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Homenagem a Chico de Oliveira: comentários de Ricardo Antunes, Roberto Schwarz e outros intelectuais

Homenagem a Chico de Oliveira: comentários de Ricardo Antunes, Roberto Schwarz e outros intelectuais

imagem: Juan Chirioca

Na última quarta-feira recebemos com pesar a notícia do falecimento de Chico de Oliveira, aos 86 anos. Ele foi professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tendo recebido desta o título de professor emérito em 2008. Também recebeu o título de doutor honoris causa pela UFRJ em 2006 e em 2010 pela UFPB. Nascido em 1933 no Recife, Oliveira foi um dos fundadores do PT, do qual saiu em 2003, filiando-se posteriormente ao PSOL. Foi um crítico ferrenho das políticas privatistas de Lula. Entre suas diversas obras sobre o Brasil, uma das mais célebres é o ensaio de 1972 "A economia brasileira: crítica à razão dualista" e também "O Ornitorrinco". Recebeu pela edição desses ensaios o Prêmio Jabuti em 2004.

A edição do Ideias de Esquerda desse domingo traz quatro declarações sobre Chico de Oliveira, como parte das homenagens a sua obra e seu legado teórico. Primeiro, trazemos uma declaração de Ricardo Antunes, que nos cedeu gentilmente neste sábado sobre a importância de Oliveira. Em seguida, reproduzimos um dos trechos de Roberto Schwarz escreveu nos anos 1990 e reproduzido como adendo ao prefácio da edição de Crítica à Razão Dualista / Ornitorrinco da editora Boitempo, uma passagem que já se tornou célebre sobre a obra de Chico de Oliveira. Também recebemos uma contribuição de Davisson C. Cangussu de Souza, professor de Ciências Sociais da Unifesp, que também cedeu gentilmente uma entrevista neste sábado. Em seguida, trazemos as opiniões de Iuri Tonelo e Edison Urbano, editores do Ideias de Esquerda sobre o autor e, por fim, a declaração de Marcello Pablito, trabalhador do restaurante universitário da USP e diretor do SINTUSP, como parte de trazer um depoimento também sobre a militância política de Chico de Oliveira, que sempre esteve ao lado dos trabalhadores da USP.

Reproduzimos os comentários abaixo:

Ricardo Antunes, professor titular de sociologia da Unicamp:

"A perda do Chico de Oliveira é uma das mais lastimáveis da universidade pública, do pensamento social e da rebeldia que caracteriza o verdadeiro intelectual crítico. Chico era uma figura singular. Seu texto de “estreia” no pensamento social brasileiro eu encontro em seu conhecido “Crítica à razão dualista”, dos anos 1970. Em plena ditadura militar ele tem o significado de uma "mudança de época". Esse ensaio, para quem o leu com atenção e para quem vivia nesse período sabe do seu real significado: ele rompia com o dualismo cepalino, ele rompia com uma visão evolucionista entre o "arcaico" e o "moderno", oferecendo uma fina dialética entre o desigual e o combinado. Mostrando que o "moderno", na história brasileira, tinha fortes interesses na preservação do "atraso".

É por isso que caracterizo este texto como uma mudança de uma época. Chico foi, então, uma figura humana mais que especial, herética, sempre formulando teses e hipóteses que confrontavam os pensamentos críticos então dominantes. Suas teses podem ser encontradas em um amplo conjunto de ensaios, de textos e de livros, sempre chamando atenção para elementos novos, sempre com a ousadia intelectual de tentar remar contra a maré, o que faz com que ele se encontre, nos últimos cinquenta anos, como um dos mais importantes pensadores socialistas no Brasil.

Fica aqui a minha modesta homenagem ao nosso Chico, uma figura humana que aprendi a admirar pela sua ousadia, pelo seu sentido de inquietação e pela percepção de que o papel do cientista social é compreender e ajudar a desvendar os tantos enigmas que se perpetuam nesta já longa tragédia brasileira"

Comentário enviado no sábado, 13 de julho, com exclusividade ao Ideias de Esquerda

Roberto Schwarz, crítico literário, professor aposentado da USP e Unicamp:

“Além de muito bons, os ensaios de Chico de Oliveira sobre a atualidade política são sempre inesperados. Isso porque refletem posições adiantadas, de que no fundo não temos o hábito, embora as aprovemos da boca para fora. A começar pelo seu caráter contundente, e nem por isso sectário, o que a muitos soa como um despropósito. Faz parte da fórmula dos artigos de Chico a exposição de todos os pontos de vista em conflito, sem desconhecer nenhum. Mas então, se não é sectário, para que a contundência? A busca da fórmula ardida não dificulta a negociação que depois terá de vir? Já aos que apreciam a caracterização virulenta o resumo objetivo dos interesses contrários parece supérfluo e cheira a tibieza e compromisso. Mas o paradoxo expositivo no caso não denota motivos confusos. Na verdade ele expressa adequadamente as convicções de Chico a respeito da forma atual da luta de classes, a qual sem prejuízo da intensidade não comporta a aniquilação de um dos campos.

