ÁFRICA

João Albasini e O Africano: a imprensa negra em combate à violência colonialista

Resenha sobre a imprensa combativa em Moçambique no início do século XX, produzida para o curso de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo.

terça-feira 10 de outubro| Edição do dia

João era o mais velho dos irmãos Albasini, de personalidade impulsiva e destemida, lutava no campo da imprensa de forma visceral pela igualdade entre os colonos vindos de Portugal e colonos nascidos ou radicados na colônia, e em especial em relação aos negros assimilados, “aculturados”, que apesar de serem a camada privilegiada dos negros na colônia sofriam ademais com o preconceito racial.

Diretor do jornal O Africano, João era também defensor incansável dos direitos dos indígenas, como eram chamados os negros não assimilados.
Em contrapartida aos ideais que nutria Albasini e os demais colaboradores do jornal reunidos na associação denominada Grêmio Africano, e às esperanças de toda a elite local de que, frente ao avanço do liberalismo em todo o mundo, o progresso se avizinhava da colônia, a realidade de Moçambique se tornava cada vez menos favorável a eles e aos povos locais. Contraditoriamente, ao invés da igualdade, liberdade e fraternidade, o que foi destinado para as colônias frente o avanço liberal e republicano dos países colonizadores foi o aperfeiçoamento e a intensificação, ao invés da atenuação, das antigas formas de exploração do trabalho.

Este processo não aconteceu apenas em África, os países imperialistas como um todo conquistaram seu progresso às custas do subdesenvolvimento calculado de outros países, subjugados e superexplorados, onde os ideias liberais jamais chegariam perto de se realizar.
Foi o caso de outras colônias como Brasil, Índia, e outros que ainda hoje constituem a periferia capitalista, apresentando uma série de avanços combinados aos países imperialistas, porém de forma completamente desigual. Nesses países, o sistema de produção jamais se desenvolveu de acordo com as necessidades econômico-industriais deles mesmos, de sua burguesia nacional, quiçá de sua população como um todo, e sim exclusivamente segundo interesses das metrópoles e burguesias imperialistas.

Combinado a isso, o ano de 1909 na capital moçambicana, no decorrer do qual O Africano foi publicado, foi palco também de um importante avanço na consolidação de uma legislação que visava cada vez mais aumentar o poder político e econômico de uma nova elite dirigente, que chegava de Portugal ligada diretamente aos interesses econômicos da metrópole, em detrimento da elite local que perdia cada vez mais força, sendo achatada entre eles e os indígenas. Era o atestado de falência do projeto assimilacionista, que prometia ascensão à burguesia local e igualdade frente aos colonos, sua impossibilidade de realizar-se plenamente como era propagado é o que se apresentava aos olhos de toda a sociedade educada de Lourenço Marques.

O desencanto e descontentamento dessa antiga camada dirigente nascida em África, incluso José Albasini e seu irmão, proprietários de terra e de gado, ao longo desse ano é crescente, levando-os a aproximarem-se do ponto de vista dos indígenas explorados, o que se expressa de forma contundente na imprensa não oficial, que ficou conhecida como divergente, na forma de artigos, ensaios e literatura. Assim como desencadeou também na emigração de uma camada da intelectualidade assimilada para estudar no exterior, que mais tarde viriam a conformar um importante movimento de resistência diretamente antiimperialista que, via imprensa, passa a transmitir suas ideias para as colônias. Essa intervenção externa foi determinante no curso do desenvolvimento das lutas de libertação.

O Africano

O Africano foi um importante jornal da imprensa divergente, o primeiro jornal a utilizar a língua de origem local, o ronga, além do português, em suas publicações, se tornado o mais vendido não apenas em Lourenço Marques, mas em toda Moçambique. Sua fundação marca o início de uma literatura feita para e pelo africano, adotando como tema, e sendo esse seu maior diferencial e característica definidora, o tratamento dos problemas da população africana: “lembrar as negras gentes desse vasto território”, dizia o primeiro editorial que chegava às ruas na véspera de natal de 1908.

