Economia

CRISE ECONÔMICA

JBS e o “bolsa família” do BNDES

A crise vem de cima e não da classe trabalhadora

Gilson Dantas

Brasília

quinta-feira 8 de outubro de 2015| Edição do dia

A família Batista enriqueceu muito nos últimos anos, ocupando atualmente a 24ª posição na lista das maiores empresas familiares do mundo. Seu faturamento teve um grande crescimento desde que o BNDES passou a apoiá-la, saltando de R$ 14 bilhões em 2007 para R$ 120 bilhões em 2014, ano em que foi a maior empresa privada nacional em faturamento. Como explicar isso?

Existe um mecanismo funcionando a todo vapor, através do qual a burguesia recebe dinheiro do Estado a juros baixíssimos. O Estado, sob o governo do PT, traz a patronal para o seu lado, praticando um tipo de apadrinhamento, que ajudou a garantir todos esses anos de prosperidade burguesa no país.

Como funciona? O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) capta dinheiro caro no mercado, oferecido a juros de 14% pelo Tesouro Nacional, e repassa na base de 7%, para importantes setores “amigos da corte”, as grandes empreiteiras e “campeões nacionais”, como a JBS. Não existe melhor negócio para essa burguesia que cresceu na base da sombra e água fresca durante o chamado “lulismo”. Assim foram criados os “campeões nacionais” como a JBS-Friboi ou Eike Batista, isto é, uma burguesia politicamente vinculada ao governo.

Essa patronal pode assim ficar com seu próprio capital livre para aplicar no mercado, inclusive comprando papéis na outra ponta, do próprio governo, agora ganhando nos juros de 14%, enquanto em uma ponta recebe capital subsidiado por dinheiro público. No total, o BNDES já repassou mais de 400 bilhões de reais para esse setor da grande patronal na base dos 7% de juros. Quem paga essa diferença é o contribuinte, o trabalhador. Quantia astronômica muito além do que o Estado aplica no social. Temos aqui uma fração da burguesia com o privilégio de ter boa parte do seu investimento, do seu capital, doado pelo Estado brasileiro. Esse é o perfeito mecanismo do capitalismo de compadres.

Compadre de quem?

Neste mesmo momento, o governo está cortando recursos na área social; aqui não há compadrio. Só para se ter uma ideia, com o imposto da CPMF que o governo quer instaurar, ele conseguiria recolher R$ 32 bilhões em 2016; mas esse mesmo governo vai gastar em 2016 cerca de R$ 38 bilhões naqueles marcos da transferência do BNDES para a burguesia; gasta muito mais favorecendo a patronal do que o social e depois vem cobrar impostos de quem vive do trabalho para continuar financiando aqueles que lucraram quando a economia crescia. Para que se tenha uma ideia, o Bolsa Família não chega a 0,5% do PIB, mas as despesas com a dívida pública, com os juros daqueles papéis do Tesouro Nacional, vão muito além desse montante.

Tudo isso nos leva a concluir que os gastos públicos com o “Bolsa Família dos patrões”, via BNDES, é muito mais pesado para o Tesouro Nacional do que os gastos sociais. De setembro do ano passado para setembro deste ano, R$ 117 bilhões foram gastos com juros para captar dinheiro no mercado, enquanto o total dos gastos sociais, incluindo previdência, seguro-desemprego e afins, não alcança os R$ 8 bilhões. O contraste é chocante e vai contra todo o discurso demagógico do governo, que fala em “crise econômica” como se esta tivesse caído do céu, ou viesse de baixo, quando, de fato, há uma despesa pesadíssima do Estado com os juros, toda ela voltada para a especulação e para o financiamento do “capitalismo de compadres”, para atração do capital estrangeiro, para a sustentação da especulação cambial, do mercado de capitais, naquilo que um liberal chamou outro dia, interessadamente, de “capitalismo de companheiros” ou de “quadrilha” (como se existisse um capitalismo que não fosse de quadrilha, de toma-lá-dá-cá).

Moral da história, o governo arranca do trabalhador, do contribuinte, uma das maiores cargas tributárias do planeta, 36% do PIB, não atende qualquer necessidade elementar social do trabalhador e depois lança mão daquela carga de impostos, oferece juros do Tesouro Nacional aos especuladores, fundamentalmente para manter funcionando a acumulação do capital e a incessante concentração de renda. Temos um governo dos banqueiros e dos grandes negócios e negociatas, mas que fala em nome dos pobres e dos trabalhadores.




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