Em várias ocasiões Chico acertou na análise quase sozinho, sustentando posições e argumentos contrários à voz corrente na esquerda. O valor desta espécie de independência intelectual merece ser sublinhado, ainda mais num meio gregário como o nosso. Aliás, o desgosto pela tradição brasileira de autoritarismo e baixaria está entre os fatores da clarividência de Chico. Assim, como não abria mão de levar em conta o que estava à vista de todos, o seu prognóstico sobre o governo Collor foi certeiro, antes ainda da formação do primeiro ministério. Também a sua crítica ao plano Cruzado, publicada em plena temporada dos aplausos, foi confirmada pouco depois. Nos dois casos Chico insistia numa tese que lhe é cara, segundo a qual a burguesia brasileira se aferra à iniciativa unilateral e prefere a desordem ao constrangimento da negociação social organizada. Ainda neste sentido, quando tudo leva a culpar o atraso de Alagoas pelos descalabros de Collor, Chico explica o “mandato destrutivo” que este recebeu da classe dominante “moderna”, aterrorizada com a hipótese de um metalúrgico na presidência.

O marxismo aguça o senso de realidade de alguns, e embota o de outros. Chico evidentemente pertence com muito brilho ao primeiro grupo. Nunca a terminologia do período histórico anterior, nem da luta de classes, do capital ou do socialismo lhe serve para reduzir a certezas velhas as observações novas. Pelo contrário, a tônica de seu esforço está em conceber as redefinições impostas pelo processo em curso, que é preciso adivinhar e descrever. Assim, os meninos vendendo alho e flanela nos semáforos não são a prova do atraso do país, mas de sua forma atroz de modernização. Algo análogo vale para as escleroses regionais, cuja explicação não está no imobilismo dos tradicionalistas, mas na incapacidade paulista para forjar uma hegemonia modernizadora aceitável em âmbito nacional. Chico é um mestre da dialética.”

Artigo-homenagem de 1992, escrito por ocasião do concurso de Francisco de Oliveira para professor titular da USP, e transcrito “sem prejuízo das ironias que o tempo acrescentou” como “adendo” ao “Prefácio com perguntas” de Roberto Schwarz em Crtítica à razão dualista / O ornitorrinco. Extraído do site da Boitempo, disponível aqui

Davisson C. Cangussu de Souza, professor de Ciências Sociais da Unifesp-SP:

“No último dia 10 de julho nos deixou Francisco de Oliveira, talvez o último dos clássicos das Ciências Sociais brasileiras que restava entre nós, pelo menos daqueles inseridos na sua vertente crítica, que inclui gigantes como Caio Prado Jr., Nelson Werneck Sodré, Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes, Jacob Gorender, entre outros. Na minha modesta opinião, a condição de clássico de Francisco de Oliveira é indubitável. Embora tenha escrito vários livros e ensaios importantes, bastaria Crítica à razão dualista para que ele figurasse entre os autores mais importantes da história do pensamento social brasileiro. Escrito em 1972, quase cinco décadas depois este pequeno texto monumental segue extremamente atual para inspirar a análise e a denúncia de nosso capitalismo dependente e periférico. Descrito três décadas mais tarde por ele pela poderosa metáfora do ornitorrinco, a formação social brasileira, segundo Francisco de Oliveira, articula desenvolvimento e subdesenvolvimento de modo desigual e combinado, conformando uma unidade dialética que muitos teimam em descrever como realidades que correm em paralelo. Na minha visão, o motivo pelo qual Francisco de Oliveira entendeu como poucos o Brasil se deve ao fato de que ele reuniu, com maestria e brilhantismo, dois atributos raros na intelectualidade brasileira. Primeiramente, porque possuía uma compreensão profunda do método materialista dialético, jamais se utilizando do marxismo como uma coleção de conceitos a serem aplicados de modo dogmático e independente da situação histórica. Em segundo lugar, por sua sensibilidade e rigor científico para captar as especificidades do capitalismo brasileiro, sem se curvar ao ecletismo ou aos modismos acadêmicos. Francisco de Oliveira foi um intelectual criativo, visceral, destoante, ainda que controverso em certas ocasiões. Mas, de um modo ou de outro, poucos pensadores brasileiros nos tiraram tantas vezes de nossa zona de conforto. Infelizmente nunca fui seu aluno, mas o considero um dos meus grandes mestres.”

Comentário enviado no sábado, 13 de julho, com exclusividade ao Ideias de Esquerda

Iuri Tonelo e Edison Urbano, editores do Ideias de Esquerda:

“A notícia do falecimento de Chico de Oliveira não se tratou de um evento qualquer entre os estudiosos do Brasil e os militantes da esquerda: pode-se dizer que o sociólogo foi um dos mais importantes intérpretes do pensamento social brasileiro. E a contribuição de Chico de Oliveira se deu precisamente no coração do que foi e tem sido um dos principais debates da sociologia brasileira: as possibilidades e as vias de desenvolvimento de um país de capitalismo periférico como o nosso. A particularidade dos escritos do sociólogo está justamente não na construção de uma nova fórmula de desenvolvimento, ou em aprimorar as teses do subdesenvolvimento da CEPAL, mas na sua crítica a essas teses, ou seja, justamente em demonstrar como a acumulação capitalista no país se baseia em uma complexa combinação entre o atrasado e o moderno, utilizando de modo fecundo na análise nacional a tese de Leon Trotski sobre o desenvolvimento desigual e combinado; traduzindo esta tese à particularidade brasileira, o sociólogo ilustrou e sintetizou seu pensamento quando descrevera, como ressaltou Schwarz, que as formas mais brutais de trabalho informal nas grandes metrópoles não são a expressão do subdesenvolvido, mas a forma moderna da expansão capitalista no Brasil. Em suma, tal contribuição de Chico de Oliveira golpeava de frente a interpretação stalinista, dominante no marxismo daquele momento, uma visão etapista e evolucionista do desenvolvimento nacional.

A dialética de sua contribuição sobre a expansão capitalista no Brasil e toda a perspectiva crítica sobre a “lógica programática” do PSDB (com bases na PUC-RJ) e também do PT (com bases na FGV-SP) quando de seu Ornitorrinco, em que pouco a pouco foi até mesmo criticando suas próprias perspectivas anteriores em torno da distribuição de renda como necessidade para o desenvolvimento (que já apareciam como tensões em seu pensamento nos 1970), acabaram numa visão pessimista ao não encontrar uma forma de resolução política, uma dialética que apontasse no caminho da revolução social no Brasil, que só poderia se dar com o balanço da evolução política do PT e a constituição de um novo partido de uma clara orientação anticapitalista e socialista, uma orientação que o PT nunca teve.

Em suma, como parte de uma geração que construiu o PT e se viu no duro fardo de criticar decididamente o descarrilamento do projeto, o pensamento teórico deste sociólogo não se deteve, na sua última fase da vida, em apontar para o novo, vendo um debilitamento da classe trabalhadora desde os 1980, sem voltar a análise para o potencial ainda muito rico de irrupção de uma das maiores classes trabalhadoras do mundo, que sem dúvida orientada estrategicamente pode promover novas e mais enriquecidas experiências no direção da revolução social. No entanto, por sua integridade intelectual, Chico de Oliveira não se curvou, como muitos de sua geração, ao projeto de conciliação, criticando de maneira fundamentada e aguda os limites de tal projeto (que se consolidaram com a emergência de Lula em 2002) e de qualquer perspectiva de desenvolvimento por essa via, que só poderia terminar em novas tragédias autoritárias, como a que vivenciamos no país do governo Bolsonaro. Esse foi um grande mérito político e intelectual de Chico de Oliveira que, somado a toda sua contribuição teórica à sociologia brasileira, o colocam no patamar de um dos principais intelectuais do pensamento social brasileiro, talvez o principal das últimas décadas ao lado de Florestan Fernandes”

Marcello Pablito, do Sindicato de Trabalhadores da USP:

"Chico sempre foi um grande aliado nas lutas em defesa da universidade, e, mesmo aposentado e já afastado das atividades docentes, nunca deixou de estar nas lutas, vir à universidade e comparecer nos momentos fundamentais em que lutamos. Em 2009 sua postura de defender um programa de democratização radical da universidade, se recusando a compactuar com as vias institucionais que iam cavando os ataques que hoje vemos privatizando e precarizando a USP, é uma amostra fundamental de sua coerência e honestidade intelectual, em meio a muitos debates que sempre mantivemos de forma fraternal. Foi também um defensor contra os ataques a nosso sindicato, seja combatendo a demissão ilegal de um diretor de nosso sindicato, o Brandão, ou, em 2016, nos apoiando contra a tentativa da reitoria de tirar nosso sindicato do campus. Foi testemunha em defesa da companheira Diana Assunção que sofreu um processo administrativo por parte da Reitoria em clara perseguição política. Também esteve entre os valorosos professores que souberam manter sua independência frente aos governos do PT, denunciando sua política de conciliação de classes, e depois denunciando o golpe da direita para colocar Lula na cadeia e Temer no governo. Sua morte é uma perda imensa para todos nós que lutamos em defesa da educação pública, e também contra os ataques do governo Bolsonaro. Hoje, dizemos: Chico de Oliveira, presente!"

Comentário realizado no dia 10 de julho, reproduzido nesse edição do Ideias de Esquerda

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