Cultura

ANÁLISE THIS IS AMERICA

Isso é América: um galpão de racismo, resistência e de luta por grandes sonhos

Depois do lançamento do mais recente clipe de Childsh Gambino, "This is America", um amplo debate se abriu nas redes sociais. O único acordo é: o clipe é uma bomba de denúncia ao racismo. Mas é possível fazer denúncia de verdade sem falar da resistência?

Leticia Parks

São Paulo

segunda-feira 14 de maio| Edição do dia

This is America é um clipe de denúncia ao racismo. Quanto a isso não restam dúvidas. Mas é seria impossível fazer denúncia sem falar da resistência, porque cada uma das medidas de repressão e racismo também se dão em resposta às incríveis manifestações de resistência das massas negras. Tornou-se comum na crítica à arte contar histórias para tentar explicar o que um artista quis dizer com sua obra. Nosso objetivo não é esse. Não é contar uma nova história que não seja a que Gambino contou. Queremos apenas mostrar como os símbolos que ele contou se assemelham, em muito, com os símbolos que perseguem a nossa realidade enquanto negros, mas mais do que isso. Os grandes símbolos que propõe a batalha por um novo futuro para os negros.

O cenário: um galpão itinerante

O galpão cinza, quase industrial, é o cenário mãe de todos os cenários que surgem dentro do vídeo. Mas tudo começa com ele como um cenário único, com o seu primeiro personagem: o violão, sozinho sem músico. Gambino segue escondido ao fundo do galpão enquanto o músico Calvin The Second se dirige ao violão e começa a tocar. O ritmo é o blues.

A câmera enfoca o Gambino oculto ao fundo, que imediatamente começa a dançar e fazer caretas. A dança, que para alguns lembra a racista blackface dos Jim Crows, é feita nesse caso trazendo traços das umbigadas negras e o rosto triste. O personagem encarnado em Gambino é certamente uma mescla de dois mundos. Isso se prova no que está por vir.

Em pose de Jim Crow blackface, Gambino empunha um revólver e mata Calvin. O Jim Crow assassina o blues depois que ele já perdeu seu violão e tem mãos presas, um verdadeiro prisioneiro do cenário que começa a se construir.

O revólver é levado com cuidado e carinho, retirado com um pano vermelho, enquanto o corpo de Calvin é arrastado sem cerimônias por um par de garotos uniformizados.

O galpão agora ganha cenário de rua. Podemos quase imaginar que Gambino está embaixo de um viaduto onde gangues circulam. Mas o cenário é mais do que isso. Ali também estão jovens empunhando paus e facas, as suas roupas menos modernas que nosso tempo nos lançam a algum tipo de protesto que possa ter acontecido há décadas atrás. Os estudantes entram na dança de Gambino.

Nos rostos há deboche, há alegria. Nos movimentos, há África.

No fundo, o mundo gangster segue encenado, enquanto cada vez mais jovens uniformizados circulam dentro do quadro. As galinhas no chão tomam o olhar por alguns segundos, assim como os dólares lançados por um jovem em cima do carro. Outras cenas paralelas tomam o olhar cada uma a sua vez: à direita um homem uniformizado como policial, dois homens que golpeam contra um carro. A contradição dos símbolos é pano de fundo desse momento em que a coreografia negra entra performada pelos jovens uniformizados.

O coral de igreja entra em cena construindo junto o coral da música, quebrando o ritmo de rap que vinha da cena anterior. Gambino invade a cena, novamente dançando com uma feição profundamente caricatural. Para a dança, olha para o lado direito e com um revólver mata a todos. This is America, reinicia a voz ritmada do rap. O revólver é outra vez tratado com o maior cuidado. Do tiro surgem dois homens correndo com bastões e facas, e depois muitos outros. O carro de polícia ao lado deles poderia lembrar qualquer cena parecida com as que vimos durante as lutas contra a violência policial. Jovens negros armados do que conseguem ter ao seu alcance, correndo em direção à luta ou da própria polícia que os ameaça cotidianamente.

O galpão reaparece e há mais pessoas em ritmo acelerado. Com esse pano de fundo, voltam os jovens estudantes uniformizados, outra vez dançando em uma estética corporal bastante sul africana. Enquanto há dança e correria, alguém se joga do peitoral. Mas a vida continua. A polícia corre hiper uniformizada, preparada para reprimir.

Enquanto o caos da repressão e da resistência parecem se instalar, os jovens uniformizados continuam dançando, sorridentes, enquanto outros jovens usam mordaças e filmam com seus celulares. O caos continua na parte de baixo do parapeito de onde eles filmam, onde outra cena repentina toma o olhar: passa um cavalo branco com um cavaleiro vestido de negro. Um mensageiro da morte?

