Gênero e sexualidade

LUTA PELA LEGALIZAÇÃO DO ABORTO NA ARGENTINA

Katy Balaguer: “Porque amamos profundamente a vida, lutamos também por mudar tudo desde a raiz”

Catalina “Katy” Balaguer, uma das “leoas” da PepsiCo, que resistiu a repressão policial para desocupar a fábrica onde trabalhava, expôs seus fundamentos a favor da legalização do aborto nas audiências que que estão sendo debatidas com os deputados argentinos. Transcrevemos aqui sua intervenção.

quarta-feira 23 de maio| Edição do dia

Catalina Balaguer, trabalhadora demitida da PepsiCo expõe à comissão pelo #AbortoLegalJá – Youtube

Meu nome é Catalina Balaguer. Eu sou uma operária. Fui uma dos 600 trabalhadores que lutaram contra o fechamento e demissões na PepsiCo e que foram expulsos com a repressão comandada pela governadora María Eugenia Vidal. Sou parte do grupo de mulheres Pão e Rosas e do Partido Socialista dos Trabalhadores na Frente de Esquerda.

Não quero deixar de me referir ao fato de que esse debate está ocorrendo agora no contexto de novas demissões, ajustes e tarifaços, bem como de negociações com o FMI que só trarão mais fome e miséria para as famílias trabalhadoras. E sabemos que isso afeta duplamente as mulheres.

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Com a deputada do PTS Nathalia González Seligra PTS/Frente de Esquerda

Eu também os ouvi falar sobre os direitos "do feto". Deixe-me dizer-lhes que a Igreja, que também veio aqui discutir com vocês as alegações que aqui expõem, é uma instituição denunciada à exaustão pelo abuso de crianças e por acobertar seus membros acusados por esses crimes.

Ao longo dessas semanas, ouvi todos os tipos de motivos pelos quais o direito à interrupção da gravidez não deveria ser legalizado. Antes de mais nada, quero me referir àqueles que são contra, aqueles que são hipocritamente chamados de pró-vida. Esses não fizeram outra coisa senão enfatizar o desprezo pela vida das mulheres da minha classe, trabalhadoras e pobres, que morrem por abortos clandestinos.

Objetificam as mulheres como máquinas de reprodução, como se fôssemos ignorantes por sermos pobres, como se por causa das nossas necessidades não pudéssemos decidir sobre nossos corpos. Querem que nós, que defendemos a legalização do aborto, sejamos vistas como assassinas.

Eu também os ouvi falar sobre os direitos "do feto". Deixe-me dizer-lhes que a Igreja, que também veio aqui discutir com vocês as alegações que aqui expõem, é uma instituição denunciada à exaustão pelo abuso de crianças e por acobertar seus membros acusados por esses crimes. Mas, o que se poderia esperar dessa Igreja que foi responsável por encobrir, confessar e perdoar os militares quando eles torturaram, estupraram e desapareceram com mulheres grávidas? Eles carecem de toda autoridade moral para falar do direito à vida. Portanto, além de exigir a legalização do aborto, dizemos "Fora das mãos da Igreja este debate pelos nossos direitos. Separação entre Igreja e Estado! "

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Com deputado Nicolás del Caño, deputado do PTS/Frente de Esquerda

Trabalhei com companheiras que vinham à fábrica enfaixadas, para que não vissem a barriga da gravidez que, embora fosse desejada, poderia ser motivo de demissão. E com outras companheiras que perderam a gravidez devido aos ritmos exaustivos da produção.

Aqueles que são contra o direito ao aborto, também dizem que "o ser humano nasce livre e igual aos outros". Nossas vidas e as dos nossos filhos não são livres nem iguais. Quando eu era jovem, trabalhava como empregada doméstica em uma casa onde, durante minhas horas de trabalho, eles deixavam uma arma à vista para me ameaçar. Então passei a trabalhar em fábricas. Como muitas trabalhadoras, me levantava às 4 da manhã para ir trabalhar, em muitos casos por mais de 10 horas.

Companheiras trabalhadoras solteiras ou com seu companheiro desempregado, para poder alimentar nossos filhos, vivemos todo tipo de abusos: sejam para exigir produtividade acima do que podemos fazer, seja com abusos sexuais de chefes e supervisores, que sob a ameaça de desemprego se não concordarmos.

