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III Congresso do MRT vota batalhar por uma esquerda anti-imperialista e de independência de classe

Com delegados de vários estados do país nos dias 18, 19 e 20 de maio ocorreu o III Congresso Nacional do Movimento Revolucionário de Trabalhadores, integrante da Fração Trotskista pela reconstrução da IV Internacional.

terça-feira 22 de maio| Edição do dia

Nos dias 18, 19 e 20 de maio ocorreu em São Paulo o III Congresso Nacional do Movimento Revolucionário de Trabalhadores. Com delegados eleitos de vários estados do país como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, São Paulo, Brasília, Rio Grande do Norte e Paraíba, o Congresso também contou com a presença de uma delegação da Fração Trotskista pela reconstrução da IV Internacional com Claudia Cinatti, dirigente do Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS) da Argentina e Pablo Torres, dirigente do Partido dos Trabalhadores Revolucionários (PTR) do Chile.

Marcelo Pablito, dirigente do MRT foi votado pelos delegados como presidente do Congresso. Como mesa honorária os delegados votaram: Karl Marx nos seus 200 anos, os trabalhadores e jovens que protagonizaram o maio de 1968 e que esse ano batalham contra os ajustes de Macron, o povo palestino que resiste contra os ataques do Estado de Israel com apoio do imperialismo e Marielle Franco, vereadora de esquerda no Rio de Janeiro assassinada por denunciar os crimes policiais. Dos delegados eleitos 46% eram do movimento operário, 71% eram mulheres e 30% negros.

Estiveram presentes nos Congresso dirigentes operários, de juventude e intelectuais do MRT como Diana Assunção, Maíra Machado, Flávia Valle, Carolina Cacau, Danilo Magrão, Iuri Tonelo, Simone Ishibashi, Adailson Rodrigues, Odete Cristina, Felipe Guarnieri entre outros. Com delegadas e delegados que expressavam os principais trabalhos políticos do MRT como entre trabalhadores da USP e metroviários, atuando como minoria da Direção do Sintusp e da Diretoria do Sindicato dos Metroviários, mas também em categorias como professores, gráficos, metalúrgicos, bancários, carteiros, siderúrgicos, trabalhadores terceirizados, rodoviários, entre outros.

Na sexta-feira o Congresso teve início com um informe de André Augusto, dirigente do MRT, sobre a situação internacional. Começou demonstrando que apesar da pálida melhora dos índices da economia mundial em 2017, suas bases são muito frágeis, não tendo podido absorver os problemas estruturais surgidos após a queda do Lehman Brothers e o estouro da crise em 2008. O governo de Donald Trump e a ascensão de tendências nacionalistas nos países centrais – Brexit, partidos xenófobos na Europa – são fruto disso e mostraram o esgotamento do consenso globalizador neoliberal, que se tornou hegemônico depois do fim da Guerra Fria. Em meio a fortes contradições internas e externas, Trump mudou a agenda internacional, voltando a colocar no centro a disputa entre os “estados nação“ em detrimento das tendências globalizadoras. A continuidade da crise econômica reestruturou as disputas interimperialistas, e com isso, modificou o curso da política interna nos países dependentes e semicoloniais: o imperialismo mostra mais agressivamente sua interferência em todos os aspectos da vida política, econômica e social destes países, subordinados às cadeias do capital estrangeiro pelas próprias burguesias nacionais.

Assim, discutimos a renovada ofensiva do imperialismo sobre a América Latina em geral, e sobre o Brasil em particular. Entretanto, esta ofensiva se dá não com o “triunfalismo” imperialista da década de 1990, mas através de um neoliberalismo senil e decadente, cuja maior expressão é Trump. Em nosso subcontinente, vimos a decomposição dos heterogêneos governos populistas da América Latina, que mantiveram a subordinação estrutural da região ao imperialismo, e a entrada em cena de governos de direita que não estão assentados e que não puderam reverter a relação de forças da década anterior. Com a continuidade da crise mundial, e a possibilidade da saída de capitais e a queda dos preços das matérias-primas, a América Latina pode viver giros bruscos na situação que recoloquem a luta de classes na cena política, como vimos nas jornadas de dezembro contra a reforma da previdência na Argentina.

