Gênero e sexualidade

49 ANOS DE STONEWALL

Identidade: o orgulho de uma infância trans

Por infâncias livres, diversas e respeitadas. Porque são as futuras gerações de um legado que segue a luta por uma vida que mereça ser vivida.

sexta-feira 29 de junho| Edição do dia

Ilustrações: José arturo Peñaloza, Ana Laura.
Tradução: Virgínia Guitzel

Em nosso país (Argentina) a conquista de leis como o matrimonio igualitário, a lei de Educação Sexual Integral (ESI) e, mais recentemente, a lei de Identidade de Gênero, mostram o avanço obtido sempre a partir da incansável luta do coletivo LGTBI, acompanhados também por setores do movimento de mulheres e organizações políticas.

Agora, a igualdade perante a vida é muito mais que a igualdade perante a lei

Em 2013 foi emblemática a história de uma criança trans, Luana, que com o acompanhamento de sua mãe, Gabriela Mansilla, obteve sua DNI (Registro de Identidade - "RG argentino") sem necessidade de ação judicial. Tal como conta Gabriela em seu livro Eu nena, sou princesa, a identidade de gênero é um processo, uma construção que nada tem a ver com o sexo designado ao nascer, o que sempre está de acordo com a genitália e por tanto a heteronormatividade.

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Aceitar e respeitar as infâncias em suas diversidade é um enorme passo para estas futuras gerações que têm pelas costas anos de postergação e de exclusão. E também é uma ruptura e um enorme aprendizado para os adultos que formam parte da vida destas crianças: mães, pais, familiares, docentes e profissionais da saúde.

Ruptura com os preconceitos, com visões patologizantes e com o rol repressivo da educação que partem sobretudo das instituições ligadas a igreja. E um aprendizado acerca de como desde muito cedo, os desejos e as escolhas não tem por que ser moldados na moral nem o binarismo homem/mulheres imperante deste sistema.

No dia de hoje existem ao menos cem famílias que acompanham seus filhos neste processo. E desde este texto, no marco da comemoração de um novo 28 de Junho, queremos dar voz a estas experiências.

O Esquerda Diário Argentino compartilha o testemunho de Verônica, professora de Neuquén, que conta sua experiência na luta para que a identidade de gênero de seus filhos seja respeitada e visível.

"Há outras formas de compreender o mundo"

Meu nome é Verónica Alaria, tenho 47 anos e nasci em Neuquén capital. Estou casada há 25 anos com Néstor Aguayo. Sou professora e mãe de três crianças. Camila de 19 anos, Luciano de 16 e Serena de 9 anos. Serena, nossa filha menor, é uma criança transgênero. Quando eu estava na minha terceira gestação com Camila, Luciano e Nestor fomos fazer um ultrassom, interessados em conhecer o sexo do bebê. Quando o médico nos perguntou se queríamos saber, dissemos que sim, então mostrou um pênis e disse: "Vejam". Eu perguntei se poderia ter algum erro e ele disse "Não, não, pênis, testículos" e assinalou "É um bebê, esperam um menino".

A partir deste momento nos preparamos para receber um menino: imediatamente pensávamos na casa de Luciano, um acolchoado celeste, com a pintura das paredes em acordo com as cores celestes e azuis, compramos roupas de bebê "de menino", decidimos um nome: Bautista.

Foi um bebê lindo, trouxe muita alegria para a família. Vinhamos de uma situação difícil: de uma doença de Luciano, assim que foi uma grande uma alegria este bebê. E quando pôde começar a expressar-se, quando pôde começar a escolher, ao redor dos dois anos, seus jogos, seu brinquedos, a roupa, começou a escolher o que chamaríamos de "mundo feminino". Se colocava coisas na cabeça e simulava que tinha cabelo grande, calçava meus sapatos, e também meus vestidos. Quando começou a pedir brinquedos, diretamente pedia brinquedos que considerávamos de menina, pedia vestidos de princesa, construía casinhas, e brincava de ser mãe e perguntava quando teria uma filha.

Nós lhe dizíamos que porque queria ser uma menina se era um menino e dizia que era porque gostava das coisas de menina. Então que dizíamos que poderia ser um menino e gostar de coisas que o mundo considerava de menina e lhe falávamos que não existia coisas de meninas e meninos, mas que isso nos fazem crer e que poderíamos decidir, o que vestir-se ou brincar. Que não havia nenhum problema decidir pelo o que gostava.

Quando começou a ir para o jardim de infância, começou a ter dificuldades e isto tem a ver com o social. Por exemplo, usava um vestido como o que usava em casa, ali se ia ao canto da casinha e as meninas lhe diziam que para ir embora porque era um menino, então com essa mesma roupa ia ao cantinho onde ficavam os meninos, e eles riam porque diziam que esta roupa era de menina. Assim foi o começo de sentir-se mal. Nós começamos a falar com a professora e isso foi sendo trabalhado no grupo.

No primeiro grau nos acompanhou uma professora maravilhosa, porque neste momento Bauti começou a lutar por suas escolhas. Decidiu acompanhar a fila das meninas e foi acompanhado durante esse tempo.

No segundo grau nos pediu uma psicologa, algo que já havia pedido mais cedo, dizendo que tinha problemas. Um destes problemas era que cada vez gostava mais de coisas de meninas e que não entendia porque, e o segundo problema era a reação que tinha de chorar sem parar, um lamento com muita angustia e também pesadelos. Aí o levamos a uma psicologa e teve mais permissões com a roupa.

Perguntávamos-o o que queria para ser feliz e ele pediu um cabelo comprido, usar diariamente roupas de menina. Foi fazendo sua transição rapidamente e estava muito feliz de que se estava reconhecendo com quem era. Logo começou a mudar seu nome, nos disse que Bautista era um nome muito lindo mas que quando o escolhemos, nós não sabíamos que ela era uma menina e tempos depois nos contou que havia escolhido seu nome e nos disse: "Eu sou Serena Catalina Aguayo Alaria", escolheu para seu DNI [RG argentino] e também um nome composto. Em pouco tempo, quis ter um DNI com seu nome.

Foi assim que nós entramos em contato com Daniela Maidana, mãe de Julian, um menino transgênero, com quem compartilhamos o grupo de Whatsapp "Infâncias Livres". E neste momento, aqui na província não andanvam muito bem estes temas... assim nós conhecemos Daniela e nos emanou para sempre a luta porque de ganhar visibilidade as infâncias trans.

O tramite do DNI nos custou bastante, nos pediam laudos psicológicas e da escola, nós nos negamos a fazer qualquer laudo, nos tínhamos a lei, trabalhamos com a direção de Diversidad de Neuquén, pressionamos e por último ameaçamos que íamos fazer algo amais, diretamente com os meios de comunicação.

Saiu uma diretriz, para ele trabalhávamos com a Secretaria de Ninez [da Criança]. Porque a Lei de Gênero fala em seu artigo 5 de quatro figuras que são: o menino, seus tutores legais, e o advogado do menino. Essa última figura não existe em Neuquén e foi por ele que tivemos problemas. Então atuou a Secretaria de Ninez, para mediar esta falta, onde se fez uma diretriz que foi muito interessante que destaca a Convenção dos Direitos da Criança e da Identidade de Gênero. Com isso e com pressão de nossa parte se obteve a retificação da partida e que Serena tenha sua DNI e em pouco tempo também teve Julian.

Depois de tudo isso, com Daniela e meu marido nos propusemos a começar a trabalhar pela visibilidade, começando como infâncias trans, mas nós sabemos que é permitir as infâncias fora de imposições binárias, heteronormativas, tão patriarcais, que marcam a decisão de um gênero ou outro e permitir que sejam nossos filhos os que nos mostrem quem são e quem querem ser. Decidimos denominar o grupo para começar a pensar, refletir e atuar, decidimos o nome Novas Crianças e agora estamos começando com isto. Nos parece muito importante conscientizar a nivel familiar.

E o outro grande eixo muito importante são as escolas, que os professores possam estar capacitados em duas leis básicas: a lei de ESI e a lei de Identidade de Gênero. Pensamos em palestras não apenas para sensibilização mas também de capacitação, e em função destes, temos algumas jornadas com o grêmio de Neuquen que é Aten. A última jornada fizemos com o grêmio Unter de Rio Negro. Foi em Cipolleti, uma capacitação para 160 professores que estavam interessados na temática.

É nossa ideia continuar conscientizando, falando e visibilizando as infâncias como um espaço em que se permita crescer, aprender e ser e que isto seja respeitado. Não estamos de acordo em conformar associações ou organizações, nós queremos ser famílias em plena liberdade de crescer em acompanharmos, contendo e podendo conscientizar e criar o mais livremente possível e acompanhar na criança também
Nos reunimos dois sábados por mês, nos acompanha um pediatra e aproximadamente se vão a somar outros profissionais, como uma psicóloga, para acompanhar este transitar destas famílias.

Este é o caminho que recém começa, esta oportunidade que nos deram nossos filhos de romper primeiro nossas próprias estruturas. Em meu caso como mulher, como família e que tem outras formas de compreender o mundo e que estas crianças o veem mostrando de maneira tão clara, segura e consciente.

Orgulho

Este relato da conta de porque é tão importante organizarmos, não apenas por questões de opressão que o sistema patriarcal, heterosexista e machista nos deparamos, mas também contra a exploração que cai sobre os trabalhadores e trabalhadoras, mais ainda quando nos dizem qeu não há dinheiro para a saúde, moradia e educação, que temos que seguir pagando a dívida que não nos corresponde e que nos lhes toca o peso dos enormes subsídios que recebe a Igreja.

Esta instituição é a primeira em fomentar preconceitos inverossímeis como o vimos antes do debate pela direita do aborto legal, seguro y gratuito. E odeia profundamente a quem decidem construir sua identidade de gênero e sexualidade, por fora dos "sagrados" mandamentos.

Por tudo isso, façamos como os milhares de jovens que ganharam as ruas pelo aborto legal, seguro e gratuito, para que também se aplique a lei de Educação Sexual nas escolas, por isso lutamos também pela separação da igreja do Estado.

Neste 28 de Junho se realiza a marcha com a consigna #BastaDeTravesticidios. Cabe lembrar que há 49 anos de Stonewall, que todos los direitos nós conquistamos nas ruas. Voltemos a ganhá-las.




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