Teoria

TEORIA MARXISTA

Indústria cultural: alma de uma situação sem alma

Debates com Theodor Adorno e Max Horkheimer (Parte 2)

Iuri Tonelo

São Paulo

segunda-feira 22 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Adorno e Horkheimer, pensadores alemães da escola de Frankfurt, diziam que o “pão que a indústria cultural alimenta os homens é a pedra da estereotipia”. Ou seja, em outros termos, os padrões nutrem (e afogam) a sociedade. A vitalidade dessa ideia é que ela é repetida a todo tempo, das teses acadêmicas aos muros da cidade, em sua afirmação ou seu protesto.

Os valores do “belo”, “bom”, “verdadeiro”, “digno” e sua forma esteriotipada foram todos incorporados pela ideologia dominante num nível incomensurável na contemporaneidade. Karl Marx e Friedrich Engels, já no Manifesto Comunista, diziam que a burguesia destruiu as relações idílicas do passado e “afogou os fervores sagrados da exaltação religiosa, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta” .

Ou seja, o cálculo egoísta, individualismo e pragmatismo são as marcas indeléveis de nossa época e, portanto, são parte fundamental do que deve permear as formas dominantes da cultura, a substância dos padrões.

A sociedade deve se acostumar que cada objeto particular, cada detalhe, cada peça do teatro da vida social existe em sua imutabilidade, em sua necessidade de existir e ‘ser para sempre’, “É o que fortalece a imutabilidade das situações”, diziam os frankfurtianos. Por isso tudo tem de ser um padrão, de forma que cada coisa se insere em um coletivo integrado e indispensável à sociedade burguesa, tal como ela é.

A avalanche de informações e formas “culturais” que os trabalhadores, e sobretudo os jovens, são impelidos a experimentar é uma parte ativa fundamental de fomentar esses valores. Os valores que levam a conclusão sobre o egoísmo do indivíduo em geral (e portanto a conclusão de que é necessário seguir na guerra de todos contra todos) são uma das bases da crença de que se os humanos não podem ser sujeitos da mudança, as coisas continuarão a ser assim.

Acontece que entre essas formas ideológicas e o desenvolvimento real do mundo existe um abismo, nem sempre fácil de enxergar. Convivem com o “triunfo” da sociedade capitalista as formas mais bárbaras da exploração do trabalho (incluindo formas de escravidão no mundo moderno) e uma massa que ultrapassa a casa do bilhão que continuam na linha da pobreza; sob a máscara da igualdade de possibilidades se esconde a desigualdade inigualável que combina prédios luxuosos e favelas nos centros urbanos; sob o véu da liberdade dos indivíduos se escondem os mais duros ataques às liberdades democráticas da existência na classe trabalhadora; ao rico é reservada a heroína de luxo, ao pobre, o fuzil que mata e a discriminação que humilha.

Por isso a sociedade burguesa precisa criar seus heróis e se reinventar na sua arte toda especial de reafirmar o principal padrão que ela cria e recria: a sociedade burguesa como espetáculo. Dizia Guy Debord:

"O espetáculo é o discurso ininterrupto que a ordem atual faz a respeito de si mesma, seu monólogo laudatório. É o autorretrato do poder e na época de sua gestão totalitária das condições de existência. A aparência fetichista de pura objetividade nas relações espetaculares esconde o seu caráter de relação entre homens e entre classes: parece que uma segunda natureza domina, com leis fatais, o meio em que vivemos. (...) Se o espetáculo, tomado sob o aspecto restrito dos “meios de comunicação de massa”, que são sua manifestação superficial mais esmagadora, dá a impressão de invadir a sociedade como simples instrumentação, tal instrumentação nada tem de neutra: ela convém ao automovimento total da sociedade (DEBORD, 1997, p. 20, 21)"

A forma do espetáculo, adaptando-se à realidade e sua dinâmica, criou um novo tipo de superego na indústria cultural atual. O moralismo maniqueísta do passado já esvaziou seu conteúdo dominador. Agora não é mais um “herói moral do bem” o que mais atrai. A arte da indústria cultural atual é de transformar o mais espúrio, sem escrúpulos, mesquinho e individual, em espetáculo, em superego, em herói ou heroína.

