Sociedade

CARNE PODRE

JBS, carne podre e vegetais transgênicos. Há alimentação saudável dentro do capitalismo?

terça-feira 21 de março de 2017| Edição do dia

Diante do escândalo da revelação de que grandes indústrias vendiam carne podre mascarada por níveis tóxicos de alguns aditivos e fabricavam embutidos com pedaços de papelão e outras substâncias, a grande maioria das pessoas começou a compreender que não se trata apenas de uma situação localizada nas empresas JBF-Friboi, BRF Foods (Sadia e Perdigão), Seara e outras menores, mas de uma prática aplicada pelos donos das grandes empresas e grandes latifúndios sobre a produção de alimentos em grande escala baixo o modelo de produção capitalista.

De agrotóxicos, transgênicos e hormônios a desmatamentos, doenças e incremento das desigualdades sociais (como deslocamentos populacionais, super-exploração do trabalho e extermínio de povos), a utilização do modelo capitalista de produção e distribuição de alimentos já se tornou há muito reacionário ao desenvolvimento social da humanidade, sendo esse escândalo a expressão mais repugnante dessa situação.

Da carne podre ao questionamento dos alimentos que o capitalismo oferece

Partindo de que o escândalo da carne podre não é apenas um excesso de algumas indústrias, é necessário então entender como funciona cada esfera do sistema de produção e distribuição da carne – e dos alimentos em geral –, inclusive fiscalizadas dentro dos marcos da Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Governo (ANVISA), para entender que esse sistema está envenenando a saúde e matando as pessoas, tanto as que trabalham nessas indústrias e latifúndios, quanto à população que consome seus produtos: os alimentos.

A ligação do Estado, pela via de seus governos e representantes (deputados, senadores, vereadores), com os empresários, latifundiários e burgueses em geral já é bastante evidente para muitos. A grande preocupação da burguesia é que os recorrentes escândalos midiáticos de corrupção e as recentes operações da Policia Federal evidenciem cada vez mais essa relação. Por isso, criar a ilusão de que os órgãos de um governo representante dos interesses dos patrões (de Collor até o ilegítimo Temer, passando por Lula, Dilma e FHC) serão capazes de impor maior vigilância para os seus próprios sócios – sugerindo a adoção de menores quantidades de “substâncias danosas” – além de utópico, só favorece aos interesses da burguesia.

A produção em massa e sob a lógica capitalista aplicada na produção de alimentos obriga a utilização de produtos químicos como nitritos de potássio e sódio, conservantes, acidulantes, corantes e aromas químicos e outros elementos estranhos ao alimento para manter sua aparência, cheiro e sabor, mas que também alteram suas propriedades, seus efeitos no organismo humano e sua salubridade. Essa matéria aponta a ponta do iceberg dos absurdos que a ANVISA permite legalmente, com o argumento “científico” de que a utilização desses produtos tóxicos e venenosos seria uma questão de quantidade e não de qualidade e, portanto, dentro de certos limites escolhidos subjetivamente, não seriam prejudiciais à saúde humana.

Muitas vezes, inclusive, o animal de onde provem a carne que irá ser comida já morreu há muito tempo, pela distância do início da produção até o consumo. Para além dessas químicas no processo de conservação da carne do animal morto e de falta de condições sanitárias no transporte, temos que, desde a criação até o abate os animais são alimentados com produtos transgênicos, tratados com anabolizantes, hormônios e medicamentos que modificam a carne do animal, produzindo radicais livres e outras transformações em suas células, as deixando exposta à presença de novos e poderosos vírus e outros invasores prejudiciais à saúde. Com as verduras, frutas e legumes também não é diferente, dos agrotóxicos até a criação artificial de sementes, transgênicas, temos a introdução química e genética que modifica as propriedades do alimento e a exposição química que permanece como veneno para quem as consomem.

As condições de trabalho nos processos de produção e distribuição de alimentos dentro do sistema capitalista também não são nada saudáveis. A indústria de alimentos é também uma indústria atua como rolo compressor de carne humana, e particularmente no Brasil, a carne humana negra. Com uma relação umbilical com os grandes latifundiários de terras e gado (coronéis agricultores e pecuaristas, ex-senhores de engenho e proprietários da Casa-Grande), os atuais empresários brasileiros da JBS e RBF, assim como os norte-americanos da Monsanto, se beneficiam do trabalho semi-escravo (quando não diretamente escravo) encobertos nos municípios e Estados afastados, pelo poder desses velhos coronéis, mas também nacionalmente pelas leis federais e judiciais que flexibilizam a jornada de trabalho, secundarizam a segurança e saúde do trabalhador e julgam a favor dos interesses do patrão. Tudo como bem denunciado aqui.

Do modelo que interessa ao lucro do patrão para o controle operário da produção

Como demonstrado, não serve exigir maior controle e vigilância por parte dos órgãos do governo, pois além de sócios do empreendimento, os padrões de avaliação e critérios de controle desses órgãos permitem uma modelo de produção que envenena e mata os seus consumidores, destrói o meio-ambiente e super-explora os trabalhadores. Multas e sanções momentâneas não adiantam, pois o objetivo dessas empresas sempre será o lucro, portanto a única alternativa é a interdição dessas indústrias sem qualquer indenização e o confisco dos bens de seus proprietários e sócios a serviço da população. Isso só pode significar a estatização das fábricas sob o controle dos trabalhadores.

A única maneira de começar a solucionar esse problema é retirar o controle da produção das mãos dos atuais proprietários cujo único objetivo é acumular capital, lucro, e para isso utilizam o modelo de produção capitalista, e passar o controle para as mãos dos trabalhadores, cujo objetivo coletivo é a produção social interessada na saúde e qualidade de vida suas e de todos os seus familiares, parentes, vizinhos e da maioria da população em geral.

Mas somente a estatização e o controle operário da produção nas fábricas não bastam. É necessário que a produção de alimentos esteja mais próxima dos centros de consumo, que a lógica de pecuária e agricultura em massa atual se transforme a partir da coletivização das terras e sua utilização de maneira planificada com a produção industrial a serviço de uma economia que atenda as necessidades do desenvolvimento social humano, uma sociedade socialista.




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