E ressurgido da morte vem o homem que nos primeiros 20 segundos do vídeo foi morto pelo personagem principal. As mãos não estão mais presas, tocam o violão. Gambino sobe sobre os carros. SZA também está sentada sobre um dos carros. A cena do galpão claro e com carros antigos se fecha a um cenário escuro, onde Gambino corre junto a outras pessoas. A sua feição é de puro pavor.

Camadas 1 e 2: Enquanto houver racismo, haverá resistência.

Se os Estados Unidos pudesse ser colocado dentro dele, certamente as cenas resultantes seriam o conjunto de mortes violentas às quais os negros são submetidos cotidianamente. A primeira camada visível em todo o vídeo, portanto, é a composição de profunda e dura violência viva dentro desse galpão. E isso não é qualquer coisa. Gambino está fazendo essa denúncia tão explícita de dentro da maior potência imperialista do mundo, uma potência que é diretamente responsável pelo golpe no Brasil, pela morte e sofrimento de muitos dos países da África e Oriente Médio. Apenas por isso, Gambino já realizou um grande feito.

Mas mesmo essa camada se torna complexa em relação a alguns símbolos em especial. Desde a primeira vez que vi o vídeo me intriguei com os jovens uniformizados dançando ritmos marcadamente sulafricanos. Quando vi eles junto com a aparente revolta ao fundo, me veio o click. Não te lembram as cenas do massacre de Soweto?

Jovens que em 1976 se recusaram a ter o africâner como idioma ensinado na escola e que saíram aos milhares nas ruas exigindo uma educação não colonial. Em 16/06/1976, um dos atos massivos é reprimido pela polícia, que deixa um número incerto de jovens mortos. As massas sul africanas falam em 700, enquanto os números oficiais assumem contraditórios 95.

A tese que defendo de que esse vídeo trata como camada o racismo junto à resistência, sem sobrepor um ao outro, é reafirmada pela imagem cruel do coral assassinado seguida imediatamente da entrada em cena de uma resistência também violenta, mas aquela violência que se desenvolve quando é preciso defender a própria vida, recorrendo ao que se tem disponível - paus, facas - para serem armas da defesa da própria vida e da comunidade.

Os homens carregando paus e facas não poderiam deixar de lembrar, inclusive, as imagens da histórica greve dos mineiros e Marikhana, que foi respondida pelo governo do Congresso Nacional Africano com a repressão e morte de, oficialmente, 43 mineiros. O próprio uniforme do policial que passa rapidamente pela câmera durante o vídeo de Gambino lembra MUITO o uniforme dos policial sul africanos.

Não poderia deixar de mencionar a mais óbiva de todas essas representações. Enquanto são reprimidos pela mordaça, os jovens estudantes empunham os celulares e registram a cena. Não é absurdo dizer que junto com a expectativa de saber o que se é gravado, há também a memória do que já vimos ser gravado assim: Claudia sendo arrastada pela polícia, Mike Brown sendo assassinado.

Na letra, nesse momento, as palavras são:

This a celly (ha)
That’s a tool (yeah)
On my Kodak (woo, Black)
Ooh, know that (yeah, know that, hold on)
Get it (get it, get it)
Ooh, work it (21)

Isso é um celular (ha)
É uma ferramenta (yeah)
Oh minha Kodak (woo, Negro)
Ooh, você sabe (é, você sabe, continua)
Pega isso (pega, pega)
Ooh, faz funcionar (21)

Seria absurdo dizer que o esforço de construir essa imagem seja apenas para dizer o que já sabemos: há violência policial, estatal e civil contra os negros, não só na América mas em todo o mundo. Gambino foi mais longe. Se há violência, há resistência. De todo tipo. Pega isso. Faz funcionar.

Camadas 3 e 4: a resistência na cultura e a corrida por um novo futuro

Mas Gambino também não para por aí. Porque o massacre contra os negros não para na bala. A resistência negra também não.

A imagem inicial é um prenúncio desse combate que Gambino decide fazer ao longo da estética da música, de maneira por assim dizer, genial. A cena do assassinato poderia resolver tudo, mas além dela, vou falar também da cena final, dos automóveis, que ainda me parece mal compreendida.

O violão que estava sozinho é apanhado por um artista negro, que começa a tocar um ritmo de blues. Gambino o assassina em uma postura que, como muitos já descreveram na internet, é explicitamente referenciada à pose do Jim Crow, o primeiro personagem de Blackface da história da cultura norte-americana. Jim Crow, junto com sua simbologia, está roubando o violão da mão do negro, fazendo com que ele seja aprisionado e depois, matando ele. Isso por dois motivos.

Primeiro que a prática do blackface era apreciada pelas enormes comunidades de supremacistas brancos norte-americanos, que gozavam os shows de ridicularização do negro, da sua dança, da sua feição, etc. Segundo porque Jim Crow, além de batizar o primeiro blackface da história, também batiza as leis que foram utilizadas para banir de direitos as massas negras que durante a recuperação econômica após a guerra civil norte-americana, exigiam direitos plenos junto à liberdade. Fato é que sem os negros, o norte certamente teria perdido a guerra, mas a burguesia decide com esse conjunto de leis não pagar o preço da liberdade da Inglaterra entregando aos negros postos de comando. Manter os negros em uma posição profundamente miserável era fundamental para que os lucros da burguesia branca fossem mantidos, assim como para manter a superexploração das enormes massas negras que se mantiveram no sul, em condições de trabalho análogas à escravidão.

É neste sul que surge o blues, assassinado pelo Jim Crow da mesma elite branca que tentou roubá-lo e descaracterizado de toda a sua carga de resistência e insubordinação. Mas a insubordinação do blues, nem de nenhuma forma de resistência negra, poderia morrer dessa maneira. Isso porque balas não são capazes de matar o que a tradição, a memória e a luta mantém vivos.

É por isso que durante a caótica cena de luta, o cavaleiro da morte traz o blues de volta. Mas veja bem. Ele não volta tampouco em um galpão vazio. Ele volta exatamente dentro da mesma cena de carros que a própria Beyonce escolheu para falar sobre Nova Orleans.

Acompanhado da parte final da letra, Gambino diz que sua avó mandou que ele fosse buscar o dinheiro dele.

Grandma told me, "Get your money, " Black man
Get your money, Black man (Black man)

Mas o dinheiro não vai resolver essa situação. Ele deixa claro. O homem que passou pelos nossos olhos no meio do clipe lançando dinheiro pelo ar deixa isso claro.

Não para nós que estamos assistindo, apenas, mas para a própria mensagem que Beyoncé tanta passar para os que assistem Formation e que poderiam pensar que a saída dos negros para não morrer do descaso de seus governantes seria:

Get what’s mine, take what’s mine
I’m a star, I’m a star

Pegar o que é meu, tomar o que é meu
Sou uma estrela, uma estrela

Enquanto a resposta de Beyoncé incorpora nos seus símbolos as marcas de roupas caras, os carros caros, o dinheiro, a resposta de Gambino assume que mesmo com tudo isso, a perseguição racista encerra o enredo. Não à toa, na estética da música, a sua síntese em vídeo se repete. O hiphop não é ostentação, como Beyoncé se submete a fazer contra a tradição desse ritmo. A melodia é baseada em batuques africanos, enquanto a de Beyoncé é feita para agradar a necessidade de repetição da música grude.

Nada em Gambino foi desinteressado ou acidental. Nada foi reproduzido do status quo. Cada camada do vídeo assimila uma síntese do que há de mais profundo da enorme crise política, social e ecônomica que vivemos: a cada dia ataques mais duros, há falta de perspectiva em cada novo suicídio, há lágrima e dor em cada tiro que atinge uma criança, uma mulher, um homem negros. Mas há para cada um desses atos, como uma espécie de espelho de terror que o negro vira contra os ricos e poderosos, de maneira simétrica a cada experiência de dor, tristeza e miséria, uma punhalada de resistência. Uma resposta às armas voltadas contra nós que não se limita, inclusive a apenas baixa-las, mas a traçar uma rota em alta velocidade de disputa também por um novo futuro.

Quando vi Gambino correndo no final, não vi só terror. Vi a energia do artista que se somou aos que corriam nas ruas e que ruma a um futuro ainda difícil de identificar, um futuro escuro, mas um futuro que vai além da resistência.

Nas ruas, nas fábricas, nas escolas, no vídeo que circula na internet gravado de forma clandestina, na poesia, na música ou no vídeo. Caminham juntos denúncia, resistência e os passos desesperados e massivos na luta por uma realidade que se sobreponha a esse caótico e violento galpão. O Haiti é aqui. Nós já vimos essa história contada antes. E é preciso dizer: não nos contentaremos em correr do racismo, da polícia, da burguesia. Verteremos nosso terror contra aqueles que hoje nos aterrorizam. E aí, também é preciso dizer: corra, burguesia, corra.




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