Deixava minhas filhas sozinhas, enquanto trabalhava 16 horas e mal conseguia cuidar delas. Trabalhei por muitos anos na indústria alimentícia, com companheiras que praticamente moravam na fábrica para conseguir comprar sapatos para que seus filhos não tivessem que passar outro inverno usando chinelos.

Trabalhei com companheiras que vinham à fábrica enfaixadas, para que não vissem a barriga da gravidez que, embora fosse desejada, poderia ser motivo de demissão. E com outras companheiras que perderam a gravidez devido aos ritmos exaustivos da produção. Trabalhei com mulheres as quais os patrões mandavam embora, mesmo muito jovens, porque seus corpos estavam "quebrados" demais para continuar sendo explorados. Trabalhei com companheiras às quais a multinacional PepsiCo colocou em uma gaiola separada do restante de nós quando o médico disse que elas não podiam mais estar na linha de produção devido a doenças ocupacionais e não podiam ser demitidas.

Tive que ajudar colegas de trabalho a aliviar a dor dos seios endurecidos, por ter que voltar à produção e a não poder amamentar. Eu trabalhei com companheiras que queriam ter filhos e não podiam, enquanto nos intervalos líamos revistas onde as mulheres ricas e famosas podiam acessar métodos de fertilização assistida que eram inacessíveis às trabalhadoras. Íamos a consultórios onde os médicos “defensores da vida" se recusaram a fornecer anticoncepcionais ou colocar o DIU gratuito, mas o faziam em clínicas particulares.

Trabalhava e sofria por não ser capaz de segurar minhas filhas por causa das doenças musculoesqueléticas causadas pelos ritmos de produção. Nossas filhas e filhos não têm educação sexual nas escolas. E muitos outros apenas vão à escola para comer. E outro tanto não vai mais à escola porque têm que conseguir emprego.
As difíceis condições para se ter acesso a um aborto seguro são a dura prova do que eu digo, nós não somos iguais! Algumas de nossas companheiras e suas filhas morreram devido às consequências de um aborto clandestino. O Estado é responsável por esse feminicídio silencioso.

A vida das mulheres da classe trabalhadora, a das nossas jovens filhas, não é igual à vida das gestoras como a CEO da Pepsico, não é igual a dos empresários. É por tudo isso que nós, as trabalhadoras, nos organizamos para lutar por nossos direitos, contra todos os tipos de machismo, opressão e exploração e o fazemos junto com nossos companheiros. E um exemplo disso foi que, na empresa Pepsico, junto aos nossos companheiros, conseguimos que a empresa pagasse creches, carreiras para mulheres, melhores condições de trabalho e licenças para companheiras grávidas e que toda a fábrica paralisaria o trabalho nos chamados para NiUnaMenos (Nenhuma a menos). Esses pequenos exemplos mostram que somos, verdadeiramente, pelo direito à vida. Porque nossas vidas valem mais que seus lucros.

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Na sala de audiências do anexo do Congresso Nacional

Porque amamos profundamente a vida, também lutamos para mudar tudo, desde a raiz. Porque somente tomando essa luta das exploradas e dos explorados, podemos dizer que teremos uma vida que vale a pena ser vivida.

É óbvio que, se estamos aqui, é por causa de nossa luta, por causa da firmeza profunda de nossa reivindicação, dessa luta do movimento de mulheres que vem sendo travada há anos e à qual nenhum governo deu uma solução. Portanto, como trabalhadora, militante feminista socialista, há poucos dias depois da votação da lei, gostaria de convocar as trabalhadoras e também meus companheiros de trabalho, as jovens estudantes e tantos que acompanham nossas reivindicações, a redobrar nossos esforços na luta e na mobilização para conquistar o direito ao aborto. Temos de nos mobilizar, como fazemos há anos, já que essa foi a ferramenta que nos trouxe aqui no centro do debate. Insistimos novamente "Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar e aborto legal para não morrer".

Porque amamos profundamente a vida, também lutamos para mudar tudo, desde a raiz. Porque somente tomando essa luta das exploradas e dos explorados, podemos dizer que teremos uma vida que vale a pena ser vivida.




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