GRAMSCI/ PCI E CONSELHOS DE FÁBRICA NO BIENIO VERMELHO/ 1ª. parte

Gramsci, os conselhos de fábrica (1919-1921) e a revolução italiana – uma retrospectiva [Parte I]

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 9 de março| Edição do dia

Nos limites desta nota [em duas partes], analisaremos elementos da evolução política de Gramsci no período entre o levante dos comitês de fábrica de 1919-1920 [o biênio vermelho] e sua participação nos III e IV congressos da III Internacional [1921-1922].

Comecemos por um pouco da trajetória de Gramsci, principal figura histórica do comunismo italiano, naqueles anos “vermelhos”, pré-Mussolini.

Vida de Gramsci
Nascido em 22-1-1891, sua família vivia condições de grande dificuldade material [1], em cidade no interior da Itália. Gramsci lia, quando jovem, o jornal do PSI, o Avanti!, que seu irmão mais velho lhe enviava de Turim, a capital operária do país.

Gramsci viveu um tempo na cidade onde seu irmão era secretário-geral do PSI, para em 1911 partir para Milão onde estudou na faculdade de Letras até 1915.
Em 1913 se filia ao PSI de Turim e, no ano seguinte, quando eclode a I Guerra, participa de grande manifestação operária-estudantil, a “Semana Vermelha”. Nessa época, Mussolini também milita na juventude do PS.

Em 1915, por dificuldades materiais e de saúde, Gramsci abandona, para sempre, os estudos universitários. Entra para o Avanti! onde ficará até criar seu próprio jornal, o L´Ordine Nuovo, em 1919 [que se transformará em diário desde 1-1-1921]. Em 1917 integra comissão de recepção do partido aos delegados de sovietes da Rússia em visita à Itália.

Eis que a Itália mergulha em convulsão social.

Mais ou menos entre a Revolução Russa e o fim da I Guerra, eclode clima de grande agitação proletária na Itália, com auge em 1919 e 1920. Em 1919 teremos 1 milhão de grevistas. Nos marcos dessas lutas, as 8 horas de trabalho, férias pagas e comissões internas [em chapas do sindicato] são conquistados.
Ao mesmo tempo em que vão se impondo, na luta, os conselhos de fábrica, bem mais democráticos e fortes.

A capital industrial da Itália, Turim, se vê coalhada de comitês/conselhos de fábrica.
É um período em que Gramsci está a todo vapor com o L´Ordine Nuovo que chega a 5 mil exemplares em 1920. Defende os conselhos de fábrica e os estimula e desenvolve como pode.

Em 1919, Gramsci sofre a primeira prisão por conta de ato internacionalista de solidariedade às revoluções russa e húngara.

Em março de 1920, a burguesia tenta seu primeiro lock out contra os conselhos de fábrica; em maio lançaria novo lock out. Antes disso, em abril, há a greve geral que luta pelo reconhecimento dos conselhos de fábrica, derrotada pelo PSI.

Em todo esse tempo, durante aquelas jornadas operárias, Gramsci integra o PSI, sua ala esquerda. Vai romper em janeiro de 1921, quando, no congresso de Livorno, o PSI racha e neste mesmo mês, com maioria de Bordiga, é fundado o PCI, como seção da III Internacional. Gramsci está no comitê central.

A derrota do proletariado em greve e ocupando fábricas [em resposta ao segundo lock out patronal] por conta da passividade do PS, irá se somar a outras derrotas na luta de classes da Europa [Exército Vermelho na Polônia, derrota da “ação de março”, de natureza ultraesquerdista, na Alemanha] o que abrirá um período de refluxo revolucionário na Europa.

Nos primeiros anos do PCI, sua direção não chega a se forjar completamente, sua compreensão da política da III Internacional de Lenin-Trotski é parcial. Tanto que a direção do PCI resiste à política da III Internacional, de frente única operária; e com a progressiva burocratização do PC soviético [stalinização], no plano internacional, o PC italiano vai se alinhar com a política do “socialismo em um só país” de Stálin, e não toma posição de apoio à Oposição de Esquerda russa contra o stalinismo.

Preso até o fim dos seus dias, de 1926 a 1937, Gramsci não terá condições nem de entender – e se informar a respeito - e nem de se opor plenamente ao stalinismo, do qual não foi, em todo caso, entusiasta.

A evolução do pensamento político de Gramsci a respeito da estratégia para as organizações operárias passará por uma determinada evolução.

Gramsci e a política para as organizações operárias
Pouco depois do fracasso das jornadas operárias do biênio vermelho na Itália, Gramsci, já integrando o comitê central do PCI [desde sua fundação em 1921], desenvolverá um salto no seu pensamento político.

Do III para o IV congresso da III Internacional, Gramsci toma a decisão – influenciado por sua experiência política em Moscou, em 1923, após o congresso, também pela conjuntura da ofensiva vitoriosa de Mussolini naquele mesmo ano diante da impotência das organizações operárias dirigidas pelo Partido Socialista etc – de compor um bloco no PCI que fosse alternativo tanto à ala esquerdista de Bordiga quanto à direita de Tasca.

Nesse mesmo movimento começa a girar para a posição tática defendida pelo III congresso: frente única operária.

“Os dois anos, que vão de maio de 1922 a 1924, serão os de maior atividade política internacional de Gramsci. Serão anos fundamentais na formação de seu pensamento político, primeiro por sua estadia na Rússia até dezembro de 1923, como parte do IV congresso da Internacional Comunista e como delegado ao seu comitê executivo pelo PCI, mais tarde transferido para Viena como funcionário do Executivo até maio de 1924.

Durante aquele período, a localização política do revolucionário italiano sofre uma viragem fundamental. O PCI, sob a direção de Amadeo Bordiga e o próprio Gramsci, tinha formado parte da ala esquerdista da Internacional que tinha se oposto à tática de frente única operária tal como tinha sido formulada no seu III congresso.
Depois de sua participação no IV congresso, Gramsci começou a apropriar-se das teses de frente única e da tática de governo operário. Junto com isto, toma a decisão política de constituir uma alternativa dentro do PCI, tanto à direção de Bordiga como a ala direita de Tasca. Doravante a tática de frente única tomará cada vez mais peso em sua reflexão política”.

As contradições na direção do PCI vinham de antes. A dificuldade em conceber ou desenvolver uma tática de frente única operária [à qual a maioria da delegação italiana ao III congresso da Internacional irá se opor no congresso da III Internacional mais adiante, em 1921] levará o PCI, em 1919-20, a não ter adotado a adequada tática política em relação a alas do PSI e às organizações operárias italianas para fazer frente à ofensiva fascista. Não deixemos de leva em conta - reiterando - que o setor ao qual Gramsci estava integrado somente irá se desprender do PS em 1921, se assumindo como PC. Sua experiência política – de Gramsci - estava em construção.

Aquele, de alguma forma, será também um elemento teórico-estratégico ausente nas reflexões de Gramsci sobre os conselhos de fábrica naquele biênio vermelho.
E o motivo, vale repetir, é o de que Gramsci, naqueles anos “quentes” de 1919-20 ainda não amadurecera seu ponto de vista estratégico em termos de tática de frente única operária, que será desenvolvida pela III Internacional nos congressos de 1921 e de 1922.

Ainda em 1923, Gramsci estará em Moscou quando Trotski discute o balanço do fracasso da revolução alemã de outubro daquele ano. Nesse processo, Gramsci evolui, portanto, para um nível superior ao da direção do PCI de então, sobre como lidar com as organizações operárias, inclusive os conselhos de fábrica. Sobre como criar volumes de força na perspectiva de vencer a patronal e instalar uma república dos conselhos de fábrica, soviética.

A trajetória de Gramsci após sua volta de Moscou e de Viena, em 1924, após sua eleição [mesmo ausente] em abril de 1924, como deputado, foi fugaz: preso em novembro de 1926, somente será libertado em abril de 1937, para sofrer um acidente vascular cerebral, falecendo em seguida, em 27 de abril de 1937.

[Na próxima nota examinaremos um pouco mais sobre os problemas políticos do jovem PCI em relação à organização da classe operária – frente única operária – e também a evolução dos comitês de fábrica]

[Esta nota integra o prefácio para o livro a sair nos próximos meses com uma antologia dos textos de Gramsci sobre os conselhos de fábrica e o biênio vermelho na Itália: Gramsci, os conselhos de fábrica e a revolução socialista, pela ISKRA/Centelha]

[1] - Seu pai era funcionário público e foi condenado por um caso de peculato [manejo obscuro de fundos públicos], o que deixou a família em situação difícil.
[2] - Bordiga era de Nápoles e do grupo "fração comunista abstencionista”, que publicava Il Soviet.
[3] - Estratégia socialista e arte militar, Emilio Albamonte e Matias Maiello, 2017, Buenos Aires, Ediciones IPS, pp 184-5. A ser publicado brevemente, em português.




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