GRAMSCI/ PCI E CONSELHOS DE FÁBRICA NO BIÊNIO VERMELHO/ 2ª parte

Gramsci, os conselhos de fábrica (1919-1921) e a revolução italiana – uma retrospectiva [Parte II]

Gilson Dantas

Brasília

domingo 11 de março| Edição do dia

Gramsci e os conselhos de fábrica
Voltemos àquele período mencionado na nota anterior, em que a Itália entra em processo revolucionário aberto, conhecido como biênio vermelho, que se estende de 1919 a 1921, e no qual Gramsci participa ativamente, do jornal L´Ordine Nuovo, criado por ele, como integrante da ala esquerda [comunista] do Partido Socialista, este com grande peso sobre o proletariado italiano.

Ali a Itália ficará coalhada de conselhos de fábricas e o país viverá incontáveis greves, em particular seu centro industrial, Milão.

Com o racha no congresso do PSI em janeiro de 1921, funda-se o PCI, com Gramsci em minoria no comitê central.

Ele será maioria na direção do PC em 1926, mas, preso em seguida, dali em diante, até sua morte em 1937 por conta dos maus tratos na prisão, seus escritos serão todos elaborados nas duras e cerceadas condições da cadeia, ao mesmo tempo em que, lá fora, o PCI aprofunda seu processo de stalinização, com Togliatti no comando.

Embora Gramsci reivindique os conselhos de fábrica nos futuros escritos, não mais voltará a refletir sobre eles com a intensidade que fizera durante o biênio vermelho.

Naquela etapa da Itália “dos conselhos de fábrica”, Gramsci travará um debate aberto com Amadeo Bordiga no seio da fração comunista do PSI.
Embora Gramsci estivesse mais bem localizado na defesa dos conselhos de fábrica e sovietes do que Bordiga, mas a concepção do Gramsci daquele momento – que ganhará novos contornos e complexidade nos escritos do cárcere – padece de problemas. Ele pensa no partido como parte da classe trabalhadora [que Bordiga, por sua vez, entendia como órgão do proletariado] e ele, Gramsci, concebe uma homogeneidade interna, para o partido, que o proletariado está longe de possuir, no real. Nessa medida Gramsci entende o partido de forma mais monolítica, mais avesso a frações internas, diferente – pelo vértice – da concepção de Lenin.

Bordiga não é resposta, no entanto, para esse problema do partido e nem para a questão do papel dos conselhos de fábrica e dos sovietes, órgãos que Bordiga entende como sendo de luta puramente econômica, enquanto reserva para o partido o papel exclusivo de órgão emancipador do proletariado.

Mais adiante, fundado o PCI, já no cárcere, Gramsci, apesar de todos os desenvolvimentos que traz para a concepção de partido, continua preso à ideia de “monolitismo”, embora, a seu favor, ele luta também contra o centralismo burocrático. Mas continua formulando - dentre outras colocações nos Cadernos do Cárcere -, “a ideia de um partido menos ´aberto´ à autoatividade das bases, por um lado e, por outro, uma homogeneidade teórica da classe operária que não corresponde à sua real heterogeneidade” [1], como já foi mencionado.

É como se Gramsci continuasse influenciado pela stalinização do PC da URSS, que perpetuou uma norma que era apenas circunstancial, a da proibição de frações no partido.

[Na verdade, ao longo dos seus escritos, Gramsci situa a questão do partido “entre as coordenadas de um partido-processo por um lado e um partido monolítico pelo outro, entre um partido que educa em sua condição de aparato hegemônico e um partido de combate que se prepara para o momento político-militar, que tem sua máxima expressão na guerra civil. Essas tensões continuam sendo produtivas para pensar as condições de desenvolvimento de partidos revolucionários em sociedades do tipo ´ocidentais´ sem tomar o partido bolchevique como um modelo abstrato [saturar de ´espirito russo´, nas palavras de Lenin] e, pelo contrário, ´traduzir´ sua atualidade nas condições concretas de tempo e espaço, sem por isso subscrever os aspectos mais ´monolíticos´ da interpretação gramsciana] (Dal Maso, op cit, p. 149).

Sobre a experiência dos conselhos de fábrica, Gramsci continuara refletindo sobre a ideia do elemento “espontâneo”, a eclosão dos conselhos no biênio vermelho, mas na condição de elemento que pode confluir para a consciência revolucionária, assim como, também, a ideia da centralidade da fábrica, da democracia fabril para pensar a revolução e o comunismo.

Será Trotski, no entanto, quem argumentará sobre o soviete como um organismo mais amplo, mesmo que, desenvolvido a partir do comitê de fábrica, e que permite abarcar os pobres urbanos e do campo.

A questão dos conselhos de fábrica e do controle operário foi desenvolvida por Trotski em textos memoráveis, nos marcos de um debate histórico mais amplo e de grande atualidade.

Atualidade, em especial no sentido do debate da estratégia da moderna revolução proletária, que continua “clássica” no sentido aqui apontado por Gramsci, o da centralidade da democracia operária na luta pelo poder e na construção do novo Estado, o Estado operário.

[1] Dal Maso, Juan, 2016, El marxismo de Gramsci – Notas de lectura sobre los Cuadernos de la cárcel, Ediciones IPS, Buenos Aires, p 136.

[Esta nota integra o prefácio para o livro a sair nos próximos meses com uma antologia dos textos de Gramsci sobre os conselhos de fábrica e o biênio vermelho na Itália: Gramsci, os conselhos de fábrica e a revolução socialista, pela ISKRA/Centelha]
[Nosso agradecimento pelas observações feitas a esta nota por Juan Dal Maso, autor do livro El marxismo de Gramsci – Notas de lectura sobre los Cuadernos de la cárcel, Ediciones IPS-Buenos Aires]




Tópicos relacionados

III Internacional   /    Gramsci   /    Marxismo

Comentários

Comentar