Neste tabuleiro político regional de renovada intervenção das potências mundiais, discutimos ser indispensável enfrentar não apenas os governos capachos da direita, mas também os velhos projetos nacionalistas burgueses que mantiveram de pé as bases estruturais da submissão ao imperialismo, como o PT no Brasil, e que em meio à crise econômica alentam a ilusão reacionária de poder retornar às reformas limitadas e precárias dos anos 2000 através das eleições, sem nenhuma base material para isso. Nesta batalha, contra o neorreformismo e a política do nacionalismo burguês, os marxistas revolucionários podem fazer a diferença, dando um conteúdo concreto ao internacionalismo de combate. A luta dos trabalhadores argentinos contra os ajustes de Macri e o novo saque nacional pelo FMI pode ser um grande impulso para a batalha contra o ataques dos golpistas no Brasil.

No sábado, Leandro Lanfredi, dirigente do MRT, abriu o ponto nacional com um informe sobre as tendências da situação política no Brasil frente à crise do regime, a conjuntura eleitoral e as tendências da ofensiva imperialista na América Latina. Passados dois anos do golpe institucional, a crise no país está longe de ser resolvida. A burguesia conseguiu aprovar ataques importantes como a reforma trabalhista e a PEC 55, mas isso está longe de saciar sua sede e necessidade de abocanhar uma parcela maior do orçamento para entregar aos donos da dívida, e está longe de estabilizar o país e menos ainda de conseguir que seu programa seja aceito pela população. Graças à atuação "perfeita" da burocracia sindical para impedir a tendência à ação dos trabalhadores que estes ataques foram aprovados. Mas mesmo assim o país não está estabilizado à direita, mesmo comprando deputados, Temer não pode votar a Reforma da Previdência, entre outros exemplos de limites à esquerda para a consolidação de uma situação onde predominam elementos reacionários. Os limites são – hoje por hoje – passivos e distorcidos, mas expressam uma correlação de forças de fundo.

O avanço do golpismo não o torna mais aceitável aos trabalhadores, muito pelo contrário. Suas promessas de acabar com a corrupção e melhorar a economia já se comprovaram aos olhos da maioria como o que eram: mentiras. Buscaram com o golpe aprofundar os ajustes que o governo Dilma já vinha fazendo como também buscaram aumentar a submissão do país aos interesses imperialistas. Dilma e o PT deram todos sinais para o "mercado" e para o imperialismo que se dispunham a aplicar estes ataques, Dilma assinou junto de Renan e Serra a entrega do pré-sal, cortou direitos dos desempregados e colocou a condução da economia nas mãos de um indicado do Bradesco, Joaquim Levy. Mas isso não era suficiente para os interesses imperialistas por trás do golpe institucional.

Hoje, com a arbitrária prisão de Lula vemos um fortalecimento de sua figura e de seu discurso, funcionando como um verdadeiro "polo de atração". O programa defendido por Lula e pelo PT passou a influenciar a posição de diversos grupos da esquerda, inclusive o PSOL que assina junto ao PT e diversos partidos um "Manifesto Unidade para Reconstruir o Brasil" que defende a "responsabilidade fiscal", ou seja, cortar gastos para seguir pagando a dívida. Menos saúde, menos educação, cortes na aposentadoria para entregar fortunas ao imperialismo e outros saqueadores "nacionais". Durante seus anos de governo o PT pagou aos donos da dívida uma fortuna que vale mais que todo o PIB do Brasil, e ao mesmo tempo a dívida duplicou. Ao mesmo tempo, o golpismo institucional segue influenciando fortemente grupos de esquerda como o PSTU, que apoiou o golpe institucional e agora segue sendo parte da base de apoio pela prisão de Lula.

As diferenças do PT com Temer e com o PSDB não tocam o fundamental: a submissão ao imperialismo via pagamento da ilegal e abusiva dívida pública, que consome cerca de R$ 1 trilhão ao ano. Com maiores ou menores intensidades, tanto os golpistas como o PT se preparam para seguir os ajustes e para seguir – ou aprofundar – o saque do país pelo imperialismo. Nosso congresso partiu desta caracterização esboçada aqui em traços gerais para avançar em um programa e uma orientação para combater a submissão ao imperialismo e os ajustes e privatizações como a da Petrobrás, combatendo o golpismo mas também a demagogia de "soberania" feita pelo PT e pelos signatários do Manifesto Unidade.

