Internacional

GREVE DE FERROVIÁRIOS NA FRANÇA

Greve dos ferroviários na França: Para aonde vai a estratégia da direção dos sindicatos?

A greve da SNCF (Sociedade Nacional das Ferrovias Francesas, na sigla em francês), após mais de dois meses de conflito, está em um momento chave. Enquanto a maioria dos trabalhadores ferroviários estão em greve desde o dia 22 de março, o governo não cedeu um dedo em relação à reivindicação de anulação da reforma. Porém, as direções sindicais que deveriam estar hoje conduzindo um endurecimento da correlação de forças, no pior cenário, começam a anunciar um fim do conflito, na melhor hipótese, persistem na estratégia de derrota vista como tal por grande parte dos ferroviários.

terça-feira 29 de maio| Edição do dia

Créditos da foto: LouizArt

Autor: Gherasim Bataille

UNSA (União Nacional dos Sindicatos Autônomos) e CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) se direcionam ao fim da greve

Guillaume Pepy, presidente da SNCF, sintetizava a situação na manhã de segunda-feira (28) em entrevista à RTL (Radio Télé Luxembourg, cadeia privada de rádio francesa): “Há dois sindicatos, a UNSA e a CFDT, que se tornaram conscientes do progresso desta reforma e que assumiram a posição de refletir, cada um por si, sobre as condições sob as quais eles poderiam sair do conflito”. De fato, na sexta-feira (25), após a reunião com Édouard Philippe, primeiro-ministro da França, demandada pelas próprias organizações sindicais, estas demostraram sinais de capitulação, mais ou menos explícitos ou rápidos, dependendo das centrais. A UNSA desde a saída das negociações anunciou claramente que o diálogo avançava e seu desejo de sair "muito rapidamente" da greve. Se a CFDT continua a afirmar que não pretende "relaxar a pressão", é somente até os dias 5 e 13 de junho, datas de votação da lei no Senado e da reunião da Comissão Mista Paritária (Commission Mixte Paritaire, em francês), respectivamente. Laurent Berger, secretário geral da confederação, anunciou no Journal du Dimanche, no dia 27 de maio, que seu sindicato “quer sair o mais rápido possível do conflito” .

Na segunda (28), os representantes da UNSA e da CFDT reuniram com o presidente do Senado, Gérard Larcher, e seguiram na mesma linha: a saída deles da greve dependerá das consequências da passagem do texto no Senado amanhã. “Nós atentaremos ao que será destacado no Senado para nos posicionarmos definitivamente em relação ao movimento social” , declarou ontem o secretário geral da UNSA Ferroviária, Roger Dillenseger, citado pelo canal de informação política Public Sénat.

As direções sindicais saúdam os avanços sociais obtidos, mas do que estão falando?

Laurent Berger elogiou os avanços sociais obtidos ao considerar a revisão do texto no Senado e disse ter notado positivamente os anúncios de Édouard Philippe relativos à recuperação da dívida da SNCF. Já a CGT, Confederação Geral do Trabalho, anunciou continuar a mobilização, mas suas declarações são no mínimo ambíguas: “em resumo, nós temos um governo que parece mais aberto, mas que ainda tem dificuldades em se envolver” , considerou Laurent Brun, secretário geral da confederação sindical. Outro secretário geral da mesma organização, Philippe Martinez, “notou com satisfação que o primeiro-ministro considerou com atenção a "Votação”.

Nos perguntamos se estas organizações se dão conta da "Votação", sondagem interna sobre a rejeição ou não da reforma de Macron dentro dos sindicatos da SNCF, cuja relevância já viemos questionando pois já havia sido "feita" pela participação maciça dos ferroviários na greve (9 entre 10 trabalhadores ferroviários participaram pelo menos de um dia de greve). No entanto, os resultados anunciados reafirmaram o que já era explícito: 94,70% dos ferroviários (com 61% de participação na "Votação") rejeitaram a reforma.

Porém, longe de tomar este resultado como ponto de partida e de lutar à altura da rejeição dos trabalhadores à reforma, as centrais sindicais se contentam em utilizar o resultados para consolidar sua legitimidade e usá-lo como uma simples ferramenta de pressão nas negociações. Enquanto os ferroviários mostram, desde a divulgação do Relatório sobre o Futuro do Transporte Ferroviário (Relatório Spinetta), entregue ao primeiro-ministro Édouard Philippe em 15 de fevereiro de 2018, e inúmeras vezes em suas assembléias gerais, que eles recusavam em massa esta reforma que irá destruir suas condições de trabalho e o serviço público ferroviário, os sindicatos de satisfazem com modificações extremamente limitadas, que não podem nem ao menos ser consideradas migalhas.