Não por acaso, na ocasião de sua publicação o povo africano sentia aumentar, nunca sem resistência, o peso da exploração do trabalho em suas costas, e as questões sociais de caráter elementar e emergencial para os indígenas eram inúmeras. Essas questões são o centro das edições d’O Africano, em especial seus editoriais, que em grande parte eram assinados por João Albasini.

Um dos temas que mais figurou em suas páginas foi a questão da língua, os jornalistas reivindicam como demanda número um o direito de posse do português para todo preto educado, ensinado em todas as escolas, como uma arma de disputa em igualdade com os colonos brancos. Neste momento, nas escolas moçambicanas se ensinava a ler e escrever em Landim, como era chamado o Ronga. O grupo de Albasini identificava como uma forma de dominação dos povos africanos a privação da língua do colonizador, por um lado por ser diretamente uma forma de impedimento de compreensão dos portugueses pelos colonizados, usado como um “atestado” da suposta superioridade cultural e cívica da metrópole, assim como uma arma na luta ideológica pela justificação da opressão colonial da qual os colonizados não podiam defender-se, e por outro lado por ser essa privação uma forma de fomentar a divisão entre os próprios africanos, que por seus diferentes dialetos tinham menos facilidade de comunicação do que se passassem a conhecer uma língua comum.

Outro ponto de importante figuração no jornal era a defesa das terras da elite negra contra a expropriação dos colonizadores, que criavam leis e todo tipo de manobra para tomar para si a propriedade dos antigos chefes locais; vale ressaltar que grande parte do comitê editorial d’O Africano era composto por esses proprietários locais prejudicados, acentuando a acidez de sua crítica feroz.

A luta contra a corrupção, a incompetência e os abusos das autoridades coloniais, demandas que afligiam especialmente os trabalhadores indígenas, foram também temas de muitos dos combativos editoriais, como, por exemplo, a tentativa de aprovação de um conjunto de leis que institucionalizaria a enorme violência com que eram tratados os negros não assimilados pelos seus patrões. Esse projeto suprimia a proibição dos castigos corporais de qualquer espécie da legislação, incentivava o pagamento desses trabalhadores através de dinheiro desvalorizado, dentre outras medidas que provocou a ira de José Albasini.

As denúncias da cobrança dos impostos exorbitantes, da política de incentivo alcoólico e o monopólio de vendas do “vinho colonial” e da necessidade de abertura urgente de escolas em toda a colônia, assim como a revolta contra a desigualdade racial e o combate aos defensores da supremacia dos brancos sobre os negros, que se apoiavam nas mais diversas teorias criadas pela ciência burguesa na época, foram também recorrentes e abundantes. Em suma, todas as principais demandas mais sentidas pelos indígenas e assimilados, e mesmo os brancos nascidos nas colônias, eram levantadas nas edições d’O Africano.

Ao longo de suas doze edições, em especial através da pena agressiva de João Albasini, o jornal se enfrentou com as mais temidas e poderosas figuras da elite colonial. Alegando dificuldades financeiras o jornal deixou de ser publicado ao final do ano de 1909. Em Julho de 1911 volta a ser editado, desta vez tendo a frente a administração de José dos Santos Rufino, velho amigo dos irmãos Albasini.

Referências Bibliográficas:

CAPELA, José – A imprensa de Moçambique até à Independência.

DANTAS, Gilson. Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises. Brasília, 2012.

MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista, 2 volumes. México: E. Era.

MOREIRA, José - João Albasini e o Africano: 1908/9 – um ano novo, uma nova era.

THOMAZ, Fernanda do Nascimento - Projetos em disputa num projeto de Estado: relações políticas no sul de Moçambique (1907-1922).

ZAMPARONI, Waldemir D. – A Imprensa Negra em Moçambique: a trajetória de “O Africano” – 1908/1920.




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