Teoria

TEORIA MARXISTA

Hegel: anseio revolucionário – parte 3 (A paixão)

Iuri Tonelo

São Paulo

segunda-feira 15 de junho de 2015| Edição do dia

Os sentimentos da nova geração parecem ser um misto de corações que palpitam com a mudança, mas com a angústia e o tédio de um mundo gris hipermoderno. Os últimos anos foram momentos de acelerada transformação social e política no mundo. Desfizeram-se ditaduras, burocracias, estabilidades. A sociedade começou a enterrar o dogma neoliberal do “eterno retorno” da sociedade capitalista, sua eterna reprodução...de que a vida vai ser assim.

Ressurge efervescente um ambiente ideológico novo, de ideias, ideologias, de poesia, de anseio pelo futuro. As lições do passado, que antes pareciam que estavam escondidas, começam a irromper como um vulcão. O comunismo parecia dormir apenas para despertar com mais vigor, mais força, com novos sonhos.
No entanto, o peso do fantasma dos mortos pesa sobre o cérebro dos vivos (Marx) e todo tipo de resquício da psicologia neoliberal se mantém com força. Aquele monstro “mais feio, mais iníquo, mais imundo”, o tédio que descrevia Baudelaire, parece confundir a todo momento a psicologia dos novos protagonistas e atores do novo mundo pós crise econômica de 2008. As vezes parece apenas que falta um sentido, que falta paixão.

É preciso se apaixonar! No entanto, a paixão na história da filosofia apareceu como um termo mais ou menos ruim: os homens e mulheres não devem ter paixão. Esta aparecia oposta a capacidade racional dos humanos. “Conter as paixões” era sinônimo de evoluir racionalmente. Na política, Hobbes foi um dos grandes expoentes em ligar as paixões à necessidade de um ente superior (o Estado), um Leviatã, que controlasse as paixões humanas, se colocasse acima delas, organizasse a sociedade em outra lógica. E depois os iluministas ligaram as leis ou a própria moral, como artifícios racionais de desenvolvimento social.

Em nosso tempo, podemos dizer que uma das grandes misérias do capitalismo contemporâneo é buscar incutir a ideia de que os homens e mulheres não devem ter paixões; ou, o contrário para dizer o mesmo, canalizar os impulsos revolucionários das pessoas ao redor da mísera ideologia de “felicidade” na patriarcal família, na submissão no trabalho e, por fim, na redenção pelo consumismo, pela sempre repetitiva pulsão de criar novas necessidades fúteis, consumir para se realizar.

Por isso já no senso comum cultural é um dado que os impulsos mais apaixonantes da juventude, seu anseio de mudança, sua gana de querer transformar o mundo são motivo de chacota da ideologia dominante. O jovem rebelde é só um jovem, ou seja, um adjetivo pejorativo, pois é um idealista e não um conformado com o mundo como ele é. Como sintetiza lapidarmente o provérbio: “ser de esquerda com menos de 30 é uma necessidade, com mais de 30 é uma tolice”. Por isso, amadurecer é sinônimo de “se conformar”, para essa visão.

Mas já lá atrás Hegel havia estilhaçado a separação entre a razão e paixão (e em outra perspectiva serve contra o conservadorismo dominante atual). Para o filósofo alemão o desenvolvimento da razão na história e a expressão mais aguda das paixões humanas não estavam em oposição, mas em sintonia. Precisamente com essa concepção Hegel sustentava que os gestos mais profundos dos indivíduos estão em combinar o que existe de mais profundo nas necessidades históricas (do movimento da “Razão”) com seu interesse mais íntimo e, nesse sentido, advogou o que seria uma das passagens mais poéticas de sua filosofia, segundo a qual “nada de grande se realizou no mundo sem paixão”. Conforme diz:

“A paixão se considera como algo que não é bom, que é mais ou menos mal; o homem – se diz – não deve ter paixões. A palavra paixão não é, no entanto, justa para o que quero expressar aqui. Refiro-me em general a atividade do homem impulsionada por interesses particulares, por fins especiais, ou ainda, por propósitos egoístas, de tal modo que estes colocam toda a energia de sua vontade e caráter em ditos fins, sacrificando todos os demais fins possíveis ou, melhor dito, todo o resto. (...) Dizemos, portanto, que nada se produziu sem o interesse daqueles cuja atividade cooperou. E se chamamos paixão ao interesse no qual a individualidade inteira se entrega – a despeito de todos os demais interesses diversos que se tenha ou se possa ter – e se fixa no objeto com todas as forças de sua vontade, e concentra neste fim todos seus apetites e energias, então devemos dizer que nada de grande se realizou no mundo sem paixão” (Hegel, Filosofia da história universal).

Com essa perspectiva Hegel irrompeu, no plano da filosofia, contra a milenar oposição entre razão e paixão, e lhe atribui um caráter superior aos indivíduos que buscavam essa vinculação, entre os interesses históricos e suas paixões individuais.
Aqui reside um grande dilema psicológico dos indivíduos no mundo atual. Frente à vida cética e pálida que as classes dominantes propõem, desenvolve-se a necessidade de um “suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de uma situação sem alma”...a religião, no século XIX ou, o que é mais comum hoje, as perturbações psicológicas, a melancolia, o tédio, a depressão. Os indivíduos buscam não deixar se afogar, mas apartados de uma perspectiva coletiva e histórica, acabam sofrendo as tormentas do mar da ideologia burguesa.

É que a nossa é uma época de paixões sociais. Mas a forma de desenvolvimento dessa época teve que expressar na literatura a mais potente e avassaladora paixão nos indivíduos, como parte da constituição da sociedade burguesa e da formação da personalidade nessa sociedade, que não deixa de ser uma base fundamental para sua superação, uma sociedade que combine a associação de produtores livremente associados e a emergência da personalidade, mais viva, mais poética e mais intensa no socialismo que em qualquer estágio do modo de produção capitalista. A transição para esse momento, segundo apreende brilhantemente Leon Trotsky, esteve em Shakespeare:

“Nas tragédias de Shakespeare, que seriam impensáveis sem a Reforma, o destino antigo e as paixões medievais são expulsas pelas paixões humanas individuais, o amor, o ciúmes, a sede de vingança, a avidez e o conflito de consciência. Em cada um dos dramas de Shakespeare, a paixão individual é levada a tal grau de tensão que supera o homem, fica suspensa por cima de sua pessoa e se converte em uma espécie de destino: os ciúmes de Otelo, a ambição de Machbeth, a avareza de Shylock, o amor de Romeu e Julieta, a arrogância de Coriolano, a perplexidade intelectual de Hamlet. A tragédia de Shakespeare é individual e neste sentido carece da significação geral do Édipo Rei, onde se expressa a consciência de todo um povo. Comparado com Ésquilo, Shakespeare representa, entretanto, um gigantesco passo adiante, e não um passo atrás. A arte de Shakespeare é mais humana. Em qualquer caso, não aceitaremos uma tragédia na qual Deus ordena e o homem obedece. Daqui em diante, ninguém escrevera uma tragédia semelhante” (Trotsky, Literatura e Revolução).

Ou seja, antes da filosofia, a literatura de Shakespeare consegue expressar pela via estética o desflorar da personalidade como produto dos conflitos insaciáveis na sociedade capitalista que iria emergir. Não se trata de sentimentos meramente individuais (em oposição a forma épica) que vivem as personagens de Shakespeare. Ao contrário, a força humana que envolve completamente as ações são produto de que os sentimentos tão intensos ao nível de irromper contextos, são paixões que devoram a vida e lhe dão novo significado, fazem dos indivíduos mais sujeitos, libera a personalidade, como pontua Trotsky:

“A sociedade burguesa, uma vez atomizadas as relações humanas, havia-se fixado durante sua ascensão um grande objetivo: a liberação da personalidade. Daí nasceram os dramas de Shakespeare e o Fausto de Goethe. O homem se considerava o centro do universo, e por conseguinte da arte. Este tema bastou durante séculos. Toda a literatura moderna não tem sido mais que uma elaboração por este tema, mas o objetivo inicial – a liberação e qualificação da personalidade – se dissolveu no domínio de uma nova mitologia sem alma quando se pois em evidencia a insuficiência da sociedade real frente a suas insuperáveis contradições”.

A resposta de Hegel ao tratar das paixões no terreno da filosofia visa dar outro passo: partir da intensidade das emoções (no contexto do romantismo alemão) e ligá-las a um sentido global, racional em seu caso.

A força da filosofia de Hegel nesse ponto também traduz sua grande debilidade. A emergência da burguesia como classe e do Estado burguês como forma política se demonstrou a todos não como a forma de elevação da humanidade, mas principal fonte de opressão e manutenção da feroz exploração social entre classes.
Nesse sentido, a sociedade capitalista coloca em choque a todo momento o impulso de liberação da personalidade contra o seu desenvolvimento na medida em que se baseia em uma sociedade de intensa exploração do trabalho, convivendo com distintas formas ideológicas de manutenção dessa exploração, formas de opressão entre as classes.

Por isso a única forma de liberar a personalidade frente a barbárie capitalista é ligar os anseios e paixões individuais a uma perspectiva comunista, à luta pela transformação radical da sociedade, à revolução social. Imbuídos dessa concepção, a ideia de Hegel de que “nada de grande se realizou no mundo sem paixão” ganha um novo significado, mais intenso e profundo, correspondente aos dilemas e necessidades de nossa época, a época da revolução dos trabalhadores.

[*] atualizado em 18/01/2016




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