Em última instância, são distintas formas ideológicas para fortalecer as “ilusões democráticas” da massa trabalhadora na sociedade e visar uma mínima estabilidade política para a dominação burguesa. Se devemos ter claro que essa dominação encontra na sociedade forças materiais como as burocracias sindicais (que paralisam a ação política insurgente dos trabalhadores) ou os partidos burgueses e pequeno-burgueses “democráticos”, que criam diversos discursos heterodoxos para voltar a se abraçar com a hegemonia burguesa, podemos dizer que essa mesma dominação possui uma “alma” (ou parte dela) na indústria cultural.

Uma das mais premiadas séries televisas da atualidade, House of Cards, talvez nos sirva como um exemplo gráfico do sentido mais profundo de dominação da indústria cultural. Francis Underwood, o político em busca de poder na White House americana é um tipo ideal (para fazer uma ironia) dos valores a serem transmitidos consciente e inconscientemente ao público assistente. Underwood e os seus têm como traços a sagacidade política, a inteligência, a disciplina, a crueldade, a falta de escrúpulos, enfim, distintos traços marcantes. Mas nada é mais marcante, nada é mais valoroso no íntimo do que transmitem o herói e as personagens do que o pragmatismo como valor. De todos os valores, esse é o maior, a mais absoluta capacidade de não sentir nenhum sentimento, nenhuma paixão, nenhuma humanidade quando se faz política.

Ao intérprete que busque um olhar crítico, poder-se-ia atribuir a ideia de que a série é verdadeira em alguns pontos ao retratar a miséria da política burguesa. Mas, particularmente, trata-se de uma obra de arte e, dessa forma, ao que deve se ater é à capacidade sensível, estética, da obra se comunicar com os assistentes. Nesse caso, o venenoso pragmatismo de Underwood é mais saboroso esteticamente ao público do que a “racional” denúncia da política burguesa.

A magia da indústria cultural hoje é essa, aos críticos dar a xícara da crítica fria, artificial, para ficar com o conteúdo quente no interior da xícara. Para as obras da indústria cultural moderna, parecer-se crítica e dar um sentido de sabedoria e esclarecimento ao sujeito é parte fundamental; é fingir que eles tem o controle do cérebro, para ganhar seus corações:

"O que é significativo não é a incultura, a burrice e a impolidez nua e crua. O refugo de outrora foi eliminado pela industrial cultural graças a sua própria perfeição, graças à proibição e à domesticação do diletantismo, muito embora ela não cesse de cometer erros crassos, sem os quais o nível do estilo elevado seria absolutamente inconcebível (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p. 112)"

As formas cômicas ou dramáticas devem atingir a plenitude técnica e, quando numa forma mais elaborada, oferecer o sabor de um dado conteúdo crítico para atingir o objetivo ideológico – o que Slavoj Zizek chamou de modo inteligente do “anticapitalismo” de Hollywood.

Marx dizia em 1843 que a comédia era a última forma de expressão de uma sociedade (“formação histórico-mundana”) e que aquela tinha o papel, nesse caso, de que a humanidade se afaste alegremente de seu passado. A indústria cultural moderna inverteu completamente esse sentido, e transformou a comédia na reafirmação (esdrúxula) da reconciliação com a sociedade atual. Nas palavras de Adorno e Horkheimer:

"O triunfo sobre o belo é levado a cabo pelo humor, a alegria maldosa que se experimenta com toda renúncia bem-sucedida. Rimos do fato de que não há nada de que se rir (...) Na falsa sociedade, o riso atacou – como uma doença – a felicidade, arrastando-a para a indigna totalidade dessa sociedade (...) O diabólico no riso falso está justamente em que ele é forçosamente uma paródia até mesmo daquilo que há de melhor: a reconciliação (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p. 116)"

De outro lado, é possível mesmo fazer certo paralelo da indústria cultural (e seu peso relativo na cultura hoje) com a preocupação de Marx sobre a religião, quando escreveu sua célebre Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Isso porque a crítica de Marx via o recorrer à religião – ao contrário de como foi disseminado posteriormente – não apenas como a alienação, mas “o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma” e, nesse sentido, é uma forma de protesto contra a miséria subjetiva do mundo, canalizado em outras formas de “grilhões”.

