Gênero e sexualidade

29 DE SETEMBRO

Junto ao PT, PSOL defende transformar ato em palanque eleitoral com todas as presidenciáveis

O combate à extrema-direita e a Bolsonaro defendido pelo PSOL não mantém uma importante premissa: a independência de classe.

Grazieli Rodrigues

Professora da rede municipal de São Paulo

sexta-feira 28 de setembro| Edição do dia

Militantes do PSOL e do MTST junto ao PT, em reunião de preparação do ato de mulheres, defenderam que figuras tão escravistas e reacionárias quanto o próprio Bolsonaro tenham espaço para falar no dia 29, como a amiga dos latifundiários Ana Amélia, vice de Geraldo Alckmin. Cada vez mais se mostra que, longe de combater a extrema direita, a política do PSOL, ao defender que representantes políticas da burguesia machista e racista apareçam como porta-vozes da luta das mulheres, defende uma unidade sem critérios que é funcional à política de conciliação de classes do PT com os golpistas e capitalistas, aliando-se a quem se sustenta sobre suor e sangue de milhões de mulheres trabalhadoras.

Ana Amélia, do PP, golpista apoiadora da ditadura militar e vice de Alckmin, que aderiu na televisão à campanha #EleNão, defendeu no Senado os atentados à caravana de Lula em março deste ano, dizendo que era hora de “levantar o chicote [rebenque] para mostrar o Rio Grande” ao povo que defendia um "condenado" em suas palavras, no caso Lula. Chegou a dividir partido com Bolsonaro. Também Marina Silva, golpista, financiada pelo Itaú, coloca-se abertamente em defesa das reformas de Temer e contrária à legalização do aborto. Por outro lado, Kátia Abreu, do PDT, “rainha do agronegócio”, é vice de Ciro Gomes, conhecida pela “motosserra de ouro”. O que todas elas têm em comum? Que não estão ao lado das mulheres trabalhadoras, pobres e negras que mais sofrem com as crises capitalistas e este sistema de exploração.

Em meio a essas eleições manipuladas pelo judiciário golpista, que se apóia na crescente politização das Forças Armadas, são esses os setores a quem o PSOL defendeu, junto ao PT, espaço no ato de mulheres no próximo sábado. Na prática defendem que Sônia Guajajara divida palanque com Kátia Abreu. Vale lembrar que foi também com o PDT de Kátia Abreu que o PSOL assinou o Manifesto programático “Unidade para Reconstruir o Brasil” no início deste ano, que nós criticamos duramente. Nada mais na contramão do combate à extrema direita.

Não suficiente, o PSOL também defendeu que apenas as candidaturas, com suas presidenciáveis e vices, tivessem voz, calando assim milhares de trabalhadoras, jovens e estudantes que quisessem se expressar. Vemos o PSOL defender por conveniência uma política que considera fazer frente com setores reacionários em nome de supostamente combater um “mal maior” (a extrema direita). Só não consideram que Bolsonaro não caiu do céu. Muito pelo contrário, teve seu caminho aberto pelo próprio PT que, em seus 13 anos governando com a direita e com a burguesia, rifando os direitos das mulheres, fortaleceu o judiciário golpista e abriu espaço para o golpe institucional, o que, por sua vez, tem como um de seus subprodutos uma extrema-direita fortalecida e, por consequência, Bolsonaro.

O ato das mulheres contra Bolsonaro, que pode mostrar a força das mulheres jovens e trabalhadoras e seu ódio contra a extrema-direita, pode vir a romper com a independência de classe se transforma o ódio das mulheres que querem lutar em palanque eleitoral pra que sejam mulheres como essas que tenham voz pra encerrar a manifestação, e da mesma forma se se encerra a manifestação com Manuela D’Avila, por exemplo, para defender a política entreguista do PT, que busca um pacto com golpistas e capitalistas. Uma “frente ampla” para repactuar com aqueles que se empenharam em degradar o já extremamente limitado regime político brasileiro, que atacou o direito elementar ao voto de milhões. Nós do Pão e Rosas nessa reunião rechaçamos essa política e defendemos que é preciso ter independência de classe e construir um movimento democrático: microfone aberto, que falem as mulheres trabalhadoras, pobres e negras, e defendemos que as organizações que defendem a legalização do aborto, o que não inclui o PT que em 13 anos não legalizou, possam ter direito a voz.

Frente ao altamente provável segundo turno entre Bolsonaro e Haddad, o petista sinaliza ao mercado financeiro, à mídia golpista e aos partidos da ordem que governará com “responsabilidade (fiscal)” e seguirá descarregando a crise sobre as costas dos trabalhadores, tendo as mulheres que pagarem duplamente. O PSOL, por sua vez, já prepara, dando aval à conciliação petista nesse ato, seu voto no “mal menor” no segundo turno. “Mal menor” esse que mais uma vez comprova que servirá para abrir espaço à direita, longe de combater o que Bolsonaro significa.

Enquanto várias candidaturas do PSOL expressam que é necessário lutar por “mulheres no poder”, nós do Pão e Rosas sempre defendemos que não somos uma no poder, mas sim queremos ser milhares pelas ruas, enfrentando os patrões, a extrema direita e os golpistas na luta de classes, de maneira independente daqueles que, como o PT, querem conciliar e rifar a vida das mulheres, em defesa dos lucros dos capitalistas. Mas esse lema “mulheres no poder” significa que Ana Amélia, Kátia Abreu e Marina Silva possam falar no encerramento do ato em nosso nome? Isso não podemos aceitar. Somos contra qualquer noção de “sororidade” com mulheres burguesas, que se sustentam sobre a exploração e a opressão da maioria de nós. Batalhamos pela aliança entre o movimento de mulheres e a classe trabalhadora e a juventude, retomando os sindicatos e as entidades estudantis, contra as burocracias que existem para trair nossos embates. Frente a um fenômeno internacional de luta das mulheres, enquanto o PSOL defende vergonhosamente espaço para essas mulheres, apenas na independência de classe está a força imparável que pode de fato combater a extrema direita, o patriarcado e o capitalismo. Chamamos o PSOL a rever essa política e chamamos a todas as mulheres a não aceitarem que transformem as manifestações de mulheres em palanque eleitoral, seja para o mal menor, seja para mulheres burguesas reacionárias.




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