A recuperação da dívida: acobertamento n°1

O governo não cedeu em nenhum ponto da reforma. Quais são, portanto, os avanços animadores brandidos pelos sindicatos? O primeiro, clamado pelas mídias e por Pepy como razão pelo qual a greve deveria terminar imediatamente, é a recuperação da dívida da SNCF em até 75%, cerca de 35 bilhões de euros, pelo Estado. Esta recuperação da dívida - pela qual os ferroviários não são nenhum pouco responsáveis e causada em grande parte pela construção de linhas de trem de alta velocidade (TGV) ocasionalmente inúteis, pela reorganização da empresa em três entidades, em 2014, similar em magnitude a de países vizinhos onde as ferrovias foram privatizadas - não mudará em nada as condições de trabalho dos ferroviários.

Intransferibilidade da SNCF

Édouard Philippe e a Ministra dos Transportes, Elizabeth Borne, martelam a vários dias que a i“ntransferibilidade dos títulos do futuro grupo ferroviário será finalmente gravada na lei” . Uma "cortina de fumaça" que visa claramente tranquilizar os trabalhadores ferroviários após o vazamento de um documento interno da direção da SNCF em que seu projeto de privatização ficou explícito. Privatização que não irá proteger tal cláusula.

A intersindical persiste na estratégia da derrota

Quanto ao resto da intersindical, a CGT, a FO (Força Operária) e a Sud-Rail (sindicato da atividade ferroviária membro da União sindical Solidários), se não estão ao ponto de sair imediatamente do conflito, não propõe nenhuma estratégia que permitiria uma saída vitoriosa. Se certo número de ferroviários denunciam desde o começo, em suas assembléias gerais, os limites da estratégia dos dois dias de greve a cada cinco dias, esta crítica adquire outro peso quando, após dois meses de greve, a "greve perolada" (greve que interrompe as atividades de uma empresa pela sucessão de pequenas paralisações de trabalho) não proporcionou nenhum resultado tangível, quando as contas de maio acabam de chegar e pais e mães de família - às vezes solteiros - recebem salários com três cifras e, a custa destes, precisam pagar seus alugueis.

Em algumas assembléias gerais, como a de Achères (Yvelines), os ferroviários votaram moções interpelando a intersindical em reafirmação de sua luta « “pela retirada do pacto ferroviário” » e de sua recusa « e“m negociar as condições nas quais a SNCF será privatizada, os empregados transferidos e o estatuto abolido” . "Nós queremos que a correlação de forças seja acentuada para preservar os ganhos sociais e os serviços públicos. (…) Exigimos que as federações e confederações sindicais façam os arranjos para organizar uma mobilização de massa".

Os "intergares": os ferroviários de diferentes estações de trem se reúnem para defender uma política alternativa

Há um mês, os ferroviários, sindicalizados ou não, constroem um quadro de encontros entre estações, se reunindo quase toda semana. No dia 22 de maio, cerca de 350 trabalhadores de diversas cidades da França, como Toulouse, Strasbourg, Nancy, Bordeaux, Nice, Limoges, Amiens, Le Mans, Béziers, Chambery etc, se encontraram para discutir a perspectiva da greve. Os ferroviários destas cidades, a partir de suas assembléias gerais ou em seu próprio nome, testemunharam a fadiga que era sentida em suas estações de trabalho devido à greve "perolada" e denunciaram a ausência de democracia em algumas assembleias gerais, frequentemente dominadas pelos dirigentes sindicais. « A greve "perolada" permite durar, mas não ganhar. E nós não fazemos um mês de greve apenas por fazer. Se há uma mensagem a ser passada, é a de não render. Existe uma alternativa à greve “perolada” , concluiu um sindicalista Força Operária.

Os trabalhadores ferroviários destes encontros entre estações tiveram repetidamente a iniciativa de desafiar a liderança sindical, por exemplo na Assembléia Geral de Achères. Durante o último encontro entre estações, que ocorreu antes da manifestação do sábado (26), conhecida como “maré popular” , eles votaram um chamado exigindo um plano de luta à altura das questões em jogo e da combatividade que permanece até hoje. De fato, depois de dois meses de greve, com as reduções salariais começando a ser dolorosamente sentidas, se os números de grevistas estão em baixa, eles permanecem muito consistentes, expressando um nível de determinação e de raiva que não se satisfará com estratégias perdidas.

Hoje, dia 29 de maio, uma nova reunião entre estações, aberta aos diferentes setores interprofissionias em luta, foi chamada na estação de Austerlitz às 15h, após a manifestação em frente ao Senado, para preparar a continuação da mobilização.

Tradução: Lina Hamdan




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