Pensar assim é chocar-se em dois sentidos com a forma da crítica de Adorno e Horkheimer. Em primeiro lugar, porque é se deslocar do que existe de elitista na crítica deles à “cultura de massa”: isso porque mesmo nas formas mais “elaboradas” da indústria cultural ou no desenvolvimento artístico de raiz popular existe a dimensão do conflito, da luta de classes, ou seja, mais ou menos desenvolvida a resistência à total mercantilização da arte e da cultura – a própria indústria cultural não é, e não poderia ser, um todo homogêneo. Não perceber isso seria enxergar não uma tentativa constante de dominação ideológica e uma resistência mais ou menos ativa da massa trabalhadora e da juventude, mas apenas uma massa de alienados frente à indústria cultural, sem reação, ou seja, “o fim da história”, declarado pela esquerda pensante.

Em um segundo sentido, é uma forma também de ler a questão sob a ótica da produção e não do consumo e, nesse sentido, não se voltar a crítica ao consumidor, mas aos enormes monopólios da indústria cultural. É evidente que a novela, que propicia o romance e a sublimação daquilo que foi sistematicamente privado materialmente, funciona como um suspiro frente à miséria real, “o ânimo de um mundo sem coração”.

Se tomarmos com essa lógica, e a partir dessa crítica, podemos dialogar com o pensamento de Adorno e Horkheimer quando dizem que:

"Cada espetáculo da indústria cultural vem mais uma vez aplicar e demonstrar de maneira inequívoca a renúncia permanente que a civilização impõe às pessoas. Oferecer-lhes algo e ao mesmo tempo privá-las é a mesma coisa (ADORNO, HORKHEIMER, 1985, p 116)"

Assim, a crítica da indústria cultural deve conduzir a lançar fora os grilhões ideológicos para que “a flor viva brote”. A única maneira de se desenvolver nesse sentido é compreender a resistência em dois planos, material e também ideológico-cultural. O que quebra o cotidiano da novela ou da série não são as milhares de impressões dos livros de Adorno e Horkheimer (que evolutivamente dificilmente encontrarão os trabalhadores), mas é a luta material dos trabalhadores contra os pressupostos dessa sociedade e as bases materiais da dominação política (no movimento operário e na juventude). Uma greve pode ter um impacto muitas vezes mais fabuloso na consciência de um trabalhador que políticas evolutivas no plano da cultura de desenvolver sua capacidade reflexiva.

Mas também no terreno da própria cultura esse embate é frequentemente dado e se expressa de diversas formas no cotidiano artístico. É verdade que a indústria cultural tem a incrível capacidade de tornar tudo mercadoria; mas em cada canto e em cada esfera da arte se expressam renovadamente formas poéticas e estéticas que colocam novas dificuldades para a indústria e a dominação capitalistas.

Se o diálogo com o pensamento de Adorno e Horkheimer servir para recolocar o combate contra a indústria cultural como parte fundamental das tarefas da esquerda, é um diálogo frutífero.

Mas para destruir os estereótipos é preciso entendê-los. É um exercício teórico, mas também prático. Saber como pensam, sentem e vivem os trabalhadores é uma tarefa apaixonante a todos os que querem combater as formas ideológicas da dominação capitalista, por isso a crítica não pode ser elitista, mas o contrário. O combate à indústria cultural não pode ser do intelectual diletante exterior à classe, mas dos que conseguem ligar a crítica às formas ideológicas de dominação com as paixões da classe trabalhadora.

Acesse aqui a parte 1, "Mercantilização da vida, superficialidade e pragmatismo"

NOTAS:

i) (ADORNO, HORKEIMER, 1985, p. 143)
ii) (MARX, 2010, p. 42).
iii) (ADORNO, HORKEIMER, 1985, p. 143)
iv) (MARX, 2005, p. 145)




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