governador Geraldo Alckmin.

Chamou atenção, além da baixa adesão dos estudantes, o alto número de abstenções, mais de 30%, e de “votos” nulos entre os funcionários, sendo que dos cerca de 5 mil participantes da Consulta, mais de 500 não escolheram nenhum dos candidatos. Mas, o que esses números podem indicar? O que podemos esperar da nova provável gestão de Knobel até 2021? E qual deve ser a nossa postura enquanto estudantes, após esse processo que tão pouco nos incluiu, mas que poderá resultar em importantes impactos nas decisões e rumos políticos da universidade daqui para a frente?

Knobel: Um reitor à altura das expectativas da direita conservadora

Dentro e fora da UNICAMP existem grandes interessados pelos rumos políticos da nossa universidade. Assim como vemos a campanha diária do Estadão para que a USP ataque o movimento sindical, estudantil e se enfrente contra os estudantes, funcionários e professores que defendem um modelo de universidade pública e crítica socialmente, vimos que a grande mídia regional, em especial pela via da Band, se associou ao MBL e à direita mais conservadora para numa campanha contra a importante mobilização que protagonizamos ano passado contra os cortes e a favor da implementação imediata de uma política de cotas-étnico raciais.

Knobel foi apoiado pelo professor Serguei Popov, famoso por ter junto ao MBL organizado uma campanha contra estudantes grevistas, e essa já é uma indicação da sua boa recepção também pela direita que se organiza dentro da universidade. Apesar das contradições de terem setores importantes de professores da esquerda também em seu apoio, acreditamos que sua conquista em 1º turno, seu “compromisso de uma busca de alternativas para a crise junto a parcerias público-privadas” mostra quais alianças o futuro novo reitor priorizará, os riscos à universidade pública que ele demagogicamente diz defender. A aliança com a privatização traz prejuízos ao ensino e pesquisa ao colocar estas atividades centrais nas mãos de empresários e multinacionais comprometidos apenas com seus próprios lucros, além de ter como efeito imediato a inversão de prioridades, desvalorizando os trabalhadores e até reforçando a ideia de eliminação de cursos “não atrativos”, entenda-se “não-lucrativos”. Essa ameaça intensifica ainda mais a distância enorme entre a Unicamp e a população que deveria ter o direito de ser parte e usufruir da sua produção de conhecimento, mas que na verdade está completamente de fora do seu projeto atual.

Estudantes e trabalhadores: devemos tomar os rumos da Unicamp nas mãos

Em assembleia, os funcionários decidiram pelo voto nulo e chamaram à construção de uma anti-candidatura que colocasse em pauta um outro projeto de universidade que superasse essa inversão. Parte de nós estudantes apoiamos e construímos conjuntamente esse espaço de discussão ativamente em meio à Consulta. Denunciamos a antidemocracia do processo, alertamos para o significado nocivo das candidaturas da direita e também criticamos os limites estruturais da candidatura da esquerda. Buscamos mostrar como nós estudantes devemos nos aliar aos trabalhadores da universidade, funcionários efetivos e terceirizados, bem como professores comprometidos com a defesa da universidade pública de fato e críticos aos privilégios para que tomemos em nossas mãos o futuro da universidade.

Esse ano começou com a retomada da nossa luta pelas cotas étnico-raciais na Unicamp, com atividades de recepção aos ingressantes aprofundando ainda mais os debates acerca dessa luta e do combate anti-racista na universidade. Construímos junto ao Núcleo de Consciência Negra da Unicamp a II Marcha Anti-Racista para deixar o recado da nossa disposição de luta para arrancar as cotas e questionar a estrutura de poder elitista e racista da Unicamp.

Em um momento nacional de aprofundamento dos ataques, com a disputa pelo governo golpista de Temer para aprovar a Reforma da Previdência, vemos que as universidades públicas também estão ameaçadas. É o que explica a ameaça de fechamento da UERJ e o que, aqui ao nosso lado, mostra a tentativa de ataques profundos à USP com a já chamada “PEC do Fim da USP”. Nossa luta se insere ofensivamente nesse contexto e a exigência de acesso à juventude negra também marca o combate contra o projeto de educação e de país que é servil aos setores mais conservadores e aos grandes capitalistas, do qual Knobel e a alta burocracia do Conselho Universitário Feudal da Unicamp são parte.

Foto: Antoninho Perri




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