No ponto de balanço e orientação, Diana Assunção e Marcelo Tupinambá, dirigentes do MRT, deram um informe buscando sintetizar, a partir das análises internacional e nacional, a necessidade de construir uma organização claramente anti-imperialista e de independência de classe, um perfil que sintetiza a batalha pela construção de um verdadeiro partido revolucionário dos trabalhadores no Brasil. Para levar adiante este perfil, os delegados votaram como principal campanha no próximo período a batalha pelo não pagamento da dívida pública, denunciando este mecanismo de subordinação e saque do imperialismo norte-americano em relação às riquezas nacionais, algo que deverá ser aprofundado pelo golpe institucional mas que nos anos de governo do PT foi mantido da mesma forma, retirando dinheiro da saúde, da educação e da aposentadoria. Infelizmente, nem mesmo as candidaturas do PSOL como de Guilherme Boulos levantam este programa, o único capaz de enfrentar a crise no país sem manter a subordinação ao imperialismo, o que também aponta uma ausência de candidaturas anti-imperialistas e de independência de classe nas próximas eleições.

O Congresso também reafirmou a necessidade de batalhar pela construção de uma frente única defensiva pela anulação da reforma trabalhista, da reforma do Ensino Médio, da lei da terceirização e da “PEC do teto de gastos”, exigindo das centrais sindicais que abandonem sua trégua aos ataques dos golpistas. O congresso também reafirmou a necessidade de batalhar por esta frente única também aos ataques que estão planejados para o próximo período, como a reforma da previdência e as privatizações; seguir denunciando e lutando contra a intervenção federal no Rio de Janeiro e por uma investigação independente diante do assassinato de Marielle.

No marco da luta contra o avanço do golpismo também se reafirmou a luta contra todo o autoritarismo judiciário da Lava Jato e contra a prisão arbitrária de Lula, pelo direito do povo decidir em quem votar.

O III Congresso do MRT votou também seguir a ofensiva de ideias marxistas com o lançamento das Casas Marx, da Revista Ideias de Esquerda e do Canal Ideias de Esquerda, bem como com a recente publicação das Edições ISKRA“Lutadoras – Histórias de mulheres que fizeram história”. Nos próximos meses organizaremos uma escola de formação sobre o livro “Estratégia Socialista e Arte Militar” de Emilio Albamonte e Matías Maiello, principal publicação da Fração Trotskista no último período.

O Esquerda Diário se consolidou como principal periódico digital no Brasil à esquerda do PT, atingindo mais de 1 milhão de entradas em um mês, e mantendo média de 700 mil entradas mensais em 2018, com centenas de correspondentes em todo o país. Com essa base, e refletindo a atuação concreta em casa estrutura para forjar alas revolucionárias no movimento operário, de mulheres, no movimento negro e na juventude, temos o objetivo de disputar espaço com os principais meios de comunicação da blogosfera petista, combatendo a direita golpista de maneira independente da retórica neodesenvolvimentista e de conciliação de classes do PT, para ampliar as ideias revolucionárias a milhões de jovens e trabalhadores.

Ao mesmo tempo, impulsionando também as agrupações como o Movimento Nossa Classe, grupo de mulheres Pão e Rosas, juventude Faísca e Quilombo Vermelho, o MRT lançará no próximo período um Manifesto Programático que sintetize o programa revolucionário para a situação atual no Brasil e mundialmente, buscando avançar na construção orgânica de alas revolucionárias no movimento operário e na juventude.

Construimos o Quilombo Vermelho como uma trincheira na luta contra o racismo e o capitalismo, defendendo a unidade das fileiras operárias (entre negros e brancos, homens e mulheres, imigrantes e nativos, efetivos e terceirizados), confrontando as alternativas "identitárias" e "racialistas" que separam a luta contra a opressão racista da luta contra a exploração capitalista, com um programa e uma estratégia abertamente revolucionária e socialista.

Reafirmamos no Congresso o papel do Pão e Rosas na luta por um feminismo socialista que se enfrenta contra o capitalismo e o machismo, mas também debate de frente contra as variantes do feminismo liberal e feminismo "radical" que separam a luta contra a opressão da luta contra a exploração capitalista. Nos debates sobre a juventude se afirmou a batalha por uma juventude anti-imperialista e de independência de classe como a Faísca, combatendo os projetos de ceticismo e resignação que querem deixar a juventude a reboque de saídas subordinadas ao